Nandadornelles's Blog

Archive for November 2010

Há vinte e oito anos um novo ser estava prestes a nascer. Segundo diz a lenda, sua chegada foi muito esperada. Dois jovens haviam se unido em matrimônio, mesmo sem dizer em voz alta, tinha predefinidos objetivos. O ponto comum era atingí-los através de uma linda família. Quis o destino que uma menina fosse a primeira a chegar como símbolo de tudo mais que iria se revelar.

Pela ordem natural, ela deveria chegar junto com o Natal. Mas talvez porque devesse vir sob a regência de sagitário ou talvez porque de qualquer forma não seriam ideais as condições de parto, a jovem mãe foi pega pelo inesperado. Ela ainda não sabia se a bolsa tinha realmente estourado ou então porque o chão estava molhado? Uma característica que marcaria a personalidade daquela menina por toda a vida; uma antecipação a tudo que tem horário marcado ou que está previamente combinado.

Como o ventre da mãe devia ser um lugar muito confortável e quente, o bebê não quis seguir o script e com seus ombrinhos recém formados, se atravessou em seus quadris. Ela não queria sair. Indiferente a toda série de pensamentos que possam ter se estruturado em seu minúsculo cérebro, ela foi retirada às pressas – não sem antes causar sofrimento e preocupação. Seu nascimento trouxe um pouco de tudo que a constituiria enquanto indivíduo. Quando os primeiros parentes e amigos a viram, levaram um susto. Ela era pequena demais. A futura madrinha da pequena menina chorava e rezava: será que ela vai conseguir se criar?

O tal jovem casal que quis Deus fossem seus pais, a amaram demais. Intensificaram todos os cuidados, mas não tiraram o foco do trabalho. Os tempos eram difíceis mas confiavam que seus esforços seriam recompensados. A mãe a projetou jornalista ou advogada, uma mulher independente, realizada profissionalmente. O pai a pensou um ser feliz, alguém que soubesse rir. Um inocente sorriso por hora seria o estímulo. Em função disto, todos corriam para satisfazer as necessidades mais básicas de uma recém nascida, frágil e tranquila. Ela não entendia nada, mas o seu peso aumentava e exatamente como a sua avó, Santinha, profetizara, quando chegou o fim do mês de dezembro a pequenina abriu os olhos que até então se mantinham fechados até mesmo durante a amamentação. Ela se declarava pronta para começar a vive mesmo sem saber.

Nascer é mesmo um coisa esquisita. Como se antes daquele momento nada existisse daquele jeito, de uma determinada forma. É uma ideia errada mas necessária. Pensar em dar vida a algo que até então nem se sabia, faz pensar na condição humana mais divina. Algo tão especialmente intrínseco à nossa experiência terrena, para o qual ninguém recebe treinamento prévio. Instinto e mania de melhoramento. É como se Deus soprasse em nossos ouvidos dizendo:

– Vá, não tenha medo. Você não é perfeito. Admire seu companheiro, admita suas virtudes. Confie que você é apenas uma versão de mim. Melhores dela precisam vir. Como Eu, você é apenas um caminho. Abra mão de suas vaidades. Me empreste seus órgãos de procriação, o principal deles, seu coração. Trabalharemos juntos. Não existirão erros. No amor tudo é perfeito em contínuo melhoramento.

* João e Norma, obrigada pelo desprendimento! Pra dizer o mínimo.*

Como muitos dos aprendizados que vieram com a vida – sim, teimosa, eu só aceitei os que foram construídos com minhas próprias mãos, boas risadas e, claro, muitas lágrimas – volta e meia eu preciso dar o braço a torcer e admitir; meus pais sempre tiveram razão. Mania de filha não dar ouvidos só porque conselhos paternos sempre beiram o ridículo. É que é difícil para os filhos entender o preciosismo com que dois estranhos indivíduos tratam a nossa pequena existência. Mas tão logo a gente começa entender um pouquinho da natureza humana, percebe que não estamos tão longe assim dos perigos e que com quem e por onde andamos diz mais a nosso respeito do que nós mesmos sabemos.

Apesar de admitir que minha mãe sabia o que dizia quando pedia encarecidamente: “Fernanda, por favor, se dê ao respeito, não sente nas calçadas, cruze as pernas se estiver de saia, não dê trela para o Fulano e muito menos saia de carro por aí com estranhos” eu ainda acho que a legenda era pequena e por isto que eu não dava ouvidos e virava as costas fazendo exatamente tudo aquilo. É a velha mania de falar em símbolos que começou quando o primeiro ser humano entendeu mais da vida do que era preciso e diante de um vocabulário limitado e universos minimizados, precisou fazer analogias e usar metáforas para dar uma pequena pista a respeito das complexidades que via. Foi o que fez a bíblia. Ou alguém acredita que o grande mistério esteja em outro lugar senão nas entrelinhas?!

Bom, minha mãe falava em símbolos e isto foi só o início das nossas brigas. Até que um dia… sim, nada mais é impossível, eu me rendo ao valor intrínseco de estar vivo e aprendendo algumas lições, retorno às minhas origens agradecendo a confiança que um dia minha mãe depositou nas mãos da Virgem Maria de que cedo ou tarde – mesmo que fosse muito tarde – eu acordaria.

