Nandadornelles's Blog

O preço de tudo o que não é vivido. A importância de um amigo.

Posted on: July 20, 2010

Dia desses eu sonhei que entrava em um mercadinho. Aqueles bem pequeninhos que quem atende é a filha, quem trabalha na cozinha é a mãe, quem carrega e descarrega a mercadoria é o primo e o pai está sempre presente chamando os clientes pelo nome, lembrando a freguesa de levar isso ou aquilo conforme ele sabe dos produtos preferidos de cada um como fosse seu melhor amigo.

Eu estava de passagem por uma certa comunidade. Não pertencia àquele grupo, não conhecia seus costumes, não dispunha de nenhum luxo por ser filha do prefeito ou coisa do tipo. Eu apenas queria alguma coisa para matar a minha fome. Entrei e não encontrei o que procurava. Pedi ajuda para a filha do dono e confiei na solução que ela me ofereceu. Depois de pagar descobri que havia sido enganada. Que havia pago muito mais do que valia a coisa adquirida e que estava longe de ser o que eu queria.

Quando eu acordei é que me dei conta que o sonho tinha bases na realidade. Como por exemplo, uma série de associações que foram se formando no meu cérebro a medida em que eu viajava pela Índia e sofria pelo costume cortês daquele povo de enganar turistas para sobreviver, a sensação de ser enganada era uma lembrança clara e de uma hora pra outra o dono do estabelecimento se transformou em um indiano típico.

Completamente cega pela minha indignação, pelo cansaço de sofrer um abuso desnecessário, eu corri na direção daquele homem destratando quem quer que fosse que atravessasse meu caminho, inclusive a filha do salafrário, uma doce menina. Quando cheguei diante do homem que assinava embaixo daquela baixaria, eu não escondi o tamanho da minha ira.

Muito brava, indignada, eu cheguei gritando, desabafando. Já era um absurdo que aquilo acontecesse na Índia, eu não podia aceitar que ele trouxesse um item tão sujo da sua cultura e piorasse ainda mais a minha nação que já não era exatamente um exemplo de honestidade e longe da perfeição.

Ele apareceu diante de mim sentado como um rei protegido por seu próprio império, o benefício de tudo que havia sido conquistado e construído por ele ao longo dos anos. Ele até me escutou apesar de fazer pouco caso da minha situação e desconsiderar toda a emoção. Foi quando eu me deparei com o tamanho do meu medo em relação ao desrespeito e a falta de controle em gerenciar tudo mais que era efeito de sair perdendo.

Gritando e chorando eu falei tudo o que queria como se aquela compra valesse a minha vida. Até pela indiferença com que ele (não) reagia à minha fúria, aos meus argumentos em prol da justiça e de uma divina harmonia, eu não consegui esconder a raiva que eu sentia, que corria em minhas veias. Em um segundo maluco eu achei injusto pagar sozinha pelo preço de um sentimento tão forte e com a mão direita busquei o braço daquele homem ingrato.

De repente a força que eu fazia para esconder o que sentia percorria meu corpo todo na direção da minha mão que pressionava os músculos flácidos daquele pedaço de braço de um indiano mal-amado. Eu não tinha intenção de machucá-lo, de causar dor ou qualquer dano físico. Eu só queria que ele soubesse o tamanho do esforço que eu estava fazendo para não me agarrar em seus cabelos, para não gritar o que eu pensava sobre ele aos quatro cantos do vento. Eu não achava justo arcar com os prejuízos do desequilíbrio sozinha, afinal eu estava em paz antes de ele tentar me lograr. O meu ato de violência era a minha maneira de dividir o ônus da falta de decência.

Mas aquele homem via o mundo sob um outro ponto de vista e não estava disposto a pagar por nada, muito menos pela falta de bom senso de alguém que não pertencesse a sua família. Sem se deixar contagiar pelas emoções negativas que chispavam do meu olhar e pressionavam seu braço, ele falou:

– Tira as suas mãos de mim. O que você está sentindo é problema seu. Nada nesse mundo te concede o direito de descarregar fisicamente um sentimento ruim. Eu te logrei sim, e nunca disse que não o faria. Se você presumiu que eu seria honesto foi por sua conta e risco e é a única que deve pagar por isto. Solta o meu braço, vira as costas, vai embora e, pro seu próprio bem, não volta nunca mais na minha loja.

***

Não bastasse a revelação a respeito de humanas sensações obtidas enquanto eu era protegida pelo sigilo da noite, eu ainda quis provar do perigo de tudo o que é desconhecido. Dias depois eu me vi numa situação muito parecida, ao menos ao que dizia respeito à agressão física como forma de dividir o peso de controlar energias negativas.

Pra quem ainda acredita na existência independente do bem e do mal, a natureza humana serve com uma prova cabal. Homem nenhum pode ser bom ou ruim na sua raiz. Nós agimos, sim, na direção do que acreditamos ou movidos por qualquer coisa que seja mais forte do que isto. Se acreditamos na paz, precisamos lembrar disto na hora em que o bicho pegar. Não quando os nossos amigos ou inimigos disputam algum primeiro lugar, mas quando o sangue subir fervendo para a nossa própria cabeça. Não é fácil. Eu senti o espaço que separa nossos ideais da prática na pele. Vi que tremia principalmente pelo medo de ser tão pequena diante de um sentimento repentino de impotência.

Mas dentre monstros e bombas capazes de ameaçar a nossa existência, nosso medo maior mora dentro de nós mesmos. A falsa impressão de estarmos sozinhos, de termos sido abandonados ao risco de sermos bem sucedidos na experiência tridimensional torna tudo real em um nível celular do qual sofremos para nos separar. Enquanto sentimos isso ou aquilo, sofremos pelo medo de tudo o que perderemos se formos verdadeiros com nós mesmos. Principalmente o medo de perder o outro que alivia a angústia da condição mais temida de toda uma vida: a solidão infinita.

Dia após dia, de formas diferentes, de maneiras invertidas, vivemos o medo de estarmos sozinhos, de não sermos protegido pela presença amorosa de alguém. Eis a minha maior revelação e que precisava da vida real, da experiência corporal para finalizar o entendimento que começou no calado da noite:  pagamos o preço por tudo o que não tivemos, principalmente pelo amor que não recebemos. Diante do medo de não sermos aceitos, para curar a ferida da inocência perdida só uma solução é possível, há um único remédio de poder incrível mas que não pode ser comprado ou vendido. Só o que pode nos salvar do abismo que nos separa do nosso eu divino é um amoroso abraço de amigo.

Depois do sonho com o indiano e o pesadelo de ver passar emoções e pensamentos por minha pele e ossos na direção de um desavisado outro, depois de me descontrolar e perder a cabeça, ver escorrer a minha paz quando não me senti mais capaz de me saber lá, depois de me deparar com o buraco de um amparo nunca encontrado, eu tive que me buscar nas minhas crenças para que pudesse continuar. E o que eu encontrei por lá foi a certeza da existência da única arma capaz de transformar sem danificar. Eu vi de perto o poder do abraço que acolhe a dor do outro, que a remove por seu amor, pelo desejo puro de que o ser humano alcance sossego dentro de si mesmo à medida em que supera os seus próprios medos e é verdadeiro manifestando seus sentimentos eliminando qualquer traço de vaidade ou julgamento.

O que acontece depois da manifestação de algo tão nocivo quanto a raiva ou o medo é a leveza de uma alma que volta a enxergar a sua beleza. O que nos corrói não é o sentimento em si mas o terror de sermos condenados ao inferno por termos sentido isso ou aquilo em primeiro lugar. Nós temos medo é de nos libertar de tudo o que não é perfeito e sermos julgados pelo lixo que deixamos sair ao invés do templo que mantemos puro e dentro de nós. É pelo medo de parecermos loucos, descontrolados, ciumentos, possessivos ou raivosos que vivemos impuros, carregando um monte de entulhos. Insistimos em seguir no escuro. É o lixo da falta de consciência que atrapalha a nossa visão e nos impede de vermos a beleza que já somos mesmo sob influência de uma emoção. Nós nos excluímos do paraíso toda vez que assumimos um compromisso social, um personagem que precisa cumprir um determinado papel. É só numa análise muito banal que a discussão ainda persiste em torno do bem e do mal. As vivências mais profundas trazem lições que ultrapassam mundanas convenções.

*Em agradecimento à minha família terrena. Por toda compreensão, pela carinhosa presença.*

Advertisements

1 Response to "O preço de tudo o que não é vivido. A importância de um amigo."

Escreve sobre a flip, vai. Fico aqui só te imaginando andando pra cima e pra baixo naquelas ruazinhas de paralelepípedo e tentando decidir qual é a melhor programação do dia para seguir.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

Enter your email address to subscribe to this blog and receive notifications of new posts by email.

Join 673 other followers

July 2010
M T W T F S S
« Jun   Aug »
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031  
Advertisements
%d bloggers like this: