Nandadornelles's Blog

Archive for August 2010

Se era esse seu desejo, Deus achou melhor atendë-lo. Suzana vinha de uma longa batalha com a vida. Externamente, ela vivia normalmente. Mas do lado de dentro, fazia muito pouco tempo que ela começava a sentir os benefícios de deixar fluir.

Ela tanto fez que acabou por merecer e diante daquele dia lindo que começava a nascer ela tinha a possibilidade real de um novo estado de merecimento inaugurar. Dessa vez tudo seria diferente. A ansiedade seria regulada com respirações profundas e sincronizadas ao invés de tóxicas baforadas. Quando ela estivesse diante de seu mais novo caminho profissional não se perderia no primeiro masculino olhar. Saber do que já se pode ser mudava a perspectiva de Suzana e lhe curava uma doença antiga. Hoje ela caminhava como quem dizia: “eu sei onde quero chegar e se a sua estrada também vai para lá, fique à vontade para se aproximar. Você pode me apertar a mão e só chegar mais perto do meu peito através de um respeitoso beijo. Por hora, nosso contato ficará limitado à grossa camada de nada que nos une e que nos torna iguais em qualquer parte de um infinito perdido. Você vai sentir, assim como eu, que algo especial nos atrai. Talvez você sinta o meu perfume e eu me deixe seduzir pela tua retidão ou pelo teu cheiro de tesão. Tanto faz o que vai nos ligar em primeiro lugar. Nossa conexão transcenderá humanas condições. Mas até para que isso aconteça, tudo começara com muita leveza. Não vamos sofrer por tudo que ainda vai demorar um tempo até acontecer. Vamos nos amarrar primeiro através de tudo que nos deixa inteiros. Vamos nos completar em niveis muito mais sutis antes do carnal. A gente vai se encontrar bem quando estiver olhando à frente, vendo um futuro humanamente mais decente. Nossa missão é sagrada e por isso mesmo que seremos muito mais agentes facilitadores para o triunfo de dois grandes lutadores do que um desfocante empecilho lírico”.

Assim nos vemos nesse paulistano domingo. Meus olhos já te dizem que serei sua, que um dia em nossa cama acordarei nua. Teu aperto de mão não deixa dúvidas que teus gestos carregam muito de ternura e que você honrará a nossa aventura passando por tudo comigo sem exigir nenhum energético domínio. Ambos saberemos o quanto somos um complemento divino. Tu traduzirá minhas palavras em imagens, meu carinhos te servirão de insipração enquanto nos mantemos atentos aos perigos de acreditar demais numa miragem. Nós construiremos o castelo de onde sairão muitos contos, romances, sabedorias ilustradas com teus traços mágicos. Nós seremos a porta de entrada de nossa própria morada. Seremos sentinelas a guardar o mais precioso tesouro: humano e divino numa poderosa combinação fazendo o equilíbrio através do indivíduo, céu e terra na relação estratosférica de um homem e uma mulher.

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Em diferentes formas de comunicação – escrita, oral, corporal – os parênteses são utilizados. Pare e repare. Na escrita os parênteses estão graficamente presentes, não é possível negá-los ou ignorá-los impunemente. Já na fala e nos gestos, o parênteses é feito de forma mais sutil – a não ser quando nosso interlocutor gesticula suas mãos em forma de ( ) no ar evitando o risco de ser confundido – em geral é mais difícil de perceber o que exige dos envolvidos um maior grau de intimidade. Utilizar um parênteses discretamente demonstra um ato de coragem. É a confiança que exercemos de que a outra pessoa é capaz de nos ler da melhor maneira, de que o que falamos não vai soar como besteira. Não só isso, qualquer coisa implícita (a consequência básica da falta de um parênteses) carega a possibilidade do estreitamento do laço que permeia aquela amizade. O parênteses é a alteração do futuro através da presença consciente do observador, a brecha para um destino intrometido. O elemento que tira os fatos do plano raso e torna tudo relativo girando além de algum umbigo.

Uma comunicação com parênteses não é necessariamente melhor do que uma que não os tenha. Mas é melhor do que poderia ter sido se não os tivesse e isso faz muita diferença. Você não acha incrível tudo o que pode conter um parênteses?! Como é possível que dois muros tão baixinhos escondam e revelem verdades tão complexas como a diferença entre velório ou festa. É como estar em uma viagem por uma estrada plana, paisagem previsível, sem cor ou falta de pudor e ter o coração sobressaltado por uma ladeira ou subida repentina, um índio armado no meio do caminho, um cachorro atropelado e um pobre menino. Você não sabe se freia, se para, se é susto ou felicidade. Você desacelera, mas ainda segue movido pelo que vem à frente, mas ao mensmo tempo fica um pedaço preso imaginando o que está acontecendo naquele ponto em que algo lhe virou do avesso! O parênteses muda tudo do início ao fim trazendo elementos de qualquer gênero óbvios ou novos; o que evidencia a natureza da coisa dita.

Para usar um parenteses positivamente, é preciso estar ciente de que nele tudo existe em “relação à”. É aí que mora a preocupação de quem quer usá-lo com perfeição. O número de combinações que essa condição confere a um símbolo que carrega no colo uma meia dúzia de palavras é inimaginado e multiplicado cada vez que a mensagem ganha maior alcance e tenta ser entendida por um grupo maior e mais mult-indefindo de pessoas. É por isso que não vemos muitos sendo usados nos jornais ou nos disursos políticos. Porque eles precisam que você entenda exatamente como foi dito. O parênteses abre portas para a imaginação, para o auto-questionamento. Pode ser uma fagulha para a construção de um pensamento mais próprio e isto, nós sabemos, é muito perigoso, fere diretamente o orgulho de alguns louros. Os parênteses são vistos em relações amigas, quase íntimas. Os parênteses podem ser encontrados aos montes no nivel intermediário das relações humanas. Não no mais elevado nem no mais distanciado.

O parênteses é o medo disfarçado de coragem e vice versa. É por onde nos trai o personagem mais selvagem que caça de arco e flecha o ser já despido de um terço da sua infinita vaidade. O parênteses é que mostra o que é verdade ou termina de desviar o foco de quem já estava pela metade. Nenhuma frase depois de ser seguida, antecipada ou cortada por um parênteses pode voltar a ser a mesma. Um traço da realidade que nunca mais poderá ficar escondido ou perdido. O parênteses recupera a honrosa presença da essência de um jeiro que ninguém esqueça. Se eu te digo: “Um beijo (na boca)” você poderia por acaso entender: “um gesto de carinho, meu amigo” ou “por favor, case-se comigo”?! A resposta não é nem Sim, nem Não. A resposta é “depende”. Pode ser que sim, pode ser que não dependendo das relações que o parênteses têm Em Relação À tudo mais que contiver na comunicação e no histórico daquela relação. Por isso usa essa ferramenta que está ENTRE (parênteses). Quem já abdica de dizer as mesmas coisas costumeiras mas ainda não se sente segura em dizer o que pensa, então se revela aos poucos para outros enquanto para si mesma.

É claro que a única solução está em uma boa comunicação. Seres limpos dos condicionamentos mais instintivos, aliviados pelo comprometimento básico com a verdade seja no plano dos espíritos ou da afetividade. Mas umas dicas na grade curricular não faria mal algum, né!? Quanto desentendimento poderia ser evitado de gente que recebe mensagem que não foi emitida e coisa que nem estava implícita fica explícita aos olhos do mal compreendedor ou da ação mal pensada de um descuidado emissor?! O aumento da agonia divina e o destino confundido com lívre-arbítrio.

Imagina. Ela tinha 27 anos de idade. O relacionamento já durava mais de anos, tantos quanto o medo dela de não ser o amor da vida dele (porque nós somos assim, tá!) quando finalmente eles decidem morar juntos (não interessa de quem foi a idéia, provavelmente dela). Ela estava eufórica com o sonho realizado de estar em casa (é que as mulheres precisam dessa coisa de marido – já aviso!). Janine seguia com sua vida embalada pela chama do amor acolhedor e carinhoso. Ela acessava a certeza de que tinha ao seu lado um grande companheiro através da memória gostosa de vê-lo chegando com um pote de sorvete hagen-daz de chocolate com chantilly e morangos encaldados em um açucar embebedado em um vinho antigo todo santo mês quando chegava a tpm. Podia parecer tão bobo, mas, para Janine aquilo era o grande símbolo do mais lindo companheirismo. O sorvete que ele trazia a nutria emocionalmente, o chocolate trazia o calor, o chantilly consistência de amor e os morangos a cor da paixão. Aliás, desde que ela tinha conhecido o Felipe, aquele sangrento ritual mensal tinha deixado de ser um suplício para ser uma passagem pelo paraíso. Na cabeça da Janine a mensagem não podia ser mais clara: eu te amo, quero te ver feliz, faço tudo pelo seu sorriso, se depender de mim você vai ser uma rainha com todos os pedidos atendidos etc etc etc. Mas parece que talvez não fosse bem assim.

Felipe era cara muito legal. Para seus recem feitos 27 anos, ele já era um adulto repleto de responsabilidades chatas sendo cumpridas com muita pompa como pagar as contas e encontrar uma mulher para casar, plantar uma árvore, se reproduzir e descansar em paz. Ele tinha um emprego legal, nem tão bom a ponto de fazê-lo feliz nem tão chato ou insuportável a ponto de fazê-lo largar. Ele gostava da Janine e niguém poderia dizer o contrário. Ele não era infiel (ou ao menos não escancaradamente infiel), não tinha vícios promíscuos ou degenerativos, fazia xixi sem molhar a borda, colocava a roupa no cesto e não dormia de meia mas tinha uma meia duzia de manias que às vezes deixavam a Janine puta da cara. Mas ele sabia que ela amava ele e que tudo sempre poderia ser resolvido a final, era mais do que um namoro, era uma grande parceria. Ele achou que o fato de agora morarem juntos mudava tudo como se um grande objetivo tivesse sido atingido e que agora depois de tantos anos construindo ele poderia relaxar. Até que um belo dia…

Janine estava naqueles dias e Felipe estava no supermercado. Ele tinha saído correndo naquela manhã atrasado para o trabalho e lembrava que tinha sentido falta de começar o dia de um jeitinho mais íntimo. Ele pensou em Janine, sorriu de canto com a boca mas inteiro com a alma e relaxou ainda mais. Entregou pro destino os rumos daqueles individúos que ele considerou já estivessem unidos. Ele nem olhou o que foi que ele pegou. Colocou no carrinho um pote de sorvete e foi correndo pra casa ver sua namorada prestes a ficar menstruada.

Janine tinha voltado para casa mais cedo do que de costume. A tpm estava chegando, a dor de cabeça já tinha virado uma enxaqueca. Tudo o que ela queria era algo emocionalmente nutritivo, algo que a ascendesse, um pouco de amor, a insinuação de uma paixão mais ardente. Ela pensou no seu gatinho, seu Felipe lindo que todo mês a fazia tão bem. Ela lembrou de todas as vezes que ele já a tinha feito melhorar só de apontar o pote contendo a solução milagrosa para um estado que há muito tinha deixado de ser fisiológico. Ela chegou a pegar o celular na mão para telefonar, para lembrar o Felipe que ela estava naqueles dias, pra ele comprar os ingredientes do símbolo que os unia. Mas desisitiu. Respirou fundo, aliviada, deixou cair sobre a calça uma barriguinha extra numa exalação de entrega ao conforto de se saber amada. Fechou os olhos para um sintomático excesso de peso e entregou na mão do destino os rumos daqueles individúos que ela também considerou já estivessem pra sempre unidos. Ela não tomou banho ou se penteou, nem se perguntou se ela queria ser vista assim por aquele homem que vinha correndo em sua direção para salvá-la de um surto de depressão. Janine só se jogou no sofá, ligou a tv e começou a roncar.

Quando Felipe chegou ele até se perguntou: quem era aquela pessoa sentada no sofá, displiscentemente jogada no meio da sua sala? Por alguns segundos ele preferiu ter sido invadido por um estranho do que reconhecer sua mulher naquele descuidado ser. Mas, tudo bem, pensou ele. Nós nos amamos, é só uma baixa de auto-estima. Ela já vai ficar melhor assim que eu chegar perto dela, quando ela perceber que pensei nela o dia todo, que a amo. Ela vai se sentir melhor ao receber a certeza que eu sinto de que ficaremos juntos para sempre. O símbolo será este sorvete.

Janine até escutou a porta se abrindo, Felipe entrando. Mas ela fingiu que dormia enquanto o destino se fazia. Ela pensou: ai ai, meu amor Felipe está chegando com o antídoto em seus braços. O amor misturado em um pote congelado. Vou ficar aqui deitadinha, toda manhosinha para ganhar bastante de tudo o que eu tenho direito. Afinal, olha tudo que eu tenho feito e nem beijo de bom dia eu ganho em reconhecimento!

Quando Felipe apareceu nos olhos de Janine ele ainda estava sorrindo, ingenuo acreditando que seu erro seria relevado em função da beleza da intenção (50% da Natureza que está prestes a co-existir com o elemento trazido pelos parenteses; a iminência de um inesperado momento). Janine por alguns segundos duvidou que não estivesse tendo um pesadelo: o que aquilo queria dizer? A sua frente estava Felipe, um cara legal que já tinha sido cogitado ao cargo de seu homem ideal, segurava em sua mão uma ofensa derradeira. Aquilo só podia ser uma brincadeira! Felipe havia trazido do supermercado um poderoso parênteses, a brecha encontrada pelo destino para se fazer ouvido. (os outros 50% da natureza que vai definir tudo).

– Oi, Janine, meu amor…

– Um frutare de abacaxi light?! Faça o favor, chame um taxi! Tudo bem que eu esteja acima do peso, mas abacaxi, A-BA-CA-XI, Felipe?! É isso que eu sou na tua vida? Eu não passo de um abacaxi?!

– Não, eu que não prestei atenção no sabor… eu…

– Ah, Felipe, não precisa vir com desculpas e que lance é esse de não prestar atenção?! Tem coisa mais importante para pensar?! Vai Felipe fala logo que você não me ama mais, que você não me acha mais atraente, que a minha tpm te enche e que ahhh… sniff…. de repente…

E o destino de um homem e de uma mulher foi modificado pelo uso irresponsável do parênteses. O que Felipe carregou desatentamente em seus braços do supermercado até a sala da sua casa e o que Janine deixou crescer entre a calcinha e o umbigo revelando o desleixo dos excessos cometidos. O parêntenses do jovem casal foi uma arma fatal. O golpe final para que cada um olhasse na sua direção e se comunicasse com seu mais invertido eu. Janine mostrou o tamanho do desconforto que ela mesma sentia com suas gordurinhas indevidas e Felipe admitia que não podia mais fingir não ver que tinha sido perdida a adrenalina de viver e que um jovem casal não soube trocar a emoção da paixão pela tranquilidade de quem diz uma verdade sem precisar de parênteses. Um casal como um canal sem ruídos é o próprio acontecer do destino sem a necessidade de ficar mudando de rumo em sua busca ou sua fuga. A falta do parênteses numa relação sugere duas opções: ou as pessoas não estão se comunicando ou já são o próprio comunicado (entendeu o recado?).

Era o último dia de Ana Carolina naquela cidade pra qual ela havia se mudado supostamente a trabalho. Supostamente porque, sim, um convite profissional a fez pensar que era esse o motivo da sua ida. Demorou o tempo certo da permância dela por lá para descobrir que o que a tinha levado a reconstruir a sua vida em um terreno tão incerto era a esperança de viver um grande amor. Marcos já fazia parte da sua vida como amigo e por uma meia dúzia de horas chegou a ser seu futuro marido.

Lá fora, o Sol aquece o ar frio e úmido do inverno. Ana Carolina nem sabe disso. Ela está se arrumando para encaixotar os últimos pertences antes de virar a página mais esperada da sua estória. Pela primeira vez, Ana Carolina, segue na direção de ninguém. Seu movimento agora é calculado pelo propósito de uma existência apaixonada por si mesma e pela contribuição mais marcante de uma experiência terrena mais relevante.

Alguém bate à porta. Só pode ser ele. Ela respira fundo. Um sonho durante a noite já havia revelado a ela o tamanho da sua vulnerabilidade. Ela repete para si mesma os motivos mais nobres que a movem: Amor sublime, conexão de almas, comprometimento com o divino. Ela sabe que ao ceder à tentação do beijo, não vai encontrar tudo isso e mesmo que encontre, sabe que não durará para sempre. Sabe que o fato de ele ainda estar casado faz toda diferença. O ponto crucial que impede os dois amantes de serem um quando por um segundo ele se confundir entre se permitir ou se punir. Não só isso. Ela sabe que Marcos não é hoje seu complemento masculino, que o encaixe, por mais perfeito que pudesse ser, seria ainda fisicamente de dois amigos, dois parceiros de um crime passional, o elo prisioneiro em uma corrente sexual, nada mais.

Ao vê-lo, todo entendimento é posto de lado por uma quantidade de tempo que Ana Carolina não sabe dizer o quanto vai durar ou se ou quando vai finalmente acabar. Um tempo perdido no delírio de tudo o que a impetuosidade poderia levar. O sacrifício dedicado durante meses de contato íntimo à geração de um novo momento ao invés do auto-consumo em um sentimento ilícito. Ela olha pra boca dele como quem olha pra uma fonte de onde se anunciam beijos, palavras de carinho, sussuros e gemidos. O coração bate mais forte. Há quanto tempo mesmo você decidiu não tapar seus buracos com isso?! Ah, e o tempo não sabe ser dito, mas pode ser medido pelo tamanho da carência, pelo tremor do corpo de Ana Carolina diante de uma crise de abstinência.

O beijo dado é logo ao lado, um convite direto ao pecado. As mãos não tocam os peitos como insinua seu desejo mas o calor que iradia dos corpos é suficiente para os fazer ainda mais próximos. Eles trocam temperatura pela epiderme escondida em salvadoras camadas de roupa. A corrente elétrica que percorre as veias seria suficiente para matar um homem ou acordar uma adormecida serpente. Medo e respeito costuram parcelas do mais natural desejo.

A umidade da respiração de ambos tocava carinhosamente a face e os inicitava a se movimentar no ritmo da ofegância característica da união. Durante a noite, em uma secreta anunciação, seu possuidor lhe disse: “Ana Carolina, que delícia a sutileza de beijar teus lábios. Eu nunca segurei algo tão delicado quanto teu corpo nu nessa cama deitado. A tua entrega é maior do que eu sou capaz de receber. Me desculpa, eu precisarei te devolver”.

E em meio a um turbilhão de pensamentos, Ana Carolina busca a sua heroína e se agarra na reveleção essencial do entendimento de todo aquele processo. Um segundo a salva e ela resgata a beleza daquela história. Tudo não passava de uma limpeza de um buraco confuso, do que já havia sido por muito tempo o seu grande furo, seu pecado mais obscuro. Diante de si, Ana Carolina tinha um lindo masculino mas que não podia ser confundido. Marcos era, antes de tudo, um anjo no seu caminho, um grande e eterno amigo. Juntos eles haviam desafiado os padrões mais ancorados. Juntos haviam enfrentado o medo de estar fisicamente sozinhos, espiritualmente sensíveis e amorosamente carentes. Eles jogaram limpo por mais de seis meses. Encararam de frente seus personagens mais cretinos e juntos haviam chegado em um ponto maior de entendimento, construiram um quadro mais abrangente de merecimento. A cada encontro eles haviam transformado energia sexual em realização pessoal e essa era uma vitória que precisava ser honrada. Era fato, Ana Carolina estava indo embora. Não corria para os braços de homem nenhum, nem fugia de um colo perdido ou mal compreendido. Ana Carolina abria a porta para que Marcos confirmasse a beleza de tudo o que havia sido construído sem um único beijo ou saciação de qualquer desejo. Hoje, mesmo sem ceder ao pecado do senso de raridade, sem cair na confusão de um último dia juntos como uma permissão do destino, Marcos seria seu masculino sem exigir que ela fosse seu feminino.

Por que diabos eu te coloquei lá?!
Onde eu estava
No dia (in)feliz
Em que me concedi pra ti?!
Foi o tamanho da minha distração com a tua beleza
Que me impediu de ver
A corrente a que eu mesma me prendia
A algema cor-de-rosa
Com que eu envolvia minha alma
À tua existência
Serena
Era óbvio que seria um problema
Nós eramos nossos opostos
Até nosso rumo
Já estava em partes diferentes do mundo
Por que eu quis tanto assim?
Por que pra Deus eu fui pedir?
Eu dizia repetidamente em um reza constante pra mim mesma
Eu pedia pela exclusividade da tua existência
Enquando te olhava boquiaberta
Ou te abraçava por tras te seguindo fiel
Corajosa, aventureira, ingênua
Na garupa da tua moto barulhenta
Eu ia onde tu fosse
Eu fui pra todos os lugares onde tu era esperado
Nosso casamento
Foi Deus atendendo o meu pedido:
– Por favor, não leva embora esse menino!
Se eu fosse te culpar de algo
Não seria nem pela tua infinita paciência
Ou pela tua velocidade alterada pela percepção
Transpassada pelas realidades antogônicas que formam o homem
Se eu fosse te culpar
Se contratasse um juíz pra te setenciar
Seria por ter cedido ao meu pedido
Por ter se disponibnilizado à realização de um caminho
Difícil
Do início ao fim
Foi tudo meu egoísmo
Que começou pela vontade exacerbada de viver um amor de verdade
E terminou numa questão de necessidade
Eu te deixei saber
Eu pedi pra Deus pessoalmente te dizer
Que sem você eu me negaria
A respirar
A continuar
Que a partir do dia em que aconteceu o nosso olhar
Eu só aceitaria a sua mais ordinária condição
Se fosse através da nossa união
Deus, sempre muito bondoso ou irônico
Reconheceu a verdade contida nas minhas palavras
Nas minhas rimas apaixonadas
E te conduziu
Mesmo contrariado
Para um altar engembrado
Quantos eram os que já podiam ver
Que a vida não se resumia a eu e você?!
Que nem mesmo a língua era única
Que a gente sofria muito por não se entender?!
É claro, como todo pedido
Feito com muito esmero
É cobrado o cumprimento de uma promessa
Ficar contigo trouxe muito de castigo
Eu posso até ter sido a culpada por ter exigido uma guinada do destino
Mas depois
Nossa! Eu também ralei para te oferecer
Fosse lá o que tu queria saber
Ou o que Deus quisesse te mostrar
Eu sofri mesmo foi por não saber rebolar
Agora, mesmo com um oceano em nosso meio,
Nada parece ter mudado
A não ser o fato de que nossas características extremas
Como a pressa ou a falta dela
São cutucadas pela necessidade
De assinar um papel que nos livre de nosso passado
Que limpe os rastros de um movimento errado
Eu jamais seria violenta
A não ser que você não entenda:
– Esse é nosso último ato em conjunto e
Seria decente mostrar que aprendemos algo
Durante o tempo em que vivemos juntos
Que tal eu entrar com a paciência e você com a
Ligereza?

