Nandadornelles's Blog

Archive for November 2011

Há uma grande responsabilidade em escrever este texto. Em escrever qualquer texto. Expor a verdade é sempre um grande risco. E quando a verdade revela, além dela mesma, um tanto de nós, ainda maior o risco. A exposição de tudo que nos torna humano demais é um convite ao julgamento alheio. Reflito, reflito e, no fim, me submeto, porque da minha perspectiva, este é um dos grandes motivos pelos quais estamos aqui: mergulhar no desconhecido, se descobrir, se transformar, compartilhar e melhorar. Lá vamos nós, a caminho da evolução.

Por uma questão metodológica apenas, eu não vou explicar como tudo começou. Não vou começar exatamente do começo, até porque uma coisa puxa outra e o começo mesmo pode ser lá no inicio dos tempos. Então, vou passar batido pelo dia em que recebi o chamado de conceber uma filha, pelo dia em que conheci o pai dela, não vou divagar sobre paixão e amor e sobre o que se descobre de si e do outro enquanto experimenta e revela as diferenças entre ambos. E mesmo quando falamos de amor, a distância entre amor dito e amor vivido. Também não vou contar como antecipei sua chegada na minha aura dias antes e como renovei meus votos mais uma vez e nem como foi ela quem escolheu seu nome ou conduziu minha vontade atrás de um milagre. Você só precisa saber: eu sabia, senti e consenti a vinda da Laura pra minha vida. Só, claro, não fazia ideia de como seria.

O como é sempre o mistério e diante dele se submente a  nossa curiosidade, nossos desejos e nossos medos. O futuro pode ser uma tela em branco ou um buraco negro. Um te inspira, outro te consome. Um te convida a criar, o outro te faz pirar. Termos, diante de nós, uma tela branca ou um buraco negro não é algo imposto ou definitivo. Aqui já damos o primeiro passo rumo a nós mesmos como seres co-criadores de nosso destino. E pronto, o mistério já foi diminuído. Nossas intenções funcionam como molduras ou a palheta de cores onde o misterioso “como” há de se revelar.

Assim, se existe uma parte em cada um de nós que co-cria também existe uma outra desconhecida. Nós somos seres complexos e acabamos sendo resultado da combinação da vontade destes pares. E, é preciso dizer, no mundo da “co-criação” vale quem fala mais alto. Entre as vozes mais fortes está a do amor e a do medo. Diante do mistério da nossa caminhada, vale aquele que gritar mais alto e no, fim, o desempate é por quem for mais verdadeiro, e nisto, ah e neste campo “nós” não temos apito. As vozes veem de um ponto muito, muito mais do íntimo.

A confirmação da minha gravidez não foi nem parecida com o que um dia eu planejei. Mas eu estava inteiramente lá e consciente de que muito ainda estava por vir e nem tudo seria como eu sempre quis. Sozinha eu abria o envelope que confirmava a minha mais linda suspeita. Eu tremia enquanto ouvia:

– sim, eu vou chegar.

Era verão,  dia 04 de janeiro de 2011 e eu já ansiava a chegada da primavera de um ano novo que desabrochava em amor.

Rapidamente comecei a tomar providencias e a buscar linhas-guia para a co-criação do momento mágico que seria a chegada da Laura. Claro que tratei de cuidar do presente; me alimentar bem, muito pão com abacate e muitos sucos centrifugados, rir, caminhar na praia, tomar muitos, muitos banhos de mar, ler ótimos livros, assistir documentários sobre o fundo do mar, as grandes migrações e a vida das plantas e dos bichinhos e ser tão feliz quanto possível. Mas, já com 8 semanas de gestação eu fui fazer um curso de parto planejado domiciliar com o grupo Hanami. Eu nem sabia o sexo ainda, mas já sabia que queria que aquele serzinho fosse recebido na energia do lar, que o quanto antes estivesse nos meus braços, que se sentisse confortável e amado desde o primeiro segundo fora da minha barriga. Eu sonhava em, semanas antes do grande dia, começar a preparar o espaço com mandalas coloridas e mantras e comidas e a presença das pessoas mais queridas. Mas, quis a vida, no quarto mês de gravidez eu me mudei pra casa dos meus pais e, logo em seguida, o diagnóstico de uma diabetes gestacional e de uma anemia me convidavam a um grande exercício de flexibilidade: o parto não poderia mais ser domiciliar. Seria preciso cuidar rigidamente da dieta, fazer exercícios físicos regulares e, no momento do parto, monitorar as taxas de açúcar, tudo para o bem da Laura. Vá lá, parece simples, mas demanda uma grande dedicação o exercício de abrir mão do meu quadro da felicidade. Nada de ter a Laura em casa, nada de uma caminhada na beira da praia para aliviar as contrações antes da hora “h”, nada de comer um pão integral com abacate antes do parto, nada de música e dança e mandalas. E ainda, admitir, sim, a possibilidade de uma cesárea caso a dieta e os exercícios não fossem de acordo e a circunferência torácica da Laura aumentasse demais. Meu coração apertava e eu enchia os olhos de lágrima só de pensar:

– como que eu não estaria presente, participando do nascimento da minha filha?! Como nós não iriamos fazer aquilo juntas? Como não seria lindo e mágico e colorido o nosso encontro tanto quanto eu achava que nós duas merecíamos?

Então, nada de perder tempo. Dieta e exercícios com rigor espartano, muita ajuda da família e amigos e descanso.

Os dias passaram e com as medidas tomadas surtindo efeito, era hora de intensificar as orações. Eu pedia pelo parto normal, tanto fazia o jeito, onde, com quem, quando. Eu só visualizava a Laura saindo de dentro de mim naturalmente. Me limitava a colocar numa figura apenas a cabecinha dela e o meu corpo da cintura pra baixo, casualmente, em posição de cócoras. Eu rezava pela saúde do serzinho dentro de mim, rezava pelo bem-estar da Laura tanto quanto por um parto normal e me coloca à disposição; eu faria qualquer coisa em troca destes dois presentes. Eu invocava a todo momento a força e o poder da chama violeta e confiava à Saint Germain o meu bem mais precioso.

Mas, no meio disso tudo, uma informação reacendeu a chama da esperança. Meu médico, Dr. Marcos Leite, sugeriu a maternidade em que eu deveria ter a Laura. Me disse que lá havia um quarto tipo apartamento onde minha família e meus amigos poderiam estar junto e o parto poderia ser na banheira, eu poderia até levar a minha comida. Seria o mais perto da ideia de casa que eu podia ter, mas já estava de bom tamanho. O negócio era continuar dedicada à alimentação e aos exercícios físicos. Caminhada intensa todos os dias por uma hora e nada de doce, não, nem um mínimo pedacinho!

Os meses foram fechando e a gravidez se completando. A chegada da minha irmã Juliana em meados de julho deixou tudo mais colorido, mais cheio de riso. A sua companhia constante era uma alívio, mas também uma pressão. Ela estava apenas de passagem e sua permanência no Brasil tinha os dias contados, mais precisamente até o dia 29 de agosto quando retornava aos seus estudos no sul da Inglaterra. Com a chegada da Laura prevista para a segunda quinzena de setembro tanto ela quanto eu e, provavelmente, a Laura, lamentávamos o fato de não estarmos todas juntas quando a hora chegasse. Eu estava conformada, afinal, já tinha aberto mão de qualquer vontade ou imposição de detalhe, mas a minha irmã conversava insistentemente com a minha barriga, dizendo em voz engraçada:

– Laura, vem mais cedo pra ver a dinda, vem.

Até que um dia eu tive um sonho. A Laura queria nascer e não vinha porque nada estava pronto. Eu acordei sabendo que aquilo era um aviso. Ainda era metade de agosto. Mandei um email desesperado para a Iara do Hanami, depois liguei pra Clariana. Eu fui enfática:

– a Laura quer chegar antes do tempo, é melhor a gente se apressar.

Então, marcamos a visita delas à minha casa para o planejamento do parto enquanto eu corria comprando e lavando e arrumando a mochila com tanta coisa que eu nem sabia que existia. Dia 26 de agosto, sexta-feira, a Clariana e a Renata viriam até Itapema, providencial, já que um dia antes eu teria minha consulta de 30 dias com Dr. Marcos e último ultrassom antes do nascimento da Laura.