Agora eu vejo com meus próprios olhos. Depois de passar meses viajando e pernoitando sem problemas em hostels de cidades que não falavam a minha língua tampouco eu as entendia, sou obrigada a passar alguns dias em um simpático albergue na rua Mourato Coelho em São Paulo. A casa club é um sobrado antigo de esquina com uma boa área externa para as típicas confraternizações de estrangeiros, para meu espanto, é grande o número de brasileiros. Na verdade, eu não deveria estar enfrentando dificuldades, afinal consigo me comunicar com a gerência na minha língua natural e ainda interagir com minhas colegas de quarto vindas da Holanda, do Peru e da Inglaterra. O lugar é limpo, organizado, animado. Então, por que eu não me sinto à vontade?

Fazer uma pergunta é antes de tudo se mostrar disposto a incursionar num mundo novo. Eu não acredito em respostas prontas. Acredito na curiosidade em se descobrir maior e na boa vontade em considerar possibilidades com clareza de pensamento e o menor número de julgamentos. Se é assim, então… lá voou eeeuu.

Alguma das primeiras asneiras que rondam a minha cabeça quando começo a querer saber por que eu estou aqui sentada sozinha em uma mesa, expondo um certa frieza ao grupo logo à frente que conversa tão animadamente, é claro, a paranoia de assumir cedo demais a idade avançada da minha alma. Será que eu estou começando a ficar cansada? Colocando amorosamente de lado as minhas nóias sociais, começo a entender o que a minha mãe queria dizer. Da mesa à minha frente eu recebo mensagens nada subliminares a respeito de quem é quem. Como não os conheço, pouco me importa saber deles, quem são, porque estão pagando o mico de se divertir com tão pouco e em seus discursos passando atestado de bobos. Ah minha santa mãezinha, como é mesmo que você dizia? “Fernanda, você precisa aprender a se comportar como uma menina de família.” Eu pensava que era porque só assim ela se orgulharia de mim – e talvez até por isto resisti. A mensagem das entrelinhas: “Fernanda, não desperdice a sua energia”.

No início da nossa busca pessoal é importante, inclusive, estar nos lugares errados… eventualmente, claro. Existe uma meia dúzia de precoces iluminados que não precisam disto. Mas eu estou longe de estar entre eles, e saber quem não sou sempre funcionou como um bom começo. Acontece que o mundo girou e enquanto isto me mostrou quem sou. Saber de si mesmo não é algo que se possa fingir não saber, uma ânsia a respeito de quem e do que lhe agrada que é difícil tirar da cara. As pessoas percebem, se sentem menos prestigiadas. É como se você passasse a interagir numa vibração mais alta. Uma música mais orquestrada. Não comprar a baboseira que a maioria tenta te vender para a seus egos engrandecer é uma afronta grave de que tenta fugir toda a nossa sociedade. Os lucros seriam reduzidos a muito mais da metade se a gente consumisse menos já sem tanto medo de ver a verdade. Somos seres inteiros e lindos não importa se você usa pasta de dente colgate ou sorriso, se você bebe chá ou vinho.

Falando nisto, é imprescindível abordar a importância das tribos. Hoje mesmo, em visita a uma prefeitura no interior de São Paulo o secretario do meio ambiente queria ser meu amigo porque ele era um seguidor do Osho e queria que eu lhe chamasse pelo seu novo nome em sânscrito recebido de um não-sei-quem que esteve um tempo na Índia. Com toda delicadeza de elefante que me foi concebida, eu acabei deixando claro que nós não falávamos a mesma língua. Tá lá na pirâmide de Maslow, segurança é a base do homem, seja enquanto indivíduo ou em sociedade, e a sacanagem é que nossos marqueteiros sabem o que fazem. Encontrar uma tribo, um grupo de pertencimento é tão antigo quando a descoberta do fogo. É uma pena que em alguns aspectos a gente vá tão longe enquanto em outros continuamos tão inteligentes quanto um ogro.

Me dizia o tal secretario: “eu estava tão mal que não conseguia nem mais andar em linha reta. Aí conheci esse pessoal que esteve na Índia, Fulano, sabe? E Beltrano, sabe? Aí um dia tomei um chá, no outro passei quatro horas sendo uma árvore, até que descobri meu centro. Agora me chamo Tupiniquim e vivo feliz”.

Vocês querem saber o dado mais assustador? O tal tupiniquim quando se assustou com seu estado de insanidade diante das modernidades foi buscar auxílio onde? No google! Foi lá que ele ficou sabendo dessa tribo, mergulho de cabeça nas experiências e sem se questionar das consequências anulou o nome recebido em batismo pela família para ser feliz segundo as crenças de um pessoal recém chegado com as novidades de algum outro lado “mais nobre” ou só mais perto da Oceania. Simples assim, quem diria, o homem busca a liberdade e tão logo encontra pistas desta tão sonha possibilidade assume de vez a falta de personalidade. Era exatamente isto que minha mãe tanto temia, era por isto que ela me pedia para se comportar como uma moça de família. Ela só queria que eu assumisse os valores básicos da tribo que me nutria.

Já que é assim e esse lance de pai e filho é só um aspecto da evolução em ciclos, eu quero estar preparada para conseguir me comunicar com os meus muito além de defasados símbolos. Diante de um novo ser na minha tribo, quando ele não souber o que vestir ou para onde ir, vou acessar uma coragem milenar de que ele tenha capacidade para me acompanhar e perguntar: “meu filho querido, quem é você? Assim que você tiver a sua melhor resposta, vá e coloque à prova. No mais, o que há para temer? O máximo que pode acontecer é você descobrir quem é através do que não quer ser”.


Todos os caminhos levam ao mesmo lugar. Quem somos nós para julgar? E, mãe, obrigada por me amar!

 


Enter your email address to subscribe to this blog and receive notifications of new posts by email.

Join 673 other followers

November 2010
M T W T F S S
« Oct   Dec »
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930