Nandadornelles's Blog

Archive for December 2010

Cuidado. Não leve, assim, tão a sério o que eu digo. Lembre-se, eu também estou apenas (me)descobrindo. Existem mil versões para coisas tão próprias como o amor. Eu falo sempre de mim numa mistura de ânsia e de esperança que a minha experiência possa servir de ponto de partida para a sua. Eu preciso que você vá além de mim e me ensine, senão a amar, então a compreender os praticantes desta arte sutil, esta habilidade torta que nos provoca a se reinventar pelo desejo de agradar.

Eu não seria louca de tentar falar do amor. Apesar de já me afirmar como louca quando amo, quando me coloco à mercê do desafio de ser um “amador”. Quem ama nunca é profissional. Quem ama, mesmo que por anos, nunca se torna um expert. Para que o amor “aconteça” é preciso um ser de boa vontade, predisposto ao ato e também é preciso um outro, provocador, encantador, o tal do objeto de amor. O amor tem esta diferença entre todos os demais sentimentos; ele é inviável dentro de alguém sozinho, solitário, ele precisa e sempre urge ser manifestado ENTRE. Enquanto a raiva, a ira, a inveja, o medo e o caralho a quatro podem acontecer dentro de você sozinho, enquanto vai ao banheiro, enquanto sonha acordado, enquanto acha que foi machucado… o amor não, o amor exige alguém ao seu lado para que seja concretizado.

Então, como eu dizia, quem ama é sempre e todo santo dia uma “amador”. Um praticante sempre iniciante na vontade de ser tão nobre quanto nos projetamos em nossos pensamentos. Mesmo depois de certo tempo, quem ama sempre se sente e se comporta como se fosse o primeiro dia e erra e acerta muito mais pela ironia do destino do que pela certeza de estar cumprindo seu objetivo. O amador é, sempre e até o fim, um aprendiz do amor. Eu desconfio que todo sofrimento intrínseco aos relacionamentos vem disso, do desejo insatisfeito do amador em se considerar sabedor. Todo conflito, toda troca de farpas, todo mostrar de garras, todas palavras duras, faíscas antecipadas em loucuras, todo olhar fulminante, toda dor na boca do estômago, todo coração ferido, sofrenildo é senão isto.

Sem pretensões de definir a experiência mais ampla e rica em definições – já que o amor é em si tão amoroso que comporta tudo, até mesmo estes meus pensamentos pequenos e meus gestos menores ainda – mas, ainda, buscando criar concepções que funcionem como uma luz no fim túnel, algo como um relaxante de tensões criadas pela angústia de não ser ou pensar saber. Se eu soubesse pintar, pincelaria cores e traços que formassem esta ideia quase patética. Um ser brigando consigo mesmo, seus fantasmas, seus medos enquanto correndo atrás do supremo.

Só pra deixar claro, o Supremo seria o indivíduo em paz consigo mesmo. Mas porque a gente não sabe disto – ou até sabe, mas se perde diante do outro que no início é muito mais lindo, que parece a realização de um desejo antigo – a busca pelo amor parece um martírio. Você acorda disposto a amar. Desperta olhos brilhantes, apaixonados, suspirantes. Seu ímpeto inicial é de sair comprar flores, fazer comidas deliciosas, se lambuzar todo de paixão, fazer promessas de uma vida linda, cumprir cada uma com o sorriso nos lábios e gestos cálidos. Mas aí, bem aí que seu objeto de adoração, seu despertador para o amor o desperta também para a uma cruel realidade: tem louça na pia, a gata do lado de fora mia querendo comida, a roupa ficou no varal e faltam dois dias para o Natal. E aí, que todo o seu ímpeto amoroso vai por água abaixo. É questionado pelo miado e pela sujeira e pela incerteza. É este momento que faz toda a diferença. Você ama ou pensa que ama? Eis a oportunidade para se revelar amoroso, para se descobrir nobre. Se o amor é complexo não é por menos. É porque nos exige pelo lado de dentro, coloca frente a frente desejos e medos diante de uma estrada sem nada a não ser você e suas versões vencidas de si mesmo. O amor é complexo porque reúne em si todos os opostos misturados numa coqueteleira sem gelo, tudo o que quer e o que não numa batedeira estragada que gira devagar. Um a um você os vê passar sem os conseguir misturar. Aí que o bolo desanda e você já pensa em se separar.

Amar não é fim. É meio para se reinventar. E ponto final. Se isto não bastar, o que mais irá? Não adianta disfarçar. O descontentamento de não ser perfeito fica estampado na sua cara e claro, o outro repara. Um espelho quase idêntico, você se vê impotente, pequeno. E para sua surpresa, incapaz de amar a si mesmo. Amor de verdade requer tranquilidade e quem não tem um não fica só na vontade do outro. O amor, para acontecer, requer dois seres amorosos em si mesmo. Mas ainda assim, nunca ensimesmados neste sentimento. Individualismo é diferente de individualidade. Individualidade pode ser um gesto de amor ao próximo, complexo, paradoxal. Para ser Um com o outro é preciso um certo distanciamento, um ensimesmamento tranquilo, sereno… difícil de conseguir enquanto acreditamos na existência independente do outro. O outro como nosso ego a nos ferir, a nos provocar, a refletir coisas que não queremos ver, aspectos mal-resolvidos, lados que nunca vimos, nosso lado negro, sem luz há tanto tempo.

