Nandadornelles's Blog

Archive for January 2014

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Que sensação gostosa a de ver um sonho realizado! Você pode não estar vivendo esse fato nesse exato momento, mas consegue se lembrar da sensação? É um sorriso espontâneo que brota lá no fundo da sua alma que diz: “Parabéns, você conseguiu. Veja que lindo! Não era isso que você sonhou? Foi esse estado de realização e de identificação que você intuiu?” Ou então uma espécie de surpresa, um surpreendimento a respeito de você mesmo. “Olha só, bem aquilo que um dia eu quis! Que mágico, eu até já havia esquecido e agora, que lindo, bem na minha frente, bem como um dia eu imaginei!”

O poder de realização é inerente à vida e desde criança nos distraímos por exercitá-lo. Houve um tempo em que eu usava esse poder com coisas bobas, pequenas e até incoerentes e distante dos meus verdadeiros propósitos. Mas acho que é algo que só mesmo as nossas experiências constroem na gente e, nesse sentido, meus relacionamentos, a descoberta do Yoga e minha viagem para a Índia mudaram radicalmente a forma de utilizar o poder transformador do autoconhecimento.

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A verdade é que as experiências mais importantes nos marcam porque revelam nossas principais características: gosto de frio mais do que de quente, sou rápido mas resistente, sou alegre mas taciturno… enfim, há tantas maneiras de experimentarmos o mundo e, ainda melhor, todas mutáveis e passíveis de evolução ou mudança. Mas antes, sempre algumas  opcionais outras kármicas, indiferentemente, são unidas pela imprescindibilidade do agora.

Em janeiro de 2010 eu estava em Goa, na, Índia dividindo uma casa com outras três meninas que conheci no Ashram onde fui voluntária. Cada uma de nós tinha seus interesses particulares apesar de termos um objetivo bastante comum: redirecionarmos as nossas vidas para objetivos mais sociais, coletivos e universais mas em total equilíbrio e consonância com nossos propósitos e necessidades pessoais.

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Assim, cada uma passou aquele mês de forma diferente. Eu acordava cedo toda manhã e com uma vela e uma caixa de fósforo na mão subia os degraus de uma réplica da via sacra de Jesus Cristo que terminava no topo de um morro de onde Goa se mostrava a própria lâmpada do Aladin perdida no meio de uma floresta tropical.

Em cada passo de cada degrau eu experimentava sensações das mais diversas enquanto encontrava referências concretas para os aspectos mais importantes da minha vida como, por exemplo, minha verdade sobre Deus e sobre a vida. Eu estava insegura apesar de resoluta. Sabia que o caminho em que as coisas estavam não levaria aonde eu queria chegar e dar continuidade àquela caminhada só levaria a mais e mais frustração, não importava o quanto eu viesse a me dedicar.

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Lá no alto eu fazia meus pedidos. Rezava em voz alta orações memorizadas por tantas urgências já superadas e também outras improvisadas. Cantava, me emocionava, colocava minhas principais questões, dúvidas e dilemas. Aos 27 anos, em mundos paralelos, opostos contraditórios e interligados eu vivia uma mudança radical no curso na minha trajetória ao mesmo tempo em que me preparava para enfrentar perdas, revelações significativas e surpresas das mais imprevisíveis e exigentes.

Mas apesar de eu fazer questão de subir diariamente aquele morro, mesmo cansada ou abaixo de Sol alto, era na varanda da casa que o Universo falava comigo. Era quando eu estava à sombra com o computador no colo escrevendo que o Universo respondia minhas preces. Não é engraçado!? Quer dizer, eu acordava cedo, subia 210 degraus de um morro íngreme e arriscado – sim, só muito mais tarde eu pude me dar conta do tamanho do risco que eu corria fazendo aquela via sacra sozinha em Goa, na Índia – para ser capaz de colocar para Deus o que eu sentia e reclamar sua interferência e solicitar sua presença e pedir por mensagens e conduções enquanto que Ele, O Universo falava comigo quando eu estava relaxada, absorta e entregue àquilo que eu mais gostava.

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A maior parte dos dias eu meditava, estudava e escrevia e isso por si só já era o maior sonho de todos realizado. Mas havia ainda um outro momento especial do dia, que era quando lá no meio do nada onde ficava nossa humilde casa, vinha desfilando um bando de porcos, galos, cabritos e cachorros como se fossem os alunos destaque daquela comunidade. Alguém vinha junto, um indiano que mal nos olhava no olho ,mas observava curioso.

De todos, os cabritinhos eram os que mais me chamavam a atenção. Não sei se pareciam engraçados mas absolutamente simpáticos. Podia vê-los até com suas fardas de banda marcial marcando o passo um depois do outro, concentrados em olhar para frente ocupando com orgulho o seu lugar no espetáculo.

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Entre uma palavra e outra digitada com afinco e convicção, era surpreendida pela trupe da felicidade em seu caminho pela realização do destino. E era ao virar meu rosto de algo tão prazeroso quanto a escrita e aquela comunhão universal pressentida que concretizava uma das minhas impressões mais fortes a respeito da vida num reforço quase exagerado da mais pura alegria. A medida em que a fila de bacharéis passava numa demonstração particular dos meandros da perfeição algo dentro de mim dizia: é isso, isso é vida!

Assim, há quatro anos eu fiz um pedido mais consciente, humilde e respeitoso querendo saber algo mais a respeito da felicidade e o fiz enquanto comemorava a visita daqueles bichos, o privilégio de assistir a passagens daqueles cabritos e de ser contagiada por um estado de espírito tranquilo, como se cada um deles vivesse perfeitamente equilibrado na inteligência da natureza que manifesta sempre o melhor que pode ser e assim encontra o seu caminho natural de viver.

Hoje, depois de desafios de complexidade até desproporcionais a toda essa simplicidade que acomodava meus sonhos e reorientava minha vida, recebi surpresa o aceno do filho do vizinho que normalmente deixa seus cavalos para pastar no terreno ao lado do nosso mas que hoje trouxe ao toque da sua corda 5 simpáticos cabritos, deixando nosso dia já feliz agora ainda mais naturalmente alegre e fluido.

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E como na vida nada se perde e tudo se transforma, toda a dedicação e determinação desses últimos anos voltou a se confirmar e a se justificar a medida em que me permitiu religar mais uma vez todos esses pontos com tamanha satisfação e surpresa. Sim, porque quando fiz meus pedidos nem imaginava ou pedia para que um dia pudesse assistir o desfile dos bichos, escrever sobre isso e ainda na companhia da minha própria família, como acontece agora!

E, talvez, a surpresa maior trazida pelos cabritos foi a oportunidade de perceber o quanto o valor de um momento como esses pode funcionar como o remédio mais poderoso e cicatrizar feridas oriundas da própria busca pela felicidade experimentada e iniciada lá em janeiro de 2010 na Índia. E é engraçado olhar para trás agora e perceber tanto esforço para encontrar o foco certo e a ação mais correta possível, sempre pautada em verdades pessoais ansiosas pelo preenchimento amoroso e reconfortante das Leis Divinas se justificar na própria paz da consciência tranquila, principalmente, de nunca usar os caminhos tortuosos do Universo para cair em vitimismos ou ser motivo para corroborar qualquer comportamento vingativo.

A Felicidade hoje nos pegou desprevenidos bem quando fomos surpreendidos por méés e relinchos pra nos lembrar que ser verdadeiro consigo mesmo é o melhor presente que nós podemos dar a nós mesmos. E viva os cabritos!!!

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A todo momento estamos fechando ciclos. Alguns oficiais como aniversário, formatura, divórcio, outros, intrometidos desconfortos soam azar ou imprevisto. Nascer, viver e morrer, estamos falando do ciclo da vida que acontece dentro de nós a todo momento. Nós podemos não saber, mas nosso corpo sente e responde. A resposta pode ser uma enxaqueca, uma dor de barriga, uma fala mais incisiva ou uma doença degenerativa. Um corpo saudável manifesta o que sente com liberdade e pra mim esse é o melhor conceito de arte.

Apesar da minha ousadia em falar da verdade sei que meu pensamento é apenas uma perspectiva e da soma de milhares delas em pares é que se forma a realidade de cada instante. Aproveito o fechamento de mais um ciclo de vida para compartilhar alguns aprendizados. Longe da pretensão de ensinar alguém, escrevo para criar um registro para mim mesma. É que eu sou esquecida das coisas que fogem ao agora e tenho a séria mania de me encantar com qualquer pronunciamento de sílaba.

Há muitos falando e quando falam concordam e promovem a vida no agora. Eles dizem prezar pela liberdade de ser quem se é, para se descobrir artista e reinventar a arte e a verdade. Mas, no fim, quantos deles abrem alas quando essa conquista é alcançada? Ainda, na sua maioria, principalmente nos grandes centros, nas esferas públicas, financeiras e administrativas o discurso é uma grande mentira e é mal visto quem ousa dizer que não acredita.

Representar uma arte pronta no palco do teatro é diferente de dar vazão à arte improvisada de cada hora dos dias. Perceber a arte exige sensibilidade e presença. No meio de zilhões de falas, erros, acertos, pensamentos, mentiras, sacanagem, inveja, ladroagem: como seria possível ouvir a verdade, senti-la, reconhece-la, admirá-la com todo o respeito necessário para questioná-la ou propor-se a descobrir uma outra versão dela dentro de si?

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Vida, arte e verdade são pilares do mesmo triângulo que é tanto uma das formas sagradas de Patanjali quanto base para a Santíssima Trindade. Mas independente de qualquer crença, importa que esses pilares sustentem nossas decisões cotidianas, concretizando através de nossas relações o sonho da felicidade eterna no agora permeado pelo infinito e emoldurado pela forma da alma; nossa razão para persistir.

Se a verdade nos mantém em pé, a nossa arte congrega as soluções e suas diferentes combinações para os dilemas da vida que sempre se engradece quando é pela arte esculpida cobrando apenas o preço de dar forma àquilo que vê, intui ou sente até como forma de impedir que o que não condiz com esse sonho deixe de interferir na realidade.

Na prática isso significa tanto incorporar sem hesitação ações que promovam esse estado – como plantar, colher, ser gentil, meditar, cantar, cozinhar, cuidar, expressar a si mesmo, descobrir sua arte – quanto transportar essa leveza para os temas que exigem mais delicadeza extrema como só os momentos verdadeiros sabem requer. …  Qual a nossa lembrança de momento verdadeiro, quando foi a última vez que estivemos inteiros no que estávamos fazendo? Pra onde essa lembrança nos leva, o que ela desperta em mim?

Momentos verdadeiros são intensos porque são sempre uma chance de erro e, muitas vezes, o desafio mortal de não ser capaz de manter-se no centro, no ponto ideal do seu eixo. Por a isso a importância da meditação, da relação direta com a terra, os alimentos, a natureza e com os semelhantes que buscam nesses mesmos elementos suas referências de bem-estar e saúde: a primeira de todas as verdades.

Digo primeira verdade porque por mais que estejamos questionando o mundo cartesiano ele ainda é tão necessário quanto um mediador é no mais simples diálogo. A meu ver, a verdade é grande demais para que a carreguemos inteira, então nos resta sucumbir à nossa humanidade e dividi-la em diferentes frações de momentos resinificando de uma vez por todas a organização da vida em ano, meses, semanadas, dias e horas. Cada fração de tempo, cada grão de areia que cai na ampulheta do tempo é uma gota do remédio de que mais necessitamos, se assim acreditamos nisso…

A verdade só dói e pesa e é exaltada e desagradável quando estamos diante da responsabilidade do valioso exercício do nosso livre-arbítrio. Fora a tensão característica do medo de ter errado e de não ser naquele momento sabedor da nossa capacidade de corrigir e reverter erro em acerto. Os demais, todos os demais momentos de verdade são prazerosos por excelência porque são um reflexo da vida e isso por si só são lindos e bons e agradáveis.

