Nandadornelles's Blog

Archive for August 2011

Finalmente posso voltar até lá. A estrada de terra, as pedras soltas sempre em maior número à margem. No meio, os trilhos por onde os carros passavam. Ainda passam. Mas agora a estrada é uma rua, de asfalto ou de paralelepípedo. Tanto faz. Eu não passo mais lá.

Eu lembro de cantar, de repetir com a voz rouca e fora do ritmo uma combinação de palavras que parecia dizer algo que eu sentia mas não sabia o que significavam. Eu só cantava como quem pronuncia seu próprio nome encontrado por outro. “Eu caminhava e fingia que o tempo passava, eu caminhava e fingia que conhecia as pessoas e fingia que gostava de alguém e fingia que o tempo passava”.

Uma mochila nas costas como peso de onde eu vinha, pra onde eu ia, mas eu nem percebia. Eu apenas cumpria uma rotina e no meu peito algo já doía. Uma menina, tão pequena, tão sozinha. Eu chutava as pedras como se fossem minhas amigas.

É que é difícil enxergar tudo de fora. Leva anos até a gente saia um pouco do próprio corpo e veja de cima a cor do próprio cabelo e como parecem realmente as unhas pintadas de vermelho. Leva tempo até que a gente encontre um pouco de distanciamento. E antes que ele chegue, antes ainda que a gente saiba que ele pode vir a existir, a gente sempre se prende. A gente busca e encontra elos pesados de uma grande corrente. E se prende. Distante do que não se sabe ser, a dor é sempre melhor do que nada. A salvação diabólica do ter ou do parecer.

Então eu caminhava, e sonhava que aquela música me libertava e que eu encontrava um tesouro. Que eu encontrava por acaso, enquanto chutava as pedras, alguma verdade preciosa, algo que ninguém mais naquela cidade sabia. Um passaporte que me tirava de lá, um bilhete premiado que me permitia voar sem destino, uma carta de alforria que, ao menos, me tirava da prisão. Mas eu não fingia ser feliz quando não era, não fingia que entendia as regras e por isto as transgredia uma a uma. Simples assim como chutava as pedras. Eu não fingia, eu sentia o tempo passar e a dor e a pressão de um tic-tac ao contrário, a contagem regressiva de uma bomba-relógio que eu não sabia se alguém desarmaria. E com tudo isso, aumentava os elos pesados de uma corrente chamada passado enquanto me projetava no futuro errado.

Durante anos eu caminhava contrariada em direção a uma casa que diziam que era a minha. Demoraria anos, muitos anos, até que eu parasse de questionar o inquestionável. Eu não sabia que lá alguém esperava ou torcia por mim. Demoraria o tempo do desprendimento amoroso para que aquela casa fosse alegria. Para que eu percorresse aquele caminho dentro de mim.  Agora sim, caminho feliz com permissão para seguir.


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