O paradoxo do amor está na combinação entre nós e o outro depois que é passado o tempo da venda de nós mesmos enquanto melhor opção, enquanto único objeto válido de paixão. Nossa arrogância em se pensar solução. O atrapalhamento entre ajudar e calar. Entre saber e não falar. Entre duvidar e ousar experimentar. O paradoxo é o ponto em que tudo se depara com tudo; sinônimo e antônimo, acepção e singular menção. A dificuldade em empregar a palavra certa para definir o que não pode ser descrito, mas sim e unicamente vivido. O paradoxo é nossa rejeição em embarcar em algo diferente do que prevemos sozinhos para nós mesmos e consideramos a companhia e as contra-partidas do outro sem seu prévio consentimento. Amar é abrir mão de comportamentos padrão, não por aversão mas sim por constante compreensão ao que fomos, ao contexto que nos deu origem, aos contextos novos que nos exigem.

Amar é pisar no próprio coração para sentí-lo pulsar e na dor se negar a acreditar. Amar é estar feliz sem motivos, mas não em função de um sobrenatural estado de espírito. Amar exige foco em seus propósitos e usar tudo mais como subsídio para cumprí-los e só depois, mais tarde, quando for chegada a hora, decidir se isso é suficiente para uma vida inteira. Amar é abrir mão de fazer besteiras, de correr para todos os lados, de se debater, de levantar os braços em busca de socorro. Amar é não se ajoelhar diante de um santo, mas sim a dor de se saber não ser um, de ser humano, de ser pequeno e limitado. É se enxergar deturpado e ainda assim se sentir amado.

O ponto crucial da escolha amorosa chega todos os dias. Paciente e persistentemente bate todos os dias na minha, na sua, na nossa porta… como a gata. Tão logo sente o movimento cedo pela manhã, mia, nos chama, nos requer atenção, nos cobra a determinação, a paixão, a presença tão inteira como quando fazíamos amor e prometíamos o mundo embrulhado de presente de natal. E a gente se super-estima, achando que pode, que tem poder de general ou de guia espiritual. A gente promete mundos  e fundos e acredita nas promessas e grato e incrédulo promete mais ainda. Mas já são outros tempos e prometemos coisas de que nem sabemos. Falamos de paz de espírito, falamos em ter filhos, nos vendemos como peritos… como se fosse fácil, como se fosse possível compartilhar o que só é possível experimentar. E sem saber de nada disso, nos condenamos a um milésimo de infinito, em nossas incompetências ficamos exprimidos. Acuados, revidamos ferozes para disfarçar nossas incapacidades em cumprir as promessas tal qual foram feitas. Esquecemos que pra tudo existe um tempo. A urgência no fere em silêncio. Cegos, revidamos sem medida, sem escrúpulos. Culpamos o outro pela sua decepção quando nada mais há além de dois indivíduos sedentos por amar de um jeito que caiba e que sirva e que cure todas as feridas. Dói não ser um bálsamo para todas as insatisfações da vida. Dói não cozinhar a comida preferida, não ser a companhia escolhida. Dói se sentir traída por ninguém, não saber onde está o agressor. Dói tentar cortar o vento com palavras afiadas que sempre retornar às nossas vísceras. Também dói engolí-las, todas se revoltam dentro da boca ou da barriga quando não são ditas. Quando não encontram amor capaz de dissolvê-las fora ou dentro de nós mesmos.

O amor seria então a experiência mais rica. Um altar construído no topo do morro, uma mina perdida bem lá no fundo da terra, uma nuvem que se dissipa, um passarinho que pia e uma gata que impaciente pede por comida. A única experiência que não pode ser definida posto que se reinventa e se duplica invertida porque acontece dentro de cada um e em nosso meio; um espaço que não pode ser medido de imaginários infinitos e desejos perdidos de tudo o que queremos ser… vaidosos e egoístas, sofremos por quer alcançar feitos incríveis sem precisar matar nossos personagens mais cretinos. Ao invés disso, ameaçamos suicídio basicamente porque temos medo do ridículo; para quem quer amar, o primeiro obstáculo a ser vencido.

Advertisements

“Seda” de Alessandro Baricco

O mundo está corrido demais para textos densos ou exagerados semanticamente. Nosso mundo atual é sintético sem com isso ser menos complexo. Este autor faz isto: frases curtas, pensamentos lúcidos e profundos.

O final é inesperado. Chega docemente sem ser avisado. A ausência de um pedaço de cereja dentro da trufa.

Suas vírgulas sem justificativa foi de que mais gostei. Frases como legendas para imagens ganham novo sentido já que as vírgulas – inesperadas como o fim – oferecem algo diferente do que se pretendia construir para além da retina e as páginas escritas.

É uma história de amor com a cara do primeiro dia do verão de 2010: Invertida, mas ainda assim, linda.

“Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite” de Fal Azevedo

Ótimo para quem gosta de ler. Para quem gosta de entender o que acontece dentro de tantas gentes, de tantos seres diferentes.

Livros como esse é que podem finalmente combater as variações das antigas e vencidas de auto-ajuda. O que ajuda é a gente usar bem o nosso tempo, ser feliz o maior número de momentos. As frases da Fal (fiquei íntima de tanto que gostei) são certas, são rápidas, são ágeis. Uma autora que não rouba seu tempo dizendo em outras palavras o que você já sabe. Ela te conta dela, um lago de águas claras onde o leitor pode ver pensamentos amarrados em sentimentos e pesadelos e táticas reais de sobrevivência. Ela te conta como nada, como faz para não afundar mesmo sem mencionar esse verbo ou esse medo. Ao longo do livro a autora se reinventa sem pretensões, e te conta isso aos pouquinhos, compartilha o processo de viver; mesmo que isso signifique sofrer.

Li enquanto ria e chorava, cada vez que eu me identificava ou que torcia ou que vibrava por ela, por nós que somos tão iguais, tão mortais.

Lindo, leve como o verão. Inspirador como fim-de-ano. Fácil como deveria ser Viver.

Ela também tem o blog. Gostei de ter lido o livro antes.

http://www.dropsdafal.blogbrasil.com/

Ser humano é… ser / humano. Um bicho esquisito que mesmo evoluindo, se tornando lindo, ainda assim, às vezes, se encontra perdido.

Eu ainda não sei se é este mesmo o caminho. Às vezes eu fico confusa. As vezes o mundo me assusta. Quando não sei se é verdade o que sinto ou que vejo, ou, ainda, se faz sentido o que penso que entendo. Toda vez que não sei de mim, me perco. É por isso que nos dedicamos tanto aos relacionamentos… o exercício de se enxergar em um espelho, tanto faz se é bonito ou feio.

Neste momento, estou perdida pelos entendimentos dos sacrifícios. Os meus e, consequentemente, de alguns alheios. Tem coisas que não consigo fazer por mim. Não muitas. Aliás, agora que descubro uma ou outra coisa que exigem disciplina e determinação, que exigem o uso da consciência ao meu exclusivo favor. Me perco porque ainda não me dou tanto valor. Tem coisas, alguns vícios que não precisam ser descritos, que não consigo mudar se e enquanto para meu próprio bem-estar. Resquícios de um pensamento malandro. Descubro que minhas forças para mim mesma são pequenas. Apesar de em minha busca ter me deparado com forças maiores do que as que pensava que tinha. Mas com isso, os obstáculos continuaram vindo. E eu fui obrigada a me reinventar enquanto indivíduo. Agora estou perdida, porque não sei se é medo, desejo ou intuição feminina. Eu só sei que estou prestes a me descobrir maior ainda, parecem estar chegando novas fontes de alegrias. Talvez existam passos que não possam ser dados simplesmente motivados pelo amor próprio. Talvez um determinado grupo de melhores atos esteja reservado a algum próximo, um Ser ainda a ser inventado. Um Ser como um Chamado.

Já virou rotina. Eu sempre me percebo perdida logo antes de me encontrar mais linda ainda.

Céus, o que será que me espera ao dobrar a esquina? Onde estaremos na próxima quinta? Por quanto tempo ainda me sentirei perdida? Qual é a porta que deve ser aberta, eu só quero saber da certa, a que traz mais vida, aquela que jorra luz e a tudo ilumina, aquela que te traz, aquela que nos faz?

– Toc-Toc

– Não sei quem é, mas pode entrar. Eu já estava mesmo cansada de me preparar… até já achava que eu nunca iria bastar. Não precisa se preocupar… é só você chegar que eu termino de me reinventar. Displicentemente, eu deixo algumas coisas fora do lugar para arrumar só quando você se anunciar. Você é que vai me motivar.

 

Para se chegar onde se quer é preciso uma boa dose de algumas coisas. Sabe, ingredientes indispensáveis como boa vontade e foco. Sim, não é possível alcançar um objetivo sem Foco. É uma questão óbvia, as exatas explicam, é só abrir um livro de física ou de fotografia. E quem não sabe desta verdade, é inevitável, precisa pagar por isto. A ignorância tem seu preço, é também por isto que corremos atrás do dinheiro o mês inteiro.

Dia de mudança. Mesmo não mudando de rua, nem mudando de prédio. Mesmo só arrastando caixas de um andar para o outro, mesmo com uma faxineira ajudando na limpeza, mesmo com sorrisos no rosto pelo suor exibido no corpo do outro… mesmo não sendo a mudança mais definitiva das nossas vidas, ainda assim, mudança é sempre um transtorno. Basicamente porque a gente sempre tem mais coisas do que precisa. E o fato; a gente sempre deixa tudo pro último dia.

A princípio, tudo corria bem. Quando de repente, o Amor e eu lembramos que com toda a bagunça não seria possível fazer comida. Alguém teria que sair para buscar um almoço. Tudo bem, por uma questão um tanto de logística, outro tanto de hierarquia, eu iria. O restaurante a quilo sugerido ficava a 5 quadras das nossas casas (da que saíamos e da que entrávamos). Eu até pensei: hmm, por que não ir caminhando?  Mas como eu não faço pergunta pra ficar sem resposta, logo me dei conta de que a comida chegaria ligeiramente fria se dependesse da minha velocidade bípede. Então, já sabendo que o só o pior poderia acontecer, lá fui eu pagar pra ver.

Eu admito. Tenho um sério problema de foco. Meu jogo de lentes deve ter vindo com defeito, ou sou eu que não sei usar direito. Mas é batata, sempre que a minha emoção entra no meio de uma coisa prática – como ir até ali na esquina buscar comida – eu me perco. Dá um Tilt. Eu esqueço do objetivo, eu perco o principal motivo e saio correndo em busca de coisas pequenas, muitas, coloridas, floridas, cheirosas, cheias de intenções e sentidos segundos, terceiros e quartos. O primeiro, faz tempo foi transcendido.

Assim que eu estava prestes a passar de carro perto do restaurante – 2 minutos depois de ter saído da garagem das casas – eu mudo de ideia me sentindo a mais esperta. Passo por ele, olho pra ele e confirmo pra mim mesma que a minha mais recente ideia é infinitamente melhor. Eu nem cogito estar errada, desfocada de tão empolgada.

Sigo dirigindo. Aquele lugar ainda é estranho pra mim e logo eu começo a pensar: onde era mesmo aquele lugar que vende umas pizzas legais que o Amor comentou outro dia?! Como estou dirigindo e procurando não-se-sabe –o-que ao mesmo tempo, minha mente oferece mais um lampejo de falta de bom senso: sushi! Sim, a gente merece comemorar este momento com um bom sushi! Vou seguir até a próxima praia, lá tem, com certeza.

“Com certeza”?! Tem palavras que a gente usa levianamente, né?! Certeza é algo que eu não poderia ter diante de uma cidade que aos poucos se torna minha, o relógio corria rapidamente das duas paras as três horas da tarde, os restaurantes fechavam, o tempo não só passava como também fechava, uma tempestade chegava, eu estava de vestidinho de ficar na casa da praia, chinelo, cara e cabelo de qualquer jeito e ainda as lojas de comida exigiam dinheiro. As maquinas de cartão não estavam funcionando! Agora sim, eu começava a desconfiar que iria melar o meu plano perfeito. Mas eu queria sushi de qualquer jeito!

Bom, eu falava da falta de foco. Então que é uma lei natural. Se você não sabe para onde está olhando, se não está mirando para algum ponto, acaba que tudo fica misturado no primeiro plano e aí, bom, aí o caos, né.

Já eram três da tarde. Eu começava a me sentir angustiada por não encontrar comida, o Amor e a faxineira em casa, famintos. Não só isso, eu os deixei trabalhando sozinhos. O sushi, eu descobri logo de cara que era impossível: primeiro objetivo – não cumprido. Quando eu decidi ir até o caixa eletrônico sacar dinheiro para comprar a coisa comível que aparecesse primeiro, eu já tinha passada na floricultura – Claro, fundamental uma plantinha para a casa nova, dá sorte. Já tinha comprando incensos – sim, porque os nossos estavam acabando! Como nós colocaríamos o pé direito na casa nova sem um bom estoque de incenso?! E tinha dificuldade de encontrar um lugar para qualquer coisa no porta-malas do carro porque sacolas de travesseiros novos, toalhas, lençóis e coisas assim, digamos, volumosas e essenciais para a mudança atrapalhavam um pouco.

Foco, né. Eu já falei. Eu tava mesmo perdida nos elementos de uma fotografia que eu queria que saísse linda! Eu já tinha imaginado tudo. A felicidade dos outros dias dependeria da alegria daquele dia. Ah, e o sushi. Que merda, eu não consegui sushi! Tudo bem, fé em deus que a gente vai ser feliz mesmo assim. O negócio é compensar: roupa de cama nova, linda, macia e cheirosa para a primeira noite na casa nova – ok, incenso para mistificar os momentos sentados na área conversando sobre o nada – ok, flor linda, colorida, cheia de energia para enfeitar a sala e a cozinha – ok, travesseiro fofo para acomodar bem os nossos sonhos – ok, toalhas felpudas cor de creme para a gente não ter medo de se sentir excelente – ok. Agora só falta algo para comer… será que eu não encontro um breakfeast inglês!?

A imagem que eu corria para construir ficou levemente alterada pelos eventos a seguir. Lembre-se, é importante rir.

