Nandadornelles's Blog

Do momento da libertação – Ou, o encontro com o advogado e o Diabo

Posted on: July 16, 2010

Seria até difícil voltar no tempo para narrar ou analisar seus distúrbios existenciais. Sílvia era uma típica mulher moderna; 30 anos, bonita, bem sucedida. Ao longo dos anos tinha tido uma vida sexual muito ativa e, acompanhando a onda dos relacionamentos superficiais, contabilizava um número maior de parceiros do que de homens com quem tivera profundos envolvimentos. O casamento tinha chegado em sua vida exatamente quando ela começou a buscar seu verdadeiro eu e terminou quando ela descobriu o tamanho do buraco em que ela tinha se enfiado.

Ela e o ex-marido agora eram bons amigos e para celebrar esta conquista se hospedaram em um complexo turístico no litoral brasileiro para passar uns dias juntos. Se aquilo tinha algum objetivo específico em relação ao crescimento dele, ela nem poderia saber. O que era pra ser lazer se transformou em confirmação de um novo modo de viver para Sílvia, uma ex-maníaca autodestrutiva.

Eles chegaram felizes e se instalaram com tranqüilidade. Sem representar perigo ou ameaça eles dormiam no mesmo quarto, afinal, foram anos de casados e muitos deles regados à intimidade amigável que preenche o espaço deixado pela falta do sexo. Eles desfizeram as malas e saíram cada um para um lado na direção dos seus destinos que agora eram legalmente separados. Sílvia suspeitava que o antigo amor da sua vida tinha tomado o rumo da cozinha enquanto ela garantia seu lugar numa esteira ergométrica com vista para o mar.

Depois de um bom tempo caminhando, transpirando o esforço utilizado na elaboração de pensamentos e conceitos a respeito de um mundo astralmente interconectado e de uma experiência terrena que valesse a pena, Sílvia desceu do aparelho repentinamente. Ela estava exausta fisicamente e precisava de um bom banho. Já era tarde para um mergulho no mar escuro que fazia barulho a alguns metros dali. Ela precisou resistir à tentação da adrenalina de nadar nua em uma praia pública. Ao invés disso, Sílvia decidiu tomar um banho e relaxar numa banheira de ofurô.

Era engraçado como a vida de Sílvia se desenrolava confirmando a força dos comportamentos padrão não importava onde ela estivesse. Enquanto ela seguia na direção da sua decisão, já sentia o frio na espinha de tudo o que aconteceria. Ela estava diante de mais um momento com potencial para mudá-la por dentro. Ela podia sentir o efeito prévio de uma revelação interna. Começava a se materializar uma libertação pessoal que ela havia cansado de tanto buscar com as próprias mãos.

Quando ela segurou o trinco da porta de vidro que separava o ofurô da academia, soube que aquele lugar pertencia a um homem. Seu nome era Carlos e tinha uma forma-pensamento que se assemelhava ao famoso ator Robert De Niro. Ele devia ser um dos donos daquele resort porque a sensação que ela tinha batia com as impressões que a esposa dele, uma índia poderosa chamada Vanessa, havia passado ao casal de ex marido e mulher no momento do check in. Vanessa gerenciava o resort e a agenda disputada do marido que também trabalhava como psicoterapeuta em uma clínica holística. Só de ouvir a descrição daquele homem, Sílvia conferiu a ele poder para tocá-la e mudar sua vida de uma vez por todas, agora mais por dentro do que por fora. Talvez até virá-la do avesso oficializando um recomeço.

Mas, entre seguir a sua intuição e desistir dos planos de relaxar em um bom banho, Sílvia seguiu a diante, topando mais uma vez o desafio de uma mente inimiga, os instintos de uma ex-ninfomaníaca. Não fazia muito tempo que ela havia se descoberto bruxa e a percepção aguçada parecia um canal de rádio ligado que emitia informações que ela nem sabia como receber muito menos entender. Ela pisou na banheira e teve certeza de que seria interrompida em seu momento íntimo pelo dono daquele lugar. Sua mente traiçoeira providenciou argumentos para que ela seguisse na direção da armadilha dizendo:

– Não seja boba. Grande coisa. Ele deve até estar acostumado a interagir com os hospedes em situações íntimas como essa e, além do mais, você não está fazendo nada de errado, está apenas tomando um banho e relaxando.

Sílvia admitiu que o argumento era plausível e, abrindo o chuveiro, recebia um conhecido sentimento. Era uma mistura poderosa de medo e expectativa pelo desconhecido que se manifestava em seu corpo físico através de uma incrível excitação. A tríade de um forte pilar do seu comportamento padrão estava prestes a acontecer e suas células estavam em festa porque seriam alimentadas por um turbilhão de emoções.

Ela tentou esquecer que sabia o que estava por vir. Fechou os olhos para se concentrar melhor na água borbulhante que se moldava amorosamente à forma do seu corpo e levava embora porções generosas de calor e suor. Ela sentou na borda da banheira cumprindo um movimento escrito em um roteiro cinematográfico que ela deveria ter previamente concordado. Manteve o torso ereto enquanto mexia em seus longos cabelos seduzindo a si mesma como se tivesse no vento um interessado espelho. Um pouco ela que realmente se excitava com o contato do ar em sua pele, outro tanto era a sua beleza que irradiava, sua luz que só aumentava com a atenção especial que ela concedia a si mesma em uma dança solitária de acasalamento. Carlos entrou de repente como ela sempre soube que aconteceria.

Sílvia viu tudo dentro do mesmo intervalo de tempo. Carlos, um homem sério, o dono daquele lindo espaço chamado Villa Resort, abriu a porta certo de que não invadia nenhuma privacidade como se possuísse porcentagens de qualquer coisa ou pessoa que ali estivesse. Ele olhou na direção de Silvia sem esconder seu interesse e imediatamente tocou seu braço. O toque continha o calor de vontades masculinas  e o imperativo característico de quem sabe dominar com a força de um olhar. Seus dedos tocaram primeiro o braço esquerdo de Sílvia e em seguida deslizaram até o meio de suas costas onde encontraram uma grande área livre e erógena. Silvia viu passar um trailer de todos os outros momentos em que foi desejada e que se deixou controlar pelo fogo que consumia ela e o outro unidos em algo além de indivíduo. Seu corpo lembrou de todas as vezes que se virou e se jogou nos braços de tantos Carlos buscando alívio por uma vida de sacrifícios. Todas as vezes em que correu na direção da ilusão de acabar com a infelicidade através de uma transa inesquecível, um orgasmo nunca sentido. Sílvia admitiu que em todos aqueles momentos só havia se perdido ainda mais de si mesma o que a fez desistir e abrir mão de um tipo tão baixo de sobrevivência. Dessa vez seria diferente desde o início. Ela via além dos fatos e se sentia inteira apesar de tanto tempo solteira.

Ela tinha chegado num ponto tão íntimo de si mesma que nem precisou perder tempo se perguntando qual seria a atitude mais apropriada para administrar aquele momento. Em suas mãos estava a expectativa daquele homem interessante e rampantes de desejo que percorriam seu corpo, mais precisamente entre sua boca, seios e ventre. Mas ela não tinha interesse em preservar nenhum destes itens e rapidamente levantou e empurrou a mão de Carlos para longe. Num só salto ela se afastava de um possível possuidor e de um futuro devastador. Mais do que tudo, ela fugia de uma versão ultrapassada de uma Sílvia velha conhecida e impedia que se alimentasse um padrão autodestrutivo que tinha conduzido grande parte da sua vida até aquele dia. Pela primeira vez, Sílvia não pensava duas vezes antes de se posicionar em sua própria defesa, de lutar por si mesma.

Mas o que parecia a sua tão sonhada libertação era apenas o início da questão. Carlos não era um homem forte por uma mera convenção. Ele era, acima de tudo, um exímio inimigo. Diante de uma mulher valente lutando pela organização de pedaços recolhidos de um feminino perdido, Carlos não mediu esforços para sair por cima mesmo que isso revelasse o tamanho da sua covardia. Depois do abuso por um contato físico não permitido, Sílvia dava de cara com a inversão absurda de um jogo que ela nem sabia que estava participando e precisava se defender da acusação de que tudo aquilo era culpa sua. Ela nem podia acreditar que um homem civilizado, um doutor, um empresário de sucesso tentava se livrar das responsabilidades de um engano profano com o argumento de que havia sido Sílvia quem tinha se oferecido e criado aquele situação provocando Carlos enquanto tomava o seu banho.

Sílvia se sentiu duplamente ofendida, mas ao invés de perder a cabeça, apenas afirmou com veemência:

– Não, eu não estava te seduzindo, aliás, não existe em mim o mínimo interesse por você que eu tenha que decidir entre mostrar ou esconder.

Depois do abuso e da culpa chegava a hora de Sílvia ser punida para que a tríade doentia que a construíra um dia fosse repetida. Tentando encerrar a discussão, Carlos ridicularizou a sua representação de um feminino consciente de sua beleza e transformou seus gestos delicados em movimentos pré-fabricados. Enquanto ele fazia a sua versão de Sílvia em seu momento lindo como se tivesse se resumido a caras e bocas ridículas, Carlos deixou escapar uma pista para que Sílvia entendesse que ele estava jogando sujo e que tudo poderia ser resumido em uma diferença de pontos de vista. Tentando reconstruir o momento em que ela teria deixado claro que esperava ardente por seu desejo inconsequente, Carlos a descreveu:

– Você estava ali sentada com os peitos empinados, a bunda arrebitada segurando o secador de cabelos com uma mão e mexendo neles com a outra.

Só podia mesmo que tudo aquilo era uma grande piada. Sílvia jogou a cabeça pra trás num riso abdominal que jogou uma golfada de ar quente pra fora – talvez até o calor do desejo que morreu antes mesmo de nascer quando aquele homem tocou sua pele. Ela disse feliz:

– Um secador de cabelos? Eu estava segurando um secador de cabelos?

– É ou sei lá o que era. Você mexia no cabelo. Claro que secava o cabelo. Ao menos foi o que me pareceu…

– Como eu poderia estar secando os cabelos enquanto tomava banho?! Te peguei, seu monstro! Vá se foder. Eu nunca quis nada com você. Admita isso! Eu estava aqui relaxando, usufruindo de algo pelo qual estou pagando. Pouco me importa se você é o dono ou caralho a quatro. Enfia esse ego ereto no meio das suas próprias pernas e suma da minha frente!

Carlos não teve nem tempo de levantar a cabeça e sair como um homem de honra. Sílvia pegou as peças de roupa que avistou e passou por ele enquanto saia como um furacão. Chegou no quarto e somente comunicou ao seu ex-marido:

– Estou saindo.

Carregando as malas de qualquer jeito, saiu do resort correndo, pegou um taxi e só parou quando se sentiu segura o suficiente para pensar na sua real necessidade: um lugar para passar a noite tranquilamente. Ela buscou uma pousada simples, um conjunto de casas longe dali e perto do nada. Assim que chegou e se aquietou o silêncio veio a seu encontro trazendo mais uma ponta de intuição, o resquício daquele significativo momento. Ela falou pra si mesma oficializando a descoberta de uma vida inteira:

– Ele ainda vai me procurar, eu sei. Sacio meu desejo com a clareza de pensamento enquanto o demônio insistir em me testar. E você, mente inimiga, nem adianta tentar me enganar que eu não vou te escutar. Finalmente, estou pronta para recomeçar.

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2 Responses to "Do momento da libertação – Ou, o encontro com o advogado e o Diabo"

Ao começar a ler pensei: mas essa Sílvia vai se meter num resort no litoral brasileiro (sexo, sexo, sexo) com o ex marido??!!! Sarna pra se coçar. Que nada! Quem poderia adivinhar o final?
Sílvia 1 X 0 Mental inferior.
Mais um conto surpreendente de Nanda Dornelles.

Que linda! Agora penso de onde será que veio toda essa história. ; )

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