Que delícia ser provocada, alimentada por meus amigos em assuntos tão básicos como o amor. Seja o amor ao ser humano ou o amor aos livros – qualquer coisa que gire um pouco além do nosso umbigo. Obrigada, meus amigos, por acolherem meus pensamentos em seus corações ao mesmo tempo em que me devolvem os efeitos do que somos, fazemos, sentimos ou pensamos. Ah! essa transformação conjunta (SER + OUTRO SER = NOVO SER ) e infinita é meu círculo vicioso preferido. Chega a ser um pleonasmo dizer da Alegria que sinto em estar Viva e compartilhar disso tudo com vocês.
Então, por partes, respondendo aos questionamento sobre uma suposta restriçao que o entendimento traria à paixão e os comentários sobre o papel da matemática…

É claro que eu aqui só posso falar de mim
Tudo o que é meu
E que se aplica a alguém mais do que a mim mesma
Já passa a ser Assunto da Ordem Divina
Assim, o que eu sinto é que o Entendimento seria um antídoto para o veneno
Como se fosse mais ou menos assim:

Nas minhas veias corre um sangue muito vermelho
Vermelho como fogo, como cor que vibra alto e quente
Um sangue que não pergunta nada à minha mente
E ainda por cima
Destrói tudo que enxerga pela frente
Meu sangue vermelho
É intenso e enquanto corre o faz sem pedir por nenhum entendimento
Ele só me possui enquanto turva a visão e elimina qualquer resquício de pensamento
Meu sangue vermelho
É um grande veneno
Me inunda de loucura
Me contrata para papéis idiotas
Papéis ridículos
De mulheres apaixonadas por
Ingênuos meninos
Meu sangue vermelho
É acima de tudo um coração perdido
Que se entrega como espelho
Ao ser despertado com um simples desejo
O desejo bobo de já mostrar ao outro
O seu Deus incrível e destemido
O tamanho do infinito que cada um já é
Principalmente
Se for um ser carinhoso e bondoso expresso no gosto de um sorriso masculino

O entendimento então é a minha fiança
– Que leva minha alma de volta a Terras Santas –
O que vem me resgatar da prisão de
Cismar em querer mostrar ao lindo menino algo que ele ainda nem quer ver
Ele ainda quer só curtir
Quer beijar e se despir
Não tá nem aí para ascenção dos desejos ou união de filosóficos conceitos
Mas, é um erro que eu insisto em cometer
Se não fosse pelo entendimento
– Que só chega depois que o mal já está feito –
Eu viveria para sempre presa a uma mesma corrente
O entendimento é um alívio
Que só chega mais tarde
– quase um minuto antes de ser inútil –
E me salva de pular de um precipício
Atormentada
Pela insuportável dor de cotovelo de ter sido
Rejeitada por mais um menino perdido
O amor-da-minha-vida confundido

No final das contas, o entendimento
É um grande colo amoroso de mãe
Onde deito minha cabeça depois de ter me arrancado todas as penas
Ele afaga meus cabelos de um jeito carinhoso
Que não chega a substituir a pegada mais quente que
Teria um masculino ardente
Mas ele me entende e me convence de que por trás de um “não”
Existe um senão
Eu demoro a acreditar
E mesmo recebendo toda a atenção de um pesamento
Que se constrói enquanto meu coração ainda dói
Eu não resisto e preciso deixar sair a brabeza de não ter sido a eleita
Imagina,
É como se confundir em sua própria beleza
Eu sinto como se eu que não tivesse sido aceita
Quando foi a minha coragem em mostrar o tamanho da sua grandeza
Que foi negada
Que foi no lixo jogada
Talvez a minha audácia é que tenha pego de surpresa o Ser Perfeito
O seu “não” à sua própria perfeição revelava o tamanho do seu apego
Quase um desperdício ao meu desprendimento em refletir o melhor dele mesmo
Na contabilidade; mais um menino que não se sentiu pronto em ser seu próprio Rei
– Ao menos é isso que me diz o santo entendimento
Na tentativa última de me fazer voltar à vida
De me despir das roupas de sabida
E permitir que o sangue vermelho volte a correr
Por outras partes do corpo
Que não por meu coração e os órgão responsáveis pelo
Tesão –

Mas eu concordo, essa coisa das exatas
É uma dádiva mascarada
Eu sempre pensei que alguém
Amuado por ser tão sábio
Havia desenhado triângulos e xs e ys e zs
Na busca ridícula
De ter o que fazer
Até que um dia eu comecei a me sentir um vetor
E tudo mudou de figura
Eu deixei de ser uma massa confusa
Para ser algo bem definido sempre exercendo força
Contra ou a favor de algum outro alguém tão forte
Capaz de me prender, de me fazer refém
Algumas equações matemáticas vem para me explicar onde eu estou
Outras para me mostrar onde quero chegar
Mas as mais bonitas
Chegam para resolver questões existencias
Como
“porque você e eu não podemos ser um só?”
Ou
“E se podemos, porque diabos você prefere ser um outro a partir da união com outra que se limita por não se saber infinita?”
Todo o tempo em que eu e as exatas mantivemos relações ingratas
Foi devido a minha falta de entendimento que não me resgatava, não chegava para me salvar
Da morte precoce de estar apaixonada, de não estar mais ensimesmada
– Quantas mortes teriam sido evitadas de Fernandas apaixonadas, atrapalhadass e avessas a uma numerologia imprecisa –
Agora, finalmente, chegou a matemática, para me salvar de algumas mortes denecessárias
Que chegam embrulhadas, disfarçadas
De homens lindos
De meninos despreparados em se verem
Astralmente já resolvidos
O meu vício em um erro de cálculo para a equação Masculino + Feminino = infinito

Foi o entendimento mais exato de algo
Absolutamente transcendental
Que me permitiu ver a váriável do ser apaixonado como um x
Isolado pelo seu medo de ser traduzido em algo que não em si mesmo
O problema que insiste em não se resolver (como tantos durante meu péssimo desempenho escolar em matemática)
É o x que se nega em ser também outro alguém
X maldito, um egoista cretino
Quer a atenção para si
Muitos sinais de operação
Soma, subtrai, multiplica, divide
Passa de um lado, agora para o outro com o sinal invertido
O x foi o português malandrinho
Que gerenciava a atenção de inocentes meninas
O colonizador
Alcançando seus interesses mais básicos atráves da promessa
De um bonito espelho, a mais cobiçada especiaria
– Veja só a natureza da coincidência, a analogia do tamanho da vaidade se repetindo ciclicamente pela vida –
Nada disso é mentira
Eles vieram e se satisfizeram
Não deram espaço para a formação de um terceiro quadro – apenas o utilizavam para a sua própria promoção –
Eles queriam atenção
Querim os olhos das índias, das nossas mestiças sob seus corpos e a ilusão de sua mundana realização
Eles queriam riso e choro sobre seu torso
Queriam aplausos, olhos encantados
Pela bravura única de terem ali chegado
Pela hombridade de haverem cruzado tantos mares
Como se o feito contivesse mais de sacrifício do que de delírio
E ainda como se o próprio sacrifício fosse em nome do Destino
E não do seu ego ridículo
Ai, Ser Humano, querido
É uma pena tu não te saber tão lindo
Não ser corajoso a ponto de ser teu próprio espelho
O medo infinito nos joga na limitação física da necessidade alheia
O outro de carne e osso nos olha melhor porque carrega o engano da ilusão de ótica em seu olhar torto
O erro que o declara Imperfeito
Coisa que nosso íntimo não pode
E é disso que a gente foge
É o x que insiste em dançar de um lado para o outro da equação matemática
Se fantasia de y, de z, de sinal de =
É tudo o que não quer ser traduzido
Que se nega a se descobrir infinito através
Da semelhança ao invés da diferença
Se o x ou o português admitir a beleza em si mesmo e se curvar diante do outro
Seja qual for o seu nome
A ilusão da separação acaba e com ela a glória dos seus feitos mundanos
A inutilidade de uma matemática desnecessária
Por não falar do ser, não traduzir a verdade
X = infinito
Entendimento é y = início ou recomeço, conforme sugerir melhor o contexto

Associações supersticiosas a parte, a combinação de forças se mostrou poderosa nessa parte do mundo.
A Flip ensaia o seu fim trazendo consigo muitos novos inícios. O início da leitura de um bom livro, a construção de narrativas mais humanamente interativas. Me oriento na direção do último momento desse encontro maravilhoso entre escritores, personagens e leitores. Foi divino! Minha alma foi sabiamente preenchida tanto quando sonhos de um novo mundo foram alimentados pela certeza trazida com a experiência de já estarmos nele. Vê quem quer, quem concorda, quem se abre pra possibilidade da chegada do início do fim do tempo das sombras. Sombras construídas por nós a medida em que gastamos mais tempo erguendo prédios e qualquer outra coisa mais concreta ao invés de sentir a sutileza de tudo o que sempre nos uniu desde o início do início.

Dia 07 de agosto, foi dito, seria um dia importante dentro de todo um contexto de realinhamento. Se engana quem espera que isso aconteça em algum lugar que não dentro de nós. Os resultados da mudança sé poderão ser visíveis a medida em que acreditarmos no poder de sintomas intangíves. Quem de nós já está pronto para acreditar em um olhar transformadoramente mais sutil?

Prometo, muito em breve, postar aqui mais detalhes sobre os autores e os pontos mais tocantes de um Feira que se soma aos esforços de criar uma realidade tão agradável quanto a de um romance com final feliz. O que eu vi, experimentei, ouvi foi único no sentido em que um fio muito pessoal de conotações conectou falas e testemunhos de quem há muito tempo está vivendo em realidades paralelas e cumpre seu papel em volta ao mundo da Terra de vez enquanto para compartilhar, para nos contar como é a vida no lado de lá. Lá, no mundo das palavras como uma linda tradução da alma.

… queria também ter lugar na minha mala, e uma conta bancária mais elástica, para levar a cidade toda. Desde seus habitantes simpatissísimos – parecem saídos de um livro – até artigos indígenas, artesanais, cachaças, pimentas, temperos, doces e roupas coloridas feitas a mao e cheia de laços com botao.

Com amor e carinho, muito otimista pela confirmação de um novo tempo que sempre vivemos.

…O início de um ensaio sobre o amor
O retorno de um ser apaixonado
O reencontro com o Universo amoroso…

O erro de cálculo do apaixonado

Erra o cálculo
Quem se arrisca
Quem vê no outro
A sua parte mais
Bonita

Erra o cálculo
Quem não teme
Estar errado
Quem vê no outro
Mais do que o estímulo
Que o deixa
Apaixonado

O cálculo seria
Uma equação
O equivalente no mundo da
Razão
Ao indescritível sentimento da
Paixão

O apaixonado
Está sempre atento
O olhar no coração
Por todo lado
Um rosto Lusitano
Que se põe
À prova de fogo
De despertar o insano
Em terras profanas

Só pode errar o
Cálculo
Aquele que se rende
À experiência
De mesclar duas similares
Vivências
Apesar de qualquer distância
Oceânica
que insista em amarar
As tramas

Que seja português,
Árabe ou
Holândes
O erro de cálculo
Do apaixonado
É o preço do pecado
Por não se contentar
Com a versão do amor
Resumida em si mesmo
Enquanto se despede
Da possibilidade de um
Beijo
Despertado pelo mais brasileiro
Desejo

O erro de cálculo
Se traduz também
Na falta de
Tato
De se declarar
Apaixonado
Um resquício do medo
De que o sentimento
Possa vir a ser confiscado –
A prova do cálculo fracassado

O erro mais cometido
– Quase um vício
Preferido
Do melhor destino –
É o ponto final
Em um dia
Banal
O desvio visceral de
Estar apaixonado
Mesmo quando tudo mais
Parece estar errado

Então só pode;
Estar apaixonado
É um grande erro
Matemático

Paraty, 2010
Em louvor por um coração
Tão humano quanto seu dono!


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