A pizza que eu arrecadei a contra-gosto como última opção de alimentação não vinha nem em embalagem apropriada, muito menos personalizada. Equilibrando ela num prato de papelão com uma das mãos, caminhando rápido, porque só agora eu havia me dado conta que podia ter demorado, com a outra mão busquei o controle do carro para destravá-lo e desligar o alarme. Preste atenção porque não foi fácil chegar nesse resultado. A falta de foco gera muito trabalho e, claro, custa caro. Em ordem, foi assim que o caos se estabeleceu:

1 – eu abro a porta do caroneiro para acomodar a pizza no banco (já que todos os outros espaços do carro estavam ocupados com alguma coisa suuuper essencial)

2 – o alarme do carro dispara (ahh, eu e minha mania de abrir a porta em cima da hora! Como eu faço para ele parar!?? Ai, céus, se o Amor sabe já ia me dar aquele olhar)

3 – o meu celular começa a tocar e é óbvio que é o Amor preocupado com as minhas 3 horas de sumiço (aaai, céus, o que eu digo?!)

4 – Tomada pelo desespero de quem sabe que fez tudo errado desde o início e agora vai ter pagar o preço de não ter feito estritamente o que lhe foi pedido ou o que era preciso, eu inseri a chave do carro na ignição. Vá saber por que, mas a minha intenção era que com isso o alarme parasse e eu conseguisse atender o telefone já que o Amor tava ligando, o telefone continuava tocando)

5 – Eu giro a meia chave e nada. O alarme continuou a mil, assim como o toque mal escolhido do meu celular novo. O Amor deveria estar preocupado, eu podia sentir, ele tinha toda razão, talvez pressentisse o que estava por vir. (será que ele tentou impedir ou …?!)

6 – De repente, esticada eu atravessava de uma lado a outro do carro. As pernas e a bunda pro lado de fora impedindo a porta de fechar. Me achando super lúcida, achei melhor não insistir em girar a chave assim, sem estar devidamente sentada no lugar do motorista. Imagina se acontecesse qualquer coisa e eu to aqui nessa posição que lembra aquela brincadeira do Napoleão.

Pensando em tudo isso, o telefone ainda tocando, a pizza jogada em cima do banco, a minha fome, o meu medo de vir a ser punida pelo erros. Eu perdi o foco quando dobrei a esquina de casa, agora quilômetros me separam dela e eu iria pagar por tudo em muitas moedas:

7 – eu resolvo atender o telefone ao mesmo tempo que saio de onde estou para entrar novamente no carro, agora pelo lado certo. Como se fosse possível recomeçar do zero.

8 – Descubro já com a ligação retorno para o Amor em curso que eu fiquei presa pelo lado de fora. A porta que estava aberta fechou. As que estavam fechadas não abrem. A chave está do lado de dentro, metade girada. O alarme não se cansa e dispara, dispara, dispara.

Como eu resolvo esta situação? Bem… um pouco de desespero, a coragem pra falar a verdade pro Amor e pernas saudáveis para correr em busca de um chaveiro de automóveis antes que a chuva caia forte e que alguém leve embora o carro – ou irritado pelo barulho ou ligado de que a chave tá lá dentro; barbaaada. Encontro o chaveiro que, claro, leva todo o meu dinheiro. Mas para quem estava disposta a pagar um sushi até que a falta de foco saiu barato. :p

O Amor ainda está me conhecendo e aos poucos aprendendo que comigo a vida é uma aventura, não existe rotina ou baixo-astral. Mas dá muito trabalho, motivo pra riso e claro, algum prejuízo. … Ninguém é perfeito, é bom isso ficar claro desde o começo em qualquer relacionamento… não?!

Um quadro pode ser só um quadro, assim como um charuto pode ser só um charuto. Mas, para que a vida seja tão simples assim, é preciso um mergulho profundo nas raízes; tanto o quadro quanto o charuto não são, senão, as suas origens.

Quando você vê um quadro, quando está diante de uma figura, um recorte da vida dentro de uma moldura, vê parte do mundo influenciado antecipadamente sobre a visão de quem o pintou. Se você não concorda comigo, podemos partir para um desafio. Pararemos diante do mesmo quadro e emitiremos nossas opiniões que, obviamente, serão diferentes. Você foi criado num determinado contexto, eu, em outro. Mesmo se fosse minha irmã a vê-lo comigo, ainda assim, nossas percepções da mesma tela serão diversas. Mas, ainda assim, teriam um ponto em comum: o ponto de partida, sempre definido por quem pinta, o privilégio de quem cria.

Este poder de decisão pode ser maior ou menor dependendo do grau de intenção de quem pintou. Usar os pincéis, as mãos, os pés, as cordas vocais ou seus músculos faciais para descrever um entendimento privilegiado da nossa condição é o único argumento capaz de nos fazer transcender o plano terreno. Parece que foi isso que perdemos com o domínio do Império Grego. Tudo bem, precisamos de anos, fomos obrigados a nos contentar com alguns poucos, os clássicos, os maiores, os nomes que a poeira do tempo não encobre para chegar até aqui e agora, sim, escancarar o mundo com sinais para nos apontar portas e caminhos. Um quadro nunca é só bonito. Um quadro é um portal, um convite para conhecer outro plano, algo além do que nos confina humanos.

