Nandadornelles's Blog

Archive for October 2013

Eu não gosto muito de compartilhar insigths da maternidade porque sempre pode soar arrogante uma mãe falar para outras sobre educação. Ao mesmo tempo em que expor nossos filhos em relatos e posts sempre me parece uma possível falta de respeito. Muitas vezes me questiono se não estou sendo radical em manter minha filha tão distante do mundo virtual e “social descartável, plástico, capitalista e consumista”. Outro ponto que sempre pesa contra antes de estar mais presente nesse blog é ausência de regras na educação livre e o campo aberto às más interpretações. Mas eu estou completando 2 anos e 2 meses de maternidade e começo a ser surpreendida pela consequência inevitável da dedicação: o resultado.

Eu não só sabia pouco sobre ser mãe até me tornar uma quanto eu sabia pouco da vida. Antes de aceitar a vinda da Laura pro meu mundo, só o que eu tinha era uma coletânea de impressões sobre quem eu era e gostaria de ser e como seria bom um mundo feito de amor. Dentre muitas coisas sobre as quais eu estava enganada, outras eram ainda mais profundas do que eu esperava. Quando falamos em paternidade e maternidade, ainda estamos falando de algo vago, aleatório e relativo. A importância do seu filho, assim como o lugar que as necessidades dele ocupam na sua vida dependem de uma série de fatores e é muito delicado falarmos em questões gerais e básicas, a não ser, claro tratando-se dos diretos humanos. E talvez essa seja a única questão que importe debater já que eles parecem ainda tão raros de se ver.

Nós gostamos muito de falar em amor. Esse sentimento nobre costuma carregar a esperança para todas as curas necessárias. Mas o que começo a perceber é que de todos os valores fundamentais para nossa condição humana, e consequentemente direitos básicos para nosso existência, os principais são amor e respeito. Amor e respeito são mais ações do que sentimentos a que as crianças tem direito, mas que não costumam andar juntos em nossa mente. Os motivos podem ser os mais variados; desde um passado extremamente rígido e punitivo como a leviana impressão de amor como sinônimo de liberdade e puro êxtase.

Antes que eu seja mal interpretada, já vou logo dizer: sim, eu acredito ainda mais do que nunca que só quem ama é livre e só o amor profundo pode trazer a verdadeira liberdade. Mas isso não justifica abrirmos precedentes para a falta de compromisso e essa parece uma linha tênue que ainda nos causa muita confusão, principalmente quando chega a hora de educar nossos filhos.

Educação livre significa liberdade de escolha que só se constrói a partir da autoconfiança alicerçada no amor e no respeito. Isso é ressaltar em primeiro e último lugar que nada pode ser muito cedo ou muito tarde, certo ou errado já que cada indivíduo é único e é exatamente nessa singularidade que residem todos os milagres.

O amor é o contexto acolhedor. É a atmosfera tranquila e sólida que nós transmitimos a todo momento ou ao menos naqueles mais importantes e decisivos, ou ainda, sempre que possível. O respeito amoroso e o amor respeitoso são os posicionamentos que mantém tudo e todos no seu lugar. E qual é o nosso lugar? Qual é o lugar do nosso filho, dos avós, dos vizinhos? Essa é a crise que eu acredito que o mundo estava vivendo e que agora começa a reverter: O lugar de cada coisa e de cada pessoa.

Aí, naturalmente você vai me perguntar: como assim qual o lugar? Não existe lugar. Estamos no equilíbrio do caos, a vida é orgânica e a felicidade é holística. Sim. É verdade. Mas nós seguimos sendo parte da humanidade que caminha em direção a um determinado lugar: a evolução. E nesse trem expresso para um futuro sustentável – já que não temos outra opção – os lugares estão marcados sim. Seja pai, seja mãe, seja filho, gato ou periquito.

Até por toda liberdade já conquistada, os lugares na atualidade não são estanques. Muito pelo contrário. Lugar marcado não é sinônimo de ficar parado ou engessado. Só é preciso manter sua mente aberta e nossas relações terminam de se organizar a partir dos papéis que nos comprometemos em realizar e é aí que entra mais uma vez a importância do amor e do respeito: Amor por aquilo que fazemos e respeito pelo outro e por si mesmo para fazer com toda dedicação aquilo que pode ser feito, hoje e agora.

Que o radicalismo incomoda, já sabemos. E que por isso mesmo não é bem visto e de alguma forma será reprimido, também já sabemos. Quanto ao radicalismo, precisamos nos manter atentos pra que ele não faça mal a nós mesmos e assim, até nesse sentido, ele trabalhará ainda mais em prol dos nossos objetivos. Ações baseadas em princípios serão radicais apenas se por algum motivo a reflexão cessar. O radicalismo nos prejudica e àqueles ao nosso redor, se paramos de olhar para o contexto e refletir e buscar a melhor resposta possível para aquele momento. É por isso que mais do que uma linha pedagógica, na hora de educar um filho, o que faz a diferença são os propósitos, os valores e os princípios. São eles mesmos que nos protegem dos danos do radicalismo.

Não importa se o dilema é assistir ou não à televisão, levar ou não ao supermercado. A pergunta que enquanto pais precisamos buscar responder é: meu filho tem estrutura para administrar esses novos elementos? A nossa segurança não pode depender exclusivamente dos estímulos externos ou da genialidade dele de absorver e acomodar as novidades. Nem podemos cair no extremos oposto e criar um filho alienado, excluído do mundo em que foi concebido. A nossa principal segurança precisa vir da relação construída com nossos filhos. Da certeza de que diante de algo novo ele voltará a você com perguntas diretas ou indiretas. A certeza precisa ser de que pais e filhos se conheçam tanto a ponto de conseguir identificar qualquer dificuldade de entendimento dos novos elementos e a confiança de que serão incorporados com ainda mais reflexão e à serviço da consciência e do auto-conhecimento e o exercício contínuo e infinito de mais amor e mais respeito.

Ainda assim, é sempre improvável que um radical se confesse um radical. Pode parecer impossível para muitas pessoas a forma como eu vivo e as escolhas que eu e minha família fazemos no nosso dia a dia, nem por isso eu visto a camiseta de radical ou me sinto assim. A caminha que uso todos os dias por baixo de qualquer outra é a reflexão em busca da melhor resposta pra eterna pergunta: qual é o caminho que contempla as principais necessidades de todos os envolvidos e qual é o preço desse caminho? Quando me deparo exatamente com o maior desafio da paternidade: correr o risco de apostar e manter-se aberto para a necessidade de mudar e improvisar ao sinal de desconfortos, e sim, considerando o retorno dos filhos em primeiro lugar.

Talvez eu seja mesmo radical e é por isso que acabo ficando ausente até mesmo das minhas funções e contribuições pessoais / profissionais, como compartilhar minhas reflexões, erros e acertos nesse blog. Até as necessidades se apresentam em hierarquia e eu trabalho em primeiro lugar, sempre, pelas da minha filha e da minha família. E se para todos os males pode haver cura, eu sou radical em acreditar que ela seja o próprio amor e o simples respeito, mas tão importante quanto estes, um ingrediente indispensável para a transformação social que pretendemos: o ainda raro incentivo ao pensamento crítico. Nunca é fácil oferecer o melhor para os nossos filhos, mas sempre dá pra começar pelo básico, senão pra que sejam felizes como gostaríamos, ao menos pra que conheçam um mundo novo, mais humano, justo e digno. Incentivar nosso filhos a pensarem sozinhos não é perigoso, mas sim expressão fundamental do básico amor e respeito a que toda criança tem direito. Cabe a cada pai,  cada mãe, descobrir a melhor forma de aprender em conjunto esse tipo mágico de raciocínio e aplicar essa ferramenta para construir convívios mais harmônicos e ricos entre família para depois estender esse milagre a todos os círculos. Então, já seremos em nós grande parte da mudança que desejamos ver no mundo.

FELIZ DIA DAS CRIANÇAS!

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É engraçado como algumas imagens nunca saem da nossa mente. Pequenos filmes que se repetem às vezes até sem que a gente saiba por que. Tem uma cena que sempre volta de mim menina, no primeiro dia de aula da primeira ou terceira série. Eu devia ter em torno de uns sete anos, tinha os cabelos muito lisos e havia acabado de voltar das férias de verão com a minha família. Aquele era sem dúvida um dia muito especial. Eu adorava a escola. Eu adorava aprender. Mais do que isso, a perspectiva do aprendizado já eram mil janelas se abrindo para o mundo. Antes mesmo do início do ano letivo eu já começava a ler os livros e escolher os meus conteúdos preferidos que começavam e terminavam em português e literatura com passagens garantidas pela biologia, geografia e história. As exatas, bem, eu não conseguia entender pra serviam as exatas.

Mas aquele primeiro dia de aula dos primeiros anos do ensino fundamental na Escola São José na cidade de Não-Me-Toque era ainda mais especial. Naquele ano, por algum motivo, as aulas começaram e meu pai ainda dispunha de mais alguns dias de férias. Isso significava que ele poderia me levar na escola e também me buscar. Mais do que isso, como ele não estava saindo do trabalho, ele estaria lá na hora da saída e minha mãe já estaria em casa quando nós chegássemos, provavelmente preparando o almoço. Talvez meu pai até estivesse no corredor, próximo a sala de aula conversando com a diretora quando a sineta tocasse e a porta se abrisse.

Aquela manhã passou rápido e só lembro de estar sentada na primeira carteira da fila exatamente em frente ao professor quando a sineta foi ouvida e a professora se despediu dos alunos. Em baixo da mesa eu já tinha as minhas mãos segurando a alça da minha maleta nova. Ela era linda, toda branca com alguns desenhos tipo arabescos e uma menina de cabelos compridos e olhos grandes que também segurava a sua maleta. Aquela maleta era perfeita. Retangular de plástico com uma presilha branca para fechar. Ali dentro cabiam ordenadamente todos os meus livros e cadernos e o estojo. Eu estava tão feliz de estar ali, no final daquele tão esperado primeiro dia de aula e a instantes do encontro com o meu pai e a volta pra casa e a comida da minha mãe e ainda meus tesouros todos comigo dentro da maleta nova.

Não sei o que aconteceu. Eu não lembro de ter sido empurrada, de ter usado muita força ou saído do meu lugar com pressa. Sei que alguns colegas precisaram passar na minha frente porque a alça da minha maleta quebrou e eu precisei voltar ao meu lugar pra conseguir tirar ela de lá. Acho que a professora me ajudou a ver se tinha como engatar de volta ou arrumar e por isso eu fui a última  sair. Mas não. A alça era de plástico e havia quebrado. A felicidade de ter uma maleta perfeita durou um dia. Olhando melhor pra essa lembrança, eu acho que ali pode ter sido a primeira vez que o Universo me convidou a exercitar o desapego e a saber distinguir o essencial de todas as outras coisas. Já a felicidade de encontrar meu pai me esperando do lado de fora da sala de aula fez todo o resto parecer pequeno demais para eu me importar. Lembro da sua presença acolhendo toda minha tristeza e sua paz de espírito e convicções impedindo que eu desse mais valor à maleta do que ela realmente tinha e me isolando de tudo que não fosse tão verdadeira quanto o amor que um pai pode sentir por um filho. Aquele foi a melhor volta às aulas da minha vida, não é à toa que insiste em voltar à minha memória.

Uma lição sobre desapego e liberdade?! Isso que o ano estava recém começando!

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