Nandadornelles's Blog

Resquícios de um Domingo

Posted on: July 5, 2010

Eu cheguei em casa não muito tarde, mas a sensação era de que muitos dias haviam sido vividos. Afinal, já era domingo sendo que eu havia partido no sábado de manhã apenas para um almoço na casa de uns amigos. Abrir a porta de uma casa vazia constrastou com a minha alma dividida e multiplicada por um fim de semana agitado, dinamizado pelo movimento de um grupo em crescimento e suas mais lindas particularidades .

A ausência de muitas vozes, risadas, cadeiras que não se arrastavam nem rangiam, um clarinete que não soava desafinado me jogou de volta à minha realidade intimista. Primeiro uma breve trsiteza por estar novamente sozinha tendo as paredes como companhia, em seguida a felicidade por ser a dona da minha rotina. Quando eu permiti aquietar meu coração e deixar vir cada uma das recentes lições.

O ponto inicial havia sido o apego em relação à figura paterna. Como a expectativa de um filho muitoas vezes era incondizente com suas necessidades e como a falta de consciência a respeito da diferença que separa uma coisa da outra interferia na relação pai e filho. Tudo começou com um diálogo entre dois amigos e foi se transforamndo aos poucos em uma reunião de sábios espíritos. Assuntos diversos eram colocados sob uma grande mesa iluminada no centro por uma luz amarela – exatamente a cor do raio da consciência e da misericórdia pela ignorância que só aumentava a medida em que nossas perguntas eram respondidas. Nós eramos apenas dois seres humanos em meio à presença de ilustres mestres que retribuiam o nosso comprometimento com coragem para seguir em frente.

Foi quando alguém compartilhou um exemplo pessoal, um dilema entre abrir mão de um pai em troca de um estranho conhecido.  Pensamos em tantos pais que acabam desempenhando papéis desagradáveis em troca das viviências necessárias que encaminharão seus frutos rumo ao conhecimento de si mesmos. Nós questionamos modelos mais duros, a atitude de pais que pelo sofrimento causado por tantos condicionamentos precisavam do contato brutalizado da repressão para mostrar seu amor. Nós ficamos particularmente felizes quando chegamos à conclusão de que então amor nunca faltou em lar algum. Pelo contrário, durante uma madrugada calada foi celebrado o amor que foi realizado apesar de tudo, todo sofrimento que veio em seu nome e que foi perdido entre personagens desavisados. Tantas brigas que vinham para aproximar pais e filhos numa explosão de mal compreendidas emoções em uma sociedade que prefere a violência a amorosas presenças. Entre sentimentos desmedidos e demonstrações distorcidas, não foi encontrado traço de indiferença o que foi um confortante alívio.

A resposta a todas as perguntas foi a renúncia. Nos foi falado sobre seus testes e os mais variados disfarces assumidos.

O pai que renunciou qualquer conquista pessoal em prol do crescimento do seu filho. O pai que ignora cumprir um contrato acordado em níveis inimaginados e renuncia o direito ao conhecimento reconhecendo também a sua limtação diante de uma realidade que não fala a sua linguagem. Renuncia também e mais uma vez a ascenção pela escada do saber e entra no reino do céu pela boa vontade com que cumpre diariamente seu papel. O homem e a mulher que não olham para o alto em busca de uma missão mais sagrada mas cumprem milhares de tarefas para que seus filhos possam ter uma.

A renúncia que se faz necessária do filho em relação ao pai diante de um senhor que já de antemão é desprovido do poder de curar suas chagas, suas feridas mais amargas. Só é pedido ao filho que honre a sua fonte – a biológica e a espiritual. Que siga caminhando na direção que há tantos anos aquele grupo que lhe abrigou caminha e contribua no fechamento de ciclos que começam e terminam em pontos distribuídos ao longo da linha do infinito.

Outro ser presente no evento mencionou a delicada situação que vivem os amantes diantes de seus desafios. E também pra esta questão a resposta estava na renúncia. Agora uma renúncia mais carnal, mais aflitiva. Abrir mãos de pessoas ou de padrões? Quando termina um e começa o outro? Como gerenciar possibilidades contaminadas pelos distúrbios dos personagens? Somente renunciar a si mesmo poderia ser suficiente?

O amante ideal constrói a partir de uma base limpa, acima de tudo consigo mesmo, e ao trabalhar pra isso renuncia conquistas paralelas de egos inquietos. O parceiro perfeito nunca chega pronto, limpo. Sempre tem algum resquício, algum empecilho até para que o crescimento aconteça em parceria e seja um eterno elo de ligação. E se a relação trouxer um bem maior do que a pura satisfação de indivíduos, ela vai se transformando e superando os desafios e carrega os envolvidos como se fosse um barco que cruza o mundo pelas águas de um rio tranquilo. Alguém questionou especificamente sobre a relatividade do tempo vivido entre homem e mulher. O início mais rápido de um lado e mais demorado de outro. A renúncia caiu mais uma vez como uma luva. Se uma relação a dois requer ajustes constantes a exclusividade tanto de um lado quanto de outro assegura a manutenção dos pontos de referência sem  a interferência de energias desconhecidas. Como se o desequilíbrio de um par morasse sempre em tudo o que é desconhecido e nada mais. A renúncia em alcançar e manter um êxtase por mais tempo do que nos é permitido também nos foi mostrado como um grande desafio. Foi onde eu, especialmente me senti tocada. Lembrei de quando culpei tantos outros e parti rumo a direções opostas certa de que sozinha nada me impediria de achar o caminho da felicidade. Eu já estava nele, eu que não sabia e pela ignorância perdi a companhia. Renunciar à pretensão de se pensar sabida, no fundo, era o que a vida me pedia. Mas até pela presença de tantos mestres ilustres a minha energia não diminuiu pela tristeza naturalmente sentida ao nos darmos conta de que acabamos renunciando à coisa errada – aliás, nos foi pedida atenção a este detalhe que aparecia comumente com uma armadilha. Mas sim, foi convertida em alegria pelo entendimento recebido e pelo oportunidade de estar ali sob orientação divina.

Quando no fim foi feita um brincadeira sobre como aquela reunião havia durado tanto tempo em função dos inúmeros problemas referentes aos amigos e amantes, e os muitos e diferenes níveis de re-contratação com as possibilidades da evolução, um dos mestres lembrou de como aquele encontro tinha começado mencionando um renúncia inevitável a qual todos os seres encarnados são obrigados a passar mais cedo ou mais tarde.

– Como você pode ter tantos problemas!?! – disse um dos participantes ao homem que levantou as questões referente aos amantes.

Ao que ele respondeu:

– É, é que meu pai já morreu.

… com a perspectiva da morte sendo trazida de forma tão fria, muitos sentiram seus problemas diminuídos e agradeceram a possibilidade de renunciar a pequenos personagens simultâneos à paternidade gradativamente enquanto aprendia sobre o amor e o amizade.

* grata aos mestres tanto quanto a amigos e familiares que trabalham unidos mesmo quando distanciados pela saudade.

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