Mas a semana corria esquisita. Pra começar, eu não quis renovar o contrato na academia, depois ficava ligando todo dia pras meninas do Hanami pra saber se os sintomas estavam ok. Era o colostro descendo aquele excesso de corrimento. Eu morria de medo de que fosse a bolsa vazando aos pouquinhos e a Laura ficando sem líquido. Depois foi a presença de sangue em floquinhos e algumas dores. Tudo dentro do normal segundo as doulas. Eu confiava e a cada conversa relaxava ainda mais. Mas, no fundo, tinha uma sensação esquisita de fim. Sentia como se nem pudesse abrir muito as pernas que a Laura ameaçaria sair. Até que uma tarde as dores se intensificaram e, por brincadeira, minha irmã e eu resolvemos anotar cada dor, dar nota para a intensidade e contar quanto tempo durava. Depois, percebemos que eu estava tendo uma contração a cada dez minutos. Mais uma vez, liguei pra Clariana já sentindo um pouco de vergonha, pois, aquilo parecia insistência ou falta de paciência. Ela me disse que tudo bem e que se sentisse dor tomasse um banho quente demorado. Esta foi a primeira noite que eu não dormi perfeitamente bem. Apesar de aliviada com a ducha quente de 30 minutos e compressas e bolsas de água quente, eu sentia, seja lá o que separasse a Laura do mundo de cá, se afinar. A manhã seguinte prometia e eu me sentia à vontade em esperar.

Era quinta-feira,dia 25 de agosto. Ao abrir os olhos me dei conta de que a noite tinha finalmente passado e de que, sim, as dores continuavam. Mas não era nada fora do normal e eu me sentia em condições de cumprir com minhas obrigações. Minha irmã e eu nos aprontamos e fomos pegar o ônibus para Florianópolis. Uma maratona nos esperava: retirar exames no laboratório, consulta com Dr. Marcos, almoço no Vida e o tão esperado ultrassom. Se existia alguma ansiedade, era em relação ao ultrassom que revelaria se as medidas da Laura estavam de acordo com o esperado e saberia se eu podia ou não seguir contando com o parto normal. Mas, antes mesmo de sairmos de Itapema, uma ligação despertou as nossas suspeitas.

As 8hs a secretária do Dr. Marcos ligou para cancelar a consulta pois ele estava atendendo a um parto na maternidade Hospital da Ilha. Eu fui mais sincera do que sabia:

– olha, acho que a minha consulta não vai dar pra cancelar, também estou em trabalho de parto.

Falei com Dr. Marcos que sugeriu, já que eu estava a caminho, que eu fosse até a maternidade que ele me examinaria lá. Eu senti o tom de incredulidade dele mas ao mesmo tempo o respeito ao que eu estava dizendo. Contei pra minha irmã que sentiu o mesmo que eu:

– acho que tu vai pra maternidade já para ficar.

Ela só teve mais coragem do que eu em falar. Eu sentia, só não queria acreditar. As contrações continuavam, agora um pouco mais fortes, quase de eu ter que parar de falar, mas ainda uma a cada dez minutos. Minhas amigas Camila e Anita sentiram o momento e ligaram. Ficaram passadas em saber que eu não só estava indo a Florianópolis de ônibus como pretendia fazer tudo por lá caminhando ou de ônibus da cidade. Elas profetizaram também:

– me avisa depois onde tu estiver que vamos lá te ajudar.

Chegando em Floripa, segui o conselho das amigas e peguei um taxi até o laboratório santa luzia. Com os exames na mão, achei que seria uma boa ideia caminhar até a beira mar e só lá pegar um taxi para a maternidade. Mas, de repente, a caminho daquela rua linda de nome complicado, toda arborizada, um alarme soou dentro de mim e eu disse pra minha irmã:

– vamos pegar um taxi. Agooora.

Ela ainda queria se aventurar a ligar e chamar uma ambulância pra ser mais divertido. Mas eu não estava mais achando graça e sabia que devia estar num lugar seguro o quanto antes. Atacamos o primeiro taxi que passou e isso foi um alívio.

Mas, apesar de tudo isso, eu nem pedi pressa ao motorista, que dirigia com uma mão e com a outra comia um lanchinho. Nem mesmo comentei meu estado. Por algum motivo, voltei a acreditar que estava indo pra lá só para me consultar. Chegando à maternidade fui recepcionada com a seguinte frase da funcionária:

– só pra avisar que a maternidade está lotada.

Tudo bem, eu pensei, e ainda falei:

– só vim consultar com o Dr. Marcos que está aqui atendendo a um parto. Ele pediu pra avisar assim que eu chegar.

Até que o Dr. Marcos viesse me ver deu tempo de minha irmã e eu falarmos sobre muitos assuntos indispensáveis a nossa amizade e ainda de conhecer a Clariana que estava por lá trabalhando no mesmo parto – o da Lívia e do Enri! A Clariana sentiu as contrações e me tranquilizou:

– sim, uma contração a cada dez minutos. Mas o trabalho de parto mesmo são três contrações nesse intervalo. Ainda pode ir mais alguns dias assim, tu deve, sim, voltar a Itapema hoje.

Não que eu estivesse preocupada, mas queria me sentir só um pouquinho mais bem preparada e, claro, ter as minhas coisas comigo, sei lá, pensar na roupa que eu ia usar, passar outro perfume, me arrumar. Ela voltou pro parto da Lívia e uns vinte minutos depois apareceu o Dr. Marcos exatamente quando minha irmã e eu percebemos que as contrações já estavam acontecendo 3 a cada 10 min.

É verdade, eu sentia cada vez mais fina a camada que separava a Laura de estar do lado de cá e o Dr. Marcos fez cara de entender porque quando me examinou e constatou que eu estava com 4 centímetros de dilatação. Segundo ele, três quartos do trabalho de parto era passar estes primeiros 4 cm… e lá estava eu, lépida e faceira, querendo ir almoçar no Vida, fazer o ultrassom e voltar para Itapema, sim, no mínimo queria cumprir com a minha agenda.

Bom, Dr. Marcos descartou a hipótese de eu ir a qualquer lugar além das redondezas do hospital. Aliás, me sugeriu dar uma volta de no máximo uma hora e voltar para ele me examinar.

– Mas não precisa ser uma hora. Se sentir qualquer coisa, volta pra cá. É só pra ver se a coisa vai andar.

Era quase meio dia e minha irmã e eu resolvemos almoçar. Nós ligamos para nossos pais e mandamos eles se apressarem, pegar as minhas coisas e ir o quanto antes pra lá. A ideia de almoçar acabou não funcionando. Primeiro porque o restaurante não tinha nada que a minha dieta permitisse e outra que eu tinha um grande embrulho no estômago que me impedia de engolir qualquer coisa. Uns pedacinhos de frango e umas garfadas de salada e eu senti o alarme soar de novo:

– vamos voltar para o hospital. Agooora.

Voltando para o hospital, foi uma confusão até que o Dr. Macos conseguisse uma sala e finalmente constatasse que eu já estava com 6 para 7 centímetros de dilatação. A essa altura as dores estavam fortes e eu tinha dificuldade de fazer outra coisa além de senti-las passar uma a uma. A minha irmã esteve comigo o tempo todo e foi simplesmente a melhor companhia que alguém poderia ter. Me ajudava com tudo da forma mais amiga e solicita e doce. Eu não reparava em outra coisa além das ondas que faziam pressão na minha barriga, mas me senti particularmente feliz quando senti a mãozinha dela fazendo massagens na minha lombar. Quem falou pra ela que aquilo ajudava? Instinto?! Eu estava só de blusa e meia numa sala emprestada. Nada naquele ambiente me era familiar – acho que nem ao Dr. Marcos – mas eu tinha a minha irmã do lado e não precisava de mais nada.

De repente, chegou a Renata com suas mãos mágicas. O Dr. Marcos tinha chamado ela e eu entendi aquilo como um sinal de que a coisa avançava. Mas, ainda, na maternidade não havia vaga e meu trabalho de parto acabou se dando na sala de visita do hospital. Minha amiga Camila chegou e ela e minha irmã fizeram com que eu me sentisse à vontade para abrir as calças, urrar, engatinhar e tudo mais que sentisse vontade de fazer apesar de todos que passavam pelo corredor e podiam me ver. Lá pelas 3 da tarde chegaram meus pais. Pronto, as pessoas mais importantes estavam lá (faltava minha amiga Anita, é verdade, mas ela já tinha avisado que ia ficar presa no trabalho),a  Laura já podia nascer. Acho que saber disso me jogou rapidamente para outra fase do processo. A Renata e suas mãos mágicas que aliviavam muito do meu desconforto com massagens na minha lombar deve ter sentido e me convidou a caminhar pelo hall e a dar algumas agachadas enquanto me segurava nas paredes. Tudo se intensificava rápido demais e me eu me sentia tomada por uma força avassaladora. Eu era um bicho. Não conseguia pensar ou ponderar nada. Apenas sentia e reagia. Urrava, sentia minha barriga e minhas costas serem pressionadas. Eu recebia amorosamente cada uma das contrações, exatamente como um sinal de que meu encontro com a Laura estava cada vez mais próximo. Eu proveitava para dizer a ela em pensamento:

– sente, sente que a tua hora tá chegando, te prepara que logo logo você estará aqui do lado de fora.

Eu queria que a Laura ficasse tranquila em sair, sabendo que seria recebida com muito amor e que estaria em segurança. Eu não via a hora de senti-la nos braços, eu queria beijar as suas mãozinhas. A taxa de açúcar foi medida e estava de acordo, mas mesmo assim, eu estava ansiosa pra saber da saúde dela, pra ter certeza que ela estava bem, que tinha todos os dedinhos, eu queria vê-las abrir seus olhinhos.

Tudo acontecia como se houvesse um roteiro. Como se todos os integrantes estivessem a par e seguindo algo programado porque todos os fatos estavam muito encadeados. Eu só não podia antecipá-los, mas todos aconteciam numa sincronia divina. De repente parecia ter chegado a hora e aquele quarto para parto com banheira do qual o Dr. Marcos havia me falado estava, claro, ocupado. Não só aquele, todos os outros. A minha única alternativa era o centro cirúrgico. Eu resisti. Não queria. Eu queira a presença daquelas pessoas, eu queria a minha música, a minha irmã filmando, a minha comida. Eu ainda contrariei a Renata e perguntei se não podia ir até à casa de alguma amiga ter a Laura. Era óbvio que naquele estado eu não iria a lugar algum. Eu não tinha alternativa e mais uma vez eu exercitei minha flexibilidade enquanto ia para a sala de cirurgia.

Chegando lá eu ainda perguntei mais uma vez ao Dr. Marcos:

– eu não quero entrar. Quais são as minhas opções?

– Nenhuma, ele respondeu. Se você quer ter a Laura aqui comigo e com a Renata, você tem que entrar aqui, agora.

Enquanto isso eu sentia estar sendo imbuída de força e coragem, sendo preparada com todo amor e carinho do mundo como que para o momento mais importante da minha vida. Era minha mãe tirando minha roupa pra que eu e vestisse aquela touca e sapatos de tecido. Só me dei conta disso quando alguém perguntou:

– Quem vai entrar com ela?

Ouvi minha mãe responder.

– O pai dela. João, coloca o sapato e a touca e entra lá com ela.

Eu entrei marchando no centro cirúrgico. Olhei em volta. Parte de mim beirava a revolta, outra parte não estava nem ai. A Renta já estava do meu lado e me ofereceu a bola de pilates. Do meu parto sonhado, este era o único item que constava no parto que se tornava realidade. Eu nunca achei que uma bola de pilates poderia me fazer sentir tão bem. Foi tudo muito rápido. Logo meu pai estava do meu lado. A Renata aliviando toda dor com suas mãos, sim, mágicas e o Dr. Marcos que aparecia de vez em quando para ver como eu estava. As contrações fortíssimas, mas não era dor que eu sentia, era a força daquele momento o poder da chegada eminente da Laura. Finalmente. Laura e eu iriamos nos conhecer. Eu pedia para que ela estivesse bem, pra que a dieta e os exercícios tivessem surtido efeito, que ela fosse saudável. Eu tinha muito medo de ter falhado. Até que a bolsa rompeu e eu senti que começávamos uma nova fase.

Passava das quatro da tarde, meu pai tentava tirar fotos, eu não queria saber de ser fotografada. Deixei claro:

– ela vai nascer!

A Renata foi muito rápida. Colocou meu pai nas minhas costas me segurando por debaixo dos braços, chamou o Dr. Marcos e ambos ficaram na minha frente. Nós estávamos na quina de uma sala de cirurgia. Eu estava de cócoras. Enfermeiros passavam, entravam rapidamente, se surpreendiam. Não sei se era eu ou eles que se sentia mais invadido. Algo urgente pulsava dentro de mim querendo sair. Era um trabalho conjunto. Eu sabia, ela também. Um tanto eu dizia:

– estou aqui

E ela respondia:

– estou aqui

Eu queria sentir tudo. Fazia força conforme a orientação da Renata e do Dr. Marcos, mas metade de mim queria estar lá com a Laura. Eu queria estar em todas a células da minha barriga, do canal, da minha vagina. O Dr. Marcos tentou me motivar mostrando que a cabeça já estava lá. Mas eu não queria saber, uma que meus braços não alcançavam, outra que queria ela inteira do meu lado, não queria saber só da cabeça. Mas eu ainda queria senti-la nascer de todas as formas possíveis até que algo gritou me dizendo que isto era impossível. De repente eu senti que não poderíamos passar as duas pelo canal vaginal. O espaço era muito estreito, lá só caberia a Laura e para isto eu teria que deixa-la passar sozinha. Precisaria confiar nela e me entregar à minha tarefa de ajudar. O momento exigia confiança e entrega em níveis que eu nunca tinha experimentado. Foi quando senti o abismo. A meus pés, o desconhecido. Às minhas costas, me segurando com força e afeto, simplesmente, uma das pessoas mais importantes da minha vida. À minha frente, Dr. Marcos e a Renata, profissionais sérios e competentes além de almas extremamente sensíveis me inspiravam toda confiança possível. Numa fração de segundos, eu fechei meus olhos e coloquei a Laura em primeiro lugar. Ela era mais importante do que eu, do que qualquer vontade de sentir isso ou aquilo, maior do que qualquer dor, ela era do tamanho infinito do amor. Inspirei e fiz a maior força que pude, tanto como se fosse a última, como se depois dela eu nem mesmo fosse voltar a existir. Soltei o peso todo do meu corpo nas mãos do meu pai enquanto sabia que o Dr. Marcos e a Renata a receberiam. Eu toda me transformei numa força e quando ainda não havia voltado a mim, ouvi o Dr. Marcos dizer:

– nasceu, olha aqui mamãe.

A Laura. A Laura estava nos meus braços. Eu nem podia acreditar. Em partes porque ainda não estava lá. De repente eu parecia ter sido jogada de volta pro mundo, mas em outra parte dele. Nada mais era como antes. Eu não reconhecia aquelas paredes.

Infelizmente, por não ter sido um parto domiciliar planejado, Laura e eu não tivemos todo tempo de que gostaríamos. Fazia segundos que ela havia saído de dentro de mim mas logo um pediatra já passou e já orientava meu pai a cortar o cordão para leva-la pra aquecer e dar o banho e sei lá mais o que. Eu fiquei jogada, me sentindo desolada. O Enri da Lívia nasceu ao mesmo tempo. Vi quando passaram com ele pela minha frente pra levar lá pra junto da Laura. Qualquer chorinho que eu ouvia ficava imaginando se era da minha filha, queria que fosse dela até, só pra ter um sinal. Eu já sentia saudade, já era só uma metade por estar longe dela, da minha nova realidade.

Logo ela voltou e só pra que tudo isso não fosse somente meu encontro com o divino mas também tivesse um tanto da ironia do destino, duas horas mais tarde quando, finalmente, um quarto vagou para que eu pudesse passar a noite, adivinhe qual foi?! Claro, o quarto de parto com a banheira e todo o espaço para um sonho que já tinha sido realizado: A LAURA JÁ TINHA CHEGADO!

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