Aí, com toda razão, vão dizer alguns que isso é auto-ajuda, pílulas de uma felicidade utópica que mais mascara do que constrói a nossa humanidade. Sim, acreditar que a vida é essencialmente boa apesar dos constantes momentos desagradáveis que se desdobram em nossas vidas exige ainda mais consciência e entrega ao momento presente. Isso significa se deparar em primeiro lugar com sentimentos e emoções das mais difíceis de lidar e principalmente entre aqueles que mais amamos. E quando já nos sentimos zonzos, prestes a desistir porque o mundo é complexo demais, ele simplifica tudo com uma simples respiração e a organização cartesiana do tempo que nos alinha em dias e horas, nos permitindo sermos pertinentes e exercitarmos nossa gentileza e as formas mais simples e banais que a Verdade-Amor pode tomar e que servem para nos manter nesse Agora também quando chegar o minuto seguinte, e o próximo, e passarem os anos e os meses que formam uma sequência prazerosa de “agoras”, como uma sequencia de código genético, uma espiral ascendente rumo ao infinito como diria o poeta amamente do transcendental, Rilke.

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Essa afinal é a parte que nos cabe fazer para somar na transformação pela qual já passa nosso Planeta Terra. Um desafio a mais além de todas as mudanças de hábitos e revisão de valores pelos quais passamos inevitavelmente, mas  muito mais simples de realizar, uma vez acontece dentro de nós mesmos, no centro do peito, nosso eixo, o pilar por onde nos transpassa a Verdade e de onde emana a força para transformar com amor tudo mais que não é.

Rilke vai chamar esse lugar de solitude. Yogis, judeus cristãos, palhaços, equilibristas, músicos, professores, escritores, poetas, pais, mães e filhos de todo Brasil, de todo Planeta vão nomear do seu jeito, com a palavra que melhor identifica sua arte, até para que em seu próprio exercício, ao pronunciar seus nomes reencontrem as chaves que abrem as portas para esse estado sublime onde a vida se reinventa.

Ser artista nesse contexto tantas vezes tão triste, tão desumano, tão cruel e injusto é o tratamento anterior à pílula da felicidade. Atenção, cuidado, perigo! Sem o tratamento prévio devido, a pílula da felicidade é altamente prejudicial podendo causar danos sérios de má interpretação da realidade e consequente dano de não aceitação de si mesmo e de seus semelhantes.

Se tomada a pílula sem a prática constante de algum tipo de arte – que inclui aquela que realizam os ânonimos em escritórios e call centers de todo mundo quando usam seu posto para cuidar uns dos outros, mães e avós enquanto mexem panelas e fazem o que é preciso – corre-se o risco de cegueira para as diferenças – exatamente aquilo que tanto nos machuca mas também exatamente aquilo que nos engradece; a diversidade infinita da vida – e o prejuízo maior de todos que é exatamente a não presença no agora para si e para os outros que tanto amamos.

Mas o maior benefício do tratamento prévio à pílula da felicidade é que em 100% dos casos são revertidos os quadros apresentando antecipadamente a promessa do medicamento: a crença verdadeira de que a vida é boa e vale a pena ser vivida com intensidade e entrega em cada detalhe apesar de todos os pesares. Basta apenas a vontade de fazer dos pesares o principal instrumento da nossa arte. O beijo do príncipe que faz renascer os sonhos do nosso espírito depois que já se foi o que era ego, medo e apego ao passado, o pousar do anjo que alivia todas as dores, redimindo todos os nossos erros e que oficializa o início de um novo ciclo.

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FELIZ 2014!


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