Nosso cérebro é uma máquina incrível. Por uma questão de economia de energia, ele se se comunica com todo nosso corpo e com todos os outros planos através de imagens. Imagine se seu cérebro tivesse que parar para explicar para os deuses ou para seus joelhos em palavras todos os detalhes dos seus afazeres ou a importância de seus prazeres! Não daria certo e a gente viver centenas de anos correndo atrás do próprio rabo e morrendo de medo de ter entendido tudo errado. As imagens são rápidos meios de comunicação e, assim que você descobre o seu acervo, assim que entende suas interconexões e suas mais básicas funções, você descobre o quadro mais precioso do mundo, uma peça única: o quadro da sua felicidade. Não, isso não é só mais uma viagem!

A gente demora pra entender este fato com todas as letras e a manter este entendimento apesar de conviver com um mundo virado do avesso. Mas um dia chega um lampejo intuitivo e você se enxerga dentro do quadro mais bonito. Pronto, foi cumprido o primeiro objetivo! Você está no caminho!

A gente vem para este Planeta, denso e colorido, para comprovar a nossa capacidade de ser feliz apesar dos pesares. Todos desembarcamos aqui com estes dois itens na bagagem: suas motivações e suas doses de apesares. Entre eles há um equilíbrio. Você assinou um contrato que ponderou enquanto ainda era só espírito, luz, um ser divino. Mas até para que fosse válido o exercício, chegou aqui se achando ridículo. Teve que aprender a caminhar, a cagar no pinico, a se maquiar e usar salto fino, ou aprender como fazer para ser incrível apesar de ter entre as pernas um pinto. Mas tudo o que sempre nos foi pedido foi isto: alcance a sua felicidade usando como base o seu quadro de realização pessoal, grandes quantidades de boa vontade e claro o exercício contínuo do seu livre-arbítrio. Depois, entenda isto e conte para os seus amigos, pinte um quadro, arranje notas musicais, escreva um texto. Enquanto faz isso motivado pelo amor mais bonito, se vire do avesso, se conheça inteiro. Não tenha medo de ser tão pequeno quanto um gênio!

Mas a gente vive em sociedade e acredita demais neste formato antigo, vencido. Aí que a novela das oito, o jornal nacional e os reclames do plim-plim não te deixam dormir. Você não isso ou aquilo, não se sente atraente, não é responsável por um exército valente, resumindo, se sente gente, apenas, nada mais do que isto. Um indivíduo perdido entre tudo o que não se é e a distância do que se precisa parecer. Ninguém nunca fala em Ser.

Uma inquietação não o deixa desistir. Intimamente, você só sabe que precisa seguir. Aí, desavisadamente, decide não aceitar os remédios para curar o seu “desvio bipolar” e entra em depressão, deixa que a vizinhança comente sobre a sua “síndrome do pânico” apesar de deixar em casa a placa que seu psiquiatra lhe deu dizendo “indivíduo com transtorno obsessivo-compulsivo, tenha paciência com ele, tadinho, está perdido, eu mesmo prescrevi os comprimidos”. Uma pista ali outra aqui e você descobre que não é possível sobreviver sem morrer. Então, determinado, inspirado por algo que não sabe o que, você se dedica em morrer. A cada hora do dia morre para algo que nunca seria, morre para estranhas expectativas. Deixa que se frustrem as vizinhas, larga sua mãe falando sozinha sobre como você deveria viver sua vida. Morre para as namoradas esquisitas, para os traumas desnecessários, faz uma limpeza geral e morre para si mesmo. Morre para seus mais humanos desejos, os vai removendo um a um: o carro do ano, a casa igual a da revista, o quarto e a sala de jantar sob medida. Você mata o pai projetado em seus desejos frustrados, você se suicida com um golpe pelas gostas de si mesmo. Você morre por falta de opção; porque só o que não pode é se conformar em viver deste jeito: pequeno, tudo é em função de uma porra chamada dinheiro. Até que, entregue, sem nada, despido de tudo o que não serve, você se vê estirado no chão, todo sujo de lama. Você descobre na pele, no nível da experiência, a dignidade dos porcos, da minhoca, da importância de a água estar combinada com a terra na medida certa. Você quer renascer e pera isso precisar chegar a este ponto de conversão. Você está prestes a se reinventar, a partir de agora a sua alma é que vai guiar.

Da L-A-M-A.

Para A-L-M-A.

Mera coincidência?!

É a alma do artista que funciona como pistas para quem admira uma obra, uma conquista íntima. É por isto que partimos ambos do mesmo ponto enquanto observamos o mesmo quadro. Ser artista não é uma profissão que se possa escolher. Ser artista revela uma maneira de viver. Não é algo que se possa optar no vestibular. Ser artista é ser um co-criador e divulgador dos mistérios da existência, é transitar entre todas as crenças, a principal delas em si mesmo, no seu poder imenso.

