Nandadornelles's Blog

Archive for July 2010

Dia desses eu sonhei que entrava em um mercadinho. Aqueles bem pequeninhos que quem atende é a filha, quem trabalha na cozinha é a mãe, quem carrega e descarrega a mercadoria é o primo e o pai está sempre presente chamando os clientes pelo nome, lembrando a freguesa de levar isso ou aquilo conforme ele sabe dos produtos preferidos de cada um como fosse seu melhor amigo.

Eu estava de passagem por uma certa comunidade. Não pertencia àquele grupo, não conhecia seus costumes, não dispunha de nenhum luxo por ser filha do prefeito ou coisa do tipo. Eu apenas queria alguma coisa para matar a minha fome. Entrei e não encontrei o que procurava. Pedi ajuda para a filha do dono e confiei na solução que ela me ofereceu. Depois de pagar descobri que havia sido enganada. Que havia pago muito mais do que valia a coisa adquirida e que estava longe de ser o que eu queria.

Quando eu acordei é que me dei conta que o sonho tinha bases na realidade. Como por exemplo, uma série de associações que foram se formando no meu cérebro a medida em que eu viajava pela Índia e sofria pelo costume cortês daquele povo de enganar turistas para sobreviver, a sensação de ser enganada era uma lembrança clara e de uma hora pra outra o dono do estabelecimento se transformou em um indiano típico.

Completamente cega pela minha indignação, pelo cansaço de sofrer um abuso desnecessário, eu corri na direção daquele homem destratando quem quer que fosse que atravessasse meu caminho, inclusive a filha do salafrário, uma doce menina. Quando cheguei diante do homem que assinava embaixo daquela baixaria, eu não escondi o tamanho da minha ira.

Muito brava, indignada, eu cheguei gritando, desabafando. Já era um absurdo que aquilo acontecesse na Índia, eu não podia aceitar que ele trouxesse um item tão sujo da sua cultura e piorasse ainda mais a minha nação que já não era exatamente um exemplo de honestidade e longe da perfeição.

Ele apareceu diante de mim sentado como um rei protegido por seu próprio império, o benefício de tudo que havia sido conquistado e construído por ele ao longo dos anos. Ele até me escutou apesar de fazer pouco caso da minha situação e desconsiderar toda a emoção. Foi quando eu me deparei com o tamanho do meu medo em relação ao desrespeito e a falta de controle em gerenciar tudo mais que era efeito de sair perdendo.

Gritando e chorando eu falei tudo o que queria como se aquela compra valesse a minha vida. Até pela indiferença com que ele (não) reagia à minha fúria, aos meus argumentos em prol da justiça e de uma divina harmonia, eu não consegui esconder a raiva que eu sentia, que corria em minhas veias. Em um segundo maluco eu achei injusto pagar sozinha pelo preço de um sentimento tão forte e com a mão direita busquei o braço daquele homem ingrato.

De repente a força que eu fazia para esconder o que sentia percorria meu corpo todo na direção da minha mão que pressionava os músculos flácidos daquele pedaço de braço de um indiano mal-amado. Eu não tinha intenção de machucá-lo, de causar dor ou qualquer dano físico. Eu só queria que ele soubesse o tamanho do esforço que eu estava fazendo para não me agarrar em seus cabelos, para não gritar o que eu pensava sobre ele aos quatro cantos do vento. Eu não achava justo arcar com os prejuízos do desequilíbrio sozinha, afinal eu estava em paz antes de ele tentar me lograr. O meu ato de violência era a minha maneira de dividir o ônus da falta de decência.

Mas aquele homem via o mundo sob um outro ponto de vista e não estava disposto a pagar por nada, muito menos pela falta de bom senso de alguém que não pertencesse a sua família. Sem se deixar contagiar pelas emoções negativas que chispavam do meu olhar e pressionavam seu braço, ele falou:

– Tira as suas mãos de mim. O que você está sentindo é problema seu. Nada nesse mundo te concede o direito de descarregar fisicamente um sentimento ruim. Eu te logrei sim, e nunca disse que não o faria. Se você presumiu que eu seria honesto foi por sua conta e risco e é a única que deve pagar por isto. Solta o meu braço, vira as costas, vai embora e, pro seu próprio bem, não volta nunca mais na minha loja.

***

Não bastasse a revelação a respeito de humanas sensações obtidas enquanto eu era protegida pelo sigilo da noite, eu ainda quis provar do perigo de tudo o que é desconhecido. Dias depois eu me vi numa situação muito parecida, ao menos ao que dizia respeito à agressão física como forma de dividir o peso de controlar energias negativas.

Pra quem ainda acredita na existência independente do bem e do mal, a natureza humana serve com uma prova cabal. Homem nenhum pode