Nandadornelles's Blog

Archive for May 2011

Eu só péssima para assimilar a responsabilidade de ter causado dor a alguém. E isso não diz respeito exclusivamente ao seres humanos. Eu tenho particular problema com os bichos. Talvez, eu conceda a eles papéis de indivíduos.

É como uma sensação de dívida antecipada. Na prática nem quer dizer nada. Mas no meu coração já se forma uma dor, um peso, e em seguida eu já estou derramando lágrimas pensando que a vida do bicho não vai ser a mesma só porque eu não fui perfeita.

Meus pais têm duas poodles que são como membros da família. A mais velha tem onze anos e outra uns nove. São branquinhas, cheirosinhas, quietinhas, amorosas, dependentes, carentes. Quando elas escutam o som do alarme do carro do meu pai, mesmo do alto do 6 andar, elas já começam a abanar o rabo de leve e a choramingar. Uma ansiedade absurda, uma impossibilidade de conter-se no agora já que a felicidade maior está por acontecer. Eu as entendo perfeitamente. Já me senti assim. Só não durou por tantos anos como já dura pra elas. Cada vez é uma nova vez, mesmo sendo todos os dias ao longo de suas vidas caninas. Elas não carregam mágoa ou estratégia. Elas apenas demonstram o que sentem. Meu pai entra pela porta e o motivo de sua felicidade fica evidente.

Com a minha mãe talvez seja ainda pior. Elas parecem chama-la para sentar e oferecer seu colo. Caso ela esteja ocupada, não faz mal, elas a seguem paciente e amorosamente até que possa ser delas seu tempo, seu olhar, seu carinho e claro, aquelas vozes de falar com bichinhos. A fruta não cai longe do pé e eu sou uma manteiga derretida. Adoro passar a mão, fazer carinho, olhar bem em seus olhinhos e ficar imaginando o que será que se passa em seus cerebrozinhos, será que eles têm consciência de que batem seus coraçõezinhos ou apenas se preocupam em se manter afastados do perigo?

Eis que meus pais saíram almoçar no domingo e eu fiquei em casa, longe de estar sozinha, as cachorras ao lado e a Laura na barriga. Para elas eu devo ser uma “igual”. Não correm atrás de mim, não me pedem mais do que me ofereço para dar. Me tratam com carinho e respeito e não esperam mais do que seria delas por direito. Mas, às vezes, num transbordamento de bons sentimentos, elas sempre estão por perto e saem ganhando e, claro, eu também.

Depois de ter preparado a minha refeição e arrumado tudo que era preciso enquanto elas ficavam quietinhas em seus cantos como se ninguém nem estivesse por ali, eu resolvi sentar e escrever. Depois de devidamente instalada; pilhas de travesseiros nas costas e no colo, computador a postos, janela aberta, um pedacinho do mar e um tanto de morro, chamei o nome delas. Pra minha surpresa eles vieram correndo e com a minha ajuda, subiram na cama e se colocaram ao meu redor. A mais novinha, que adora ficar encolhida e apertadinha, encontrou um espaço ao lado do meu quadril que a deixava embaixo de um pedaço de travesseiro que eu usava de suporte para o computador. A outra, mais parecida comigo, foi lá para os pés. Ela gosta de ficar perto, mas sem abrir mão do seu próprio espaço.

O domingo estava praticamente perfeito. O dia estava bonito, com sol aquecendo o friozinho que chegou dois dias atrás e nos pegou desprevenidos. Uma caminhada na beira da praia, os pés molhados na água, as células de energia da natureza inundadas. Era hora de retribuir e escrever. O que, nem sei. Até que umas das cachorras, a mais velha, precisou sair. Eu chamei, pedi que ela ficasse. Mas, devia ser alguma necessidade e ela foi. Quando voltou, queria minha ajuda para subir na cama. Eu falei seu nome umas seis vezes, tentei orientar para que fizesse a volta ou que pulasse subindo sozinha. Mas não, ela estava decidida. Havia de ser por aquele lado e ela queria o meu amparo. Bom. Eu não queria desmanchar toda aquela “estrutura”. Estava confortável e recém havia me concentrado, começando o meu trabalho. Mas, a cachorrinha estava ali diante de mim, sapateando querendo subir e não fazendo isso sem mim.

Eu não gostaria de dizer isso. Mas, a verdade é que a cachorra mais velha é a minha preferida. É que ela veio substituir a minha ausência. Foi quando eu saí de casa que minha mãe resolveu tê-la e, desde então, ela tem mordido quem se aproxima indevidamente e garantido que todos cumpram seus papéis na família. De uns tempos pra cá ela tem ficado mais dócil, permitindo ser amada sem ser de uma forma tão engessada. Fato é que antes ela era uma constante ameaça.

Eu estava diante de um impasse. A mais velha querendo subir, eu toda ajeitada, confortável, inspirada e outra cachorra completamente colada na minha perna como que com uma placa dependurada: “por favor, não perturbe”. Se eu me mexesse para pegar a outra no colo, tudo aquilo iria por água abaixo. Era impossível fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Eu não queria sair dali, não queria tirar a cachorrinha menor da sua tranquilidade. Mas não podia deixar a outra sozinha, fora daquele círculo bonito de domingo. Sem pensar direito, eu simplesmente comecei a me inclinar para o lado querendo alcançar a cachorra e ajuda-la a subir o mais depressa possível. Mas era longe demais e meus braços não alcançavam. Mas eu já estava no meio do caminho, já estava no meio da ação. Não consegui pensar, parar e voltar e começar do zero uma outra solução.

Claro que fazendo isso, de repente, eu ouvi o grito. Era a outra cachorra, levantando braba, havia sido completamente esmagada. Pronto. Para quem já tem predisposição em se sentir culpada, a situação perfeita havia sido criada. Com a cachorra mais velha em cima da cama, me oferecendo a barriga para ser acariciada, a outra rosnava e chorava saindo da cama indignada. Levou dois segundo para que eu estivesse chorando. Levou mais dez até que eu fosse atrás dela pela casa e a encontrasse emburrada na sala. Me debrucei sobre ela, pedi desculpas, carreguei ela de volta pra cama e reconstruí o cantinho que ela havia escolhido e que parecia lhe fazer tão feliz. Por uns quinze minutos, estivemos todas juntas, em paz, como se nada houvesse acontecido. Como se só o melhor nos esperasse naquele domingo. Até que elas se levantaram e saíram.

Se não fossem bichos, talvez não tivessem voltado, não tivessem me perdoado. Não teriam ficado nem um pouco. Teriam fingido não se importar, teriam deixado a mágoa imperar. Ou ainda, poderiam se sentir na obrigação de ficar. Mas não. Só quem viveu essa situação fui eu. Elas devem estar focadas na sua respiração, na vontade de comer ou de se esticar. E, de tanto em tanto, deviam se perguntar: “cadê meus donos, será que eles vão demorar para voltar?!”

Com as duas mãos, afasto o que há na frente. Como se o desconhecido estivesse encoberto por galhos e folhas de plantas. O movimento contém a esperança do alívio se por acaso o escuro for desfeito pelo colorido. Mas até que chegue isso, muitos passos precisam ser dados. Este é apenas o início.

Movido pelo desejo de ver o que nem sei, acabo fazendo um caminho. Um passo depois de outro passo, e ainda está escuro e úmido. Os barulhos, sussurros, uivos, chegam até meus ouvidos como saídos de meu próprio universo intimo, meus pesadelos mais antigos. O maior de todos, de que morrerei sozinho. O medo é gigante, tão grande que poderia facilmente paralisar. Mas não me fariam cegar, ou calar ou sentir com menos intensidade. Então, é melhor continuar.

A floresta à noite é feita de tudo o que não se pode ver. A falta de luz transforma e revela o potencial mau de cada ser. No escuro, amedrontados, todos empunham suas armas, é fundamental ameaçar, mostrar suas garras. Numa luta entre a vida e a morte, toda tentativa é válida.

Muito tempo já se passou. Eu vejo pouco, mas percebo, algo eriça meus pelos, as sombras e seus vultos e seus medos. Sinto seu cheiro. Tento mostrar que não possuo armas. Minhas mãos estão vazias, as uso apenas para afastar o que se coloca como empecilho à continuidade do caminho. Minha mensagem parece não chegar. Eu só queria estar ali em paz. Como pode um desejo tão simples não se realizar?

Quanto mais dentro da floresta, maior a escuridão e o que antes podia ser removido facilmente com uma mão, agora resiste firme. Nem meus dois braços, nem a imposição do potencial transformador contido num abraço. Tudo é de outra forma interpretado. Não importa o que eu faço. Não sei me despir mais do que posso, não sei falar outra língua, é inútil combinar palavras em rimas. É como estar sendo punido, um castigo por estar ali, por querer seguir, pela pretensão de se pensar destemido. Quem foi que disse que todo ser vivo é lindo?

Mas algo que pulsa dentro do meu peito não me deixa aceitar a realidade de outro jeito. É quando eu vejo. O que vibra é também o que contém energia. Sendo assim, é como ser algo que espontaneamente brilha. A luz que eu sigo no meio da escuridão parte de mim. Será que floresta toda estaria dormindo se não fosse por meu egoísmo em querer descobrir o caminho? Será que isso tudo é realmente preciso?

Paro por um momento e, como um porco espinho, me recolho, de mim mesmo, de todos me escondo. Silêncio. Nada se ouve. Nada se pressente. Como por um passe de mágicas as ameaças estão guardadas. Sem qualquer luz intrusa e insistente, a escuridão retorna ao seu equilíbrio, assim com todos os bichos. Acontece que eu não sou um porco espinho. Eu sou um ser humano, eu penso, sinto. Eu vibro cada vez que existo.

Tudo começou assim:

Num lindo dia de outono o sol brilhava forte e iluminava tudo ao redor. Diante de um jardim muito verde e cheio de flores, uma moça se sentou e simplesmente apreciou. Por um segundo não desejou nada, apenas de corpo e alma se conectou. Quando correu em pensamento para algum lugar, foi à imagem de beija-flores que ela costumava parar e observar. Lindos, rápidos, como se fossem encantados, eles voavam de uma flor em outra provando do seu melhor sem se preocupar. Na mesma velocidade em que os bichinhos foram encontrados em sua alma, eles apareceram na sua volta como por passe de mágica.

Pega de surpresa pela ilustre presença, ela se pôs a chorar. Lágrimas de gratidão pela prova da sua conexão se curvavam diante dos pássaros. Ela nem sabia para qual olhar. No seu peito havia a certeza de que a vida era linda, de que a prosperidade era infinita. Ela desejou que alguém que precisasse de uma cura específica a recebesse e absolvida pudesse seguir adiante com a vida. Foi quando de repente escutou um barulho e logo em seguida um beija-flor pousou todo destrambelhado num galho. Diante de tanta beleza e harmonia, aquilo destoava dos fatos e aquele pássaro saiu do anonimato.

Ela até tentou se manter serena, tranquila e satisfeita sabendo que a natureza também tem seus percalços. Sim, imprevistos e desequilíbrios podem acontecer até mesmo no mundo dos pássaros. Mas ela já não conseguia mais. Ela estava preocupada com ele, exatamente com aquele que ela via agora dependurado apenas por uma pata de cabeça pra baixo.

Ele parecia estar machucado e ela não pensou duas vezes antes de sair do seu lugar e cautelosamente se aproximar. Ela ia pé por pé, pois não queria se intrometer. Foi respirando e avisando que queria ajudar, que sofria por ver algo tão belo quanto ele sofrer assim na sua frente, sem motivo, sem porquê. Ficou lá por frações do infinito se derramando em lágrimas pelo medo de testemunhar a transição de algo vivo e vibrante em algo tão insuficiente quanto a matéria pura simplesmente. Ela temia ser culpada de alguma forma, temia sua impotência que já a consumia inteira. O maior medo de todos, o de vir a machucar mesmo com o intuito de ajudar. As lágrimas surgiam compulsivas e ela as deixava, as derramava enquanto falava:

– Beija-flor lindo, o que eu posso fazer por você? O que aconteceu? Como você veio parar aqui?

Ela se aproximava centímetro por centímetro para que ele pudesse tomar consciência de sua presença e deixando que o sol aquecesse seu coração e suas mãos.  Ela queria que ele soubesse que ela estava ali como um canal entre Deus, ele e um eu. Que pouco a pouco enquanto seus corpos ficavam próximos desaparecia qualquer diferença entre eles já que eram os mesmos em suas crenças, na beleza de suas essências. Cada uma das células dela dizia:

– Beija-flor querido, fique tranquilo, eu jamais o machucaria. Tenha certeza de que eu só farei aquilo que me permitir. Essa é uma lei que, eu sei, seria um grande erro infringir.

Com uma de suas mãos ela segurava o galho em que ele estava dependurado já bem próximo ao seu rosto. Ele com certeza poderia sentir seu hálito. Ela nunca tinha ficado tão próxima assim de um pássaro, podendo ver cada um dos tons do seu penacho e seu bico longo e seus olhinhos que piscavam. Seu intuito era com a outra mão segurá-lo, tirá-lo daquele galho e trazê-lo pra perto do seu peito, pro calor e pro conforto das suas mãos. Ambos podiam sentir o calor irradiando delas em sua direção tamanho o desejo por sua salvação. Quando finalmente ela venceu seu medo e se fundiu em amor com o beija-flor, claro, ele finalmente despertou, bateu asas e voôu.

Ela ainda pôde vê-lo vários dias voltando pra mesma árvore, beijando as mesmas flores exatamente como é de sua missão, talvez nem se apercebendo de outro tipo de existência ou da intenção de alguém que o amou e precisou ficar feliz ao vê-lo partir.

Véspera de páscoa. As datas comemorativas têm passado rapidamente, parecem estar cada vez mais próximas. Ontem foi Ano Novo e entre então e agora existe a chegada da Laura.

O amor quando vem, vem inteiro, todo, em todas as suas formas e versões. Tudo começa com um característico tipo de amor conhecido como paixão. Aquele grande ponto de interrogação que não nos deixa mais seguir a diante em paz, sem sentir calafrios ao se perguntar: o que será que tem lá?

Seja por curiosidade ou genuíno interesse, esse ‘querer saber’ é o que faz o ser humano crescer. Tudo o que é feito antes disto, como, por exemplo, por vaidade ou por impulso, é apenas uma preparação para o enfrentamento da grande questão.

Vida é o que fazemos, o que sentimos, e, principalmente, o que descobrimos durante estes mergulhos no mar do amor. Estamos vivos quando estamos atentos, dedicados, inteiros correndo por maiores entendimentos, juntando pedaços de nós mesmos em busca de superação. O ser humano sempre foi desafiado pelo ponto de interrogação. Foi ele que nos levou mais longe, que nos colocou no rabo de um foguete, que nos permite comunicar com quem está distante e passar pelo inverno sem ficar doente. O ponto-símbolo da indagação é um trampolim para algo melhor que já somos, é uma salto pro futuro, é um aperfeiçoar do exercício de ser / estar.

Mas, claro, esse não é um lugar fácil de chegar. E muito menos de estar. O questionamento leva-traz o desconhecido considerando que já estejamos preparados, que já somos um ser amadurecido. O despertar oficial do Deus adormecido. O Deus-Eu, uma fração poderosíssima do Supremo que rege o coletivo. Exatamente quando são concebidos nossos filhos.

Os filhos que vêm são de um novo amor. A resposta para um questão antiga: qual o significado da vida? A resposta veio em frações, em pequenas porções de um amor menos transgredido, um amor menos preso à convenções, o exercício de um sentimento de aceitação do próximo e de si mesmo como expressão do que há de mais bonito. Os filhos de agora não vêm como consequência do amor livre ou da rebeldia, agora, ao menos uma grande maioria, já vêm como expressão do amor-aceitação, do amor-perdão, a entrega maior possível de alguém a si mesmo, ao que se é e ao que se foi, seu igual ou sua ilusória oposição. Agora, nesta Era, o desafio está no transcender das aparências e no ancoramento do amor incondicional como última peça de um quebra-cabeça-resposta ao ponto de interrogação inicial. Nada pode ser mais forte do que o nos une como iguais mesmo quando o externo parece oposto e o interno, algo subjetivo demais para ser alcançado apenas com meditação. Pode ser difícil o exercício de olhar, mas tão logo nos permitimos parar, o que vemos em nosso interior é semelhança e simplicidade: não há nada além de energia divina e um infinito potencial de co-criação.

Se antes as duplas eram feitas pela semelhança, agora elas tendem a pequenas diferenças harmonizadas por todo caminho de convergência já percorrido. Não por uma ironia do destino, mas porque chegou o tempo em que pouco , muito pouco nos separa e todos queremos crescer e aprender e fazer parte do que está por vir. A semelhança está na intenção, no anseio das mudanças que ainda faltam. Todo o pouco que ainda falta é concretizado pela esperança de ver quem está ao nosso lado motivado, oferecendo o seu melhor, focado exatamente no que nos faz únicos, ancorados em nossas forças para elas sejam também do outro quando ele precisar.

O equilíbrio deste momento ‘por-vir’ acontece no estado que gera nossos filhos. O amor-entrega presente no ato é que move, que rege da maneira certa, sendo esta não uma simples convenção mas, sim, a que gera o movimento mais produtivo na direção de um mais edificado indivíduo. É a certeza de que nenhum ato foi sem-consciência e que diante de tanta vigilância dos quereres de tudo o que não é essência, só pode que nossos atos não são mais tão somente nossos. Nossos movimentos são parte de um Deus interior sendo ouvido e tendo sua parte do maior Plano Divino sendo seguido através do exercício de cada indivíduo. Agora termina de mudar a função de estar vivo e é assim que geramos nossos filhos.

Viver é um presente concedido a quem está preparado para ver a grandeza de cada Ser mesmo que isso nos cause ainda algum sofrimento ou resquício de dor. Despertar ao amanhecer é ter a chance de reconhecer que somos um escolhido, que a nós foi concebido o direito de continuar, que alguém nos considera relevante, que nossa contribuição pode ser importante, fundamental para o movimento que há de englobar tudo em amor. Só é preciso uma quebra de paradigma, uma respiração, um sorriso, um pedido de perdão para que tudo que não seja perfeição seja transmutado em nossos corações. Pode parecer ainda difícil, mas assim viverão os nossos filhos, em plena expressão de seu Deus-Amor como resposta ao mais lindo ponto de interrogação: qual é, afinal, a nossa missão?


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