Mas como tudo é sempre e infinitamente uma questão de escolha, você ainda pode optar por ser dois tipos de artista: você pode pintar com muitas tintas até descobrir matizes ainda mais coloridas, ou você pintar em branco preto, você ainda pode se condenar em sofrimento. Talvez esta segunda seja o caminho mais fácil se seu interesse estiver no dinheiro. E sem preconceitos, o mais importante é que você esteja inteiro. O trabalho é o mesmo, seja tristeza ou alegria. O mais importante é que não minta, não se omita. Faça um favor e mostre a que veio, apenas vença seus medos.

DA INTELIGÊNCIA NEGATIVA

Para conseguir ser um bom artista, também é fundamental abrir mão de ser 100% otimista. Assim, você tem diante de si um quebra-cabeça. Daqueles bem grandes com imagens complexas, cheio de elementos pequenos, detalhes, paisagens de lugares que você nunca esteve antes mas sabe que existem e que esperam pela sua presença.

Para facilitar a montagem você o organiza num grande quadro imantado na parede da sua sala que agora não possui nada além de espaço – lembra? você abriu mão da decoração, levou tão a sério que não tem nem fogão. O grande quadro foi colocado lá e entre uma coisa e outra, você para na frente dele disposto a completa-lo. Você começa com uma peça qualquer. Pode ser um amor que quer viver ou um lugar que quer ver. E aí, pronto, de novo você não consegue mais dormir. Só que agora nem procura por ajuda psíquica. Não é um distúrbio do sono. Você pode sentir que os motivos da sua inquietação são outros. Talvez se confunda com as sensações de inadequação e busque os mesmos confortos, um cigarro, uma bebida, uma droga qualquer que alivie a excitação de saber que você está prestes a ser feliz e o medo de se descobrir assim.

Dedicado, em pouco tempo o quadro está quase todo montado. Agora faltam poucas peças, mas, claro, são as mais difíceis que sobraram. Você passa dez vezes ao dia em frente ao quadro e o que te chama a atenção são, inevitavelmente, os buracos. Se sua mãe estivesse por perto te chamaria de pessimista e te diria para se contentar com o que já está lá escancarado. Mas você sabe que não é este o caso. Você sabe que está atento a tudo o que foi feito. Inteligentemente, sua mente funciona de uma forma “negativa”. As peças que já estão unidas funcionam como pistas. São elementos que lhe sugerem o que faria sentido compor logo ao lado, talvez seja um cisne em um lago ou um homem apaixonado. Você está absurdamente empolgado, mas não adianta, lhe chama atenção os buracos. São poucos, o quadro está quase pronto. Meia dúzia de peças e sua felicidade estará estampada na parede da sua sala.

Como não podia ser assim tão fácil, este quebra-cabeça havia passado anos guardado em caixas no sótão da sua antiga casa. E como a gente, geralmente, não se preocupa em deixar organizado o que vai ser guardado, o quebra-cabeça acabou misturado com outros já dispensados. Assim, não há peças em cima da mesa para preencher os poucos e últimos buracos. Desanimado?!

Você não é bobo de desistir depois de ter chegado até ali. Como um filme de terror, você lembra de todo o horror que foi morrer e renascer. Lembra do quanto doeu para que sua ALMA se desprendesse de toda a LAMA, arregaça as mangas e revira caixas antigas em busca das peças perdidas. Ainda desavisado de que isto pode significar conversas sérias com suas filhas e algumas visitas a amores ínfimos. Seu passado é um baú rico em subsídio. Os buracos estão fixados em sua mente – não mais em seu coração, você já se sabe existir em outra condição – e você procura ávido pelas peças que faltam.

Até que um dia, como resultado inevitável de um pescador paciente e dedicado, você se adona da peça que faltava. Cuidadosa e solenemente a insere. Seu coração bate mais forte. O quebra-cabeça está montado e revela um lindo quadro. Instintivamente, leva a mão ao rosto, precisa segurar seu queixo para que ele não caia. Esfrega seus olhos excluindo a possibilidade de estar sonhando ou ter virado sonâmbulo. Se belisca, pula, grita, chora, ri. Tudo ao mesmo tempo. Não existem limites, você esquece as regras de etiqueta, ergue os braços para cima, deixa cair o peso do seu corpo, confia na força dos seus joelhos em lhe suportar inteiro. Perto do chão com o pescoço inclinado, você admira o quadro. Completo, perfeito, tão lindo quanto você sempre soube que ele seria, como você lembrava dele da infância ou de outro tempo que não pode ser definido, seu ponto de origem no infinito.

Do micro para o macro você repara: a peça que faltava naquele quebra-cabeça era – quem diria!? – Você! Até aí tudo bem. Mas, a medida em que você amplia sua captação visual e soma a sua presença aos elementos extra, constata que a paisagem idílica é exatamente o seu momento: O Presente! O quadro escancara a sua realidade alcançada. Mostra em detalhe a forma como dorme e acorda, os arredores da sua casa, a sua rotina, as canecas na cozinha, a presença do amor da sua vida, um sorriso interno e eterno de alegria – o mesmo que lhe ajudou a chegar até o fim do desafio de montar aquele quebra-cabeça apesar do que pensava a sua mãe, uma namorada antiga ou a xereta da vizinha. Pronto: você se descobriu artista no quadro da felicidade divina, a mesma que lhe espera, pacientemente, todo santo dia. No rodapé do quadro, em letras miúdas, dizia: “Concebido desde sempre por você. Agora, Viva!”

**Eu acabei de terminar de descobrir (ou, de começar, nunca se sabe até onde se pode chegar) porque foi que  alguns livros esconderam mensagens atrás de símbolos. Mas não se empolgue tanto assim. O que eu descobri também não pode ser narrado. Só pode ser experimentado.**

Acontece que algumas coisas se perdem quando tentamos explicá-las. Talvez, algumas delas até fujam da nossa mania em decifrá-las, catalogá-las, classificá-las. Seria o caso de nos colocarmos no lugar delas! Não deve ser agradável a sensação de saber-se em constante comparação. Exatamente em função disto, algumas das experiências mais poderosas nem acontecem. É como se antecipadamente elas se auto-descartassem. Devem nos olhar, na sua iminência de acontecer, e desistem, afinal, nós parecemos difíceis de se surpreender.

Até que um dia você é pego desprevenido. Seu cérebro estava ocupado com outro quebra-cabeça qualquer e a situação se formou ao seu redor como uma teia. O conduziu a uma determinada experiência como se fosse uma presa. Uma presa de si mesmo em uma grande teia. A teia é tão grande e de fios tão resistentes que você não consegue fugir mesmo tentando insistentemente. Você corre para todos os lados, mas nunca consegue dar mais do que alguns passos.

Enquanto tenta fugir, você é obrigado a interagir com os fios da teia que restringem seus movimentos. De repente, você se vê surpreso diante da qualidade dos fios, da cor, da força, do entrelaçamento, você começa a se perguntar de onde eles vêm, que tamanho eles têm, quem os fez. Pronto, nem preciso dizer. A teia – dezenas de pontos, amostras grátis de milhares de novas interfaces – já cumpriu sua função; mudou o foco da sua visão.

E assim, sem mais explicações, de um segundo para o outro você passa a se perguntar por que não está lá, na origem daquela teia, daqueles fios lindos que te permeiam?!? Agora a sensação é inversa; você está inquieto tentando com todas as forças sair de onde está. Você tem um lugar aonde quer chegar. Nada pode lhe contentar. Desesperado, você busca o alívio que só o som dos seus passos pode trazer ao seu coração, ao avisá-lo, ao passar o recado de que você está na direção certa, de que está alerta, mantenha-se seguindo as setas.

A teia é muito grande. Quando você acha que desvendou a parte mais interessante dela, surge outra, maior, mais intrigante, mais exigente com sua capacidade de observação, testa duas vezes seus limites de compreensão. Ansioso, de vez em quando você tenta ver mais longe. Sobe na ponta dos pés tentando adivinhar o que vem depois. O que existe no final daquele fio? De que é feito aquele outro fio vizinho? Será que ele é mais fino? Você até se contenta com algumas descobertas como estas, mas não dá pra disfarçar, você ameaça gritar: Da onde vem esta teia que me envolve, que me caça? Quem tece estes fios que conduzem meus dias, que os divide entre tristezas e alegrias? Como saber qual fio seguir até o fim? Será que um foi especialmente feito pra mim?

No calado da noite você fala sozinho. No meio da tarde entra numa igreja escondido. Você preambula aturdido, o bater do seu peito parece mais uma vez um velho martírio. Diante de um semáforo ou de um Deus velho e empoeirado, enfim, você se permite exaurir em desabafo: “Ahh, eu só queria um abrigo, só queria não me sentir tão sozinho”.

Alheio a qualquer coisa que não se passe ao redor do seu umbigo, você seca as lágrimas da tristeza mais corrosiva, respira fundo e confia. Volta pra rua com a cabeça erguida, carregando na carteira a certeza de que será atendido. Sente no coração um inexplicável alívio. Ufa, amanhã é domingo.

É verão, o calor o incomoda e o acorda. Você abre os olhos e de repente sente um frio na barriga como se fosse páscoa ou dia de pescaria. Você ainda está preso na teia, mas naquele dia não lembra disto. Está entretido. É como se dentro de você algo pulasse toda vez que olha parra um fio específico; aquele que deve ser seguido. A teia é grande, o número de fios é infinito como sempre foi desde o início, mas agora quando você olha, vê com a alma. Uma estranha sensação, algo perto do seu coração, um assobio dentro dos seus ouvidos para que você ouça como um grito: “Siga o seu caminho, o fio do seu destino é aquele que lhe arranca o maior número de sorrisos. É importante saber andar sozinho. Não se preocupe, será apenas um período.”


Enter your email address to subscribe to this blog and receive notifications of new posts by email.

Join 673 other followers

December 2010
M T W T F S S
« Nov   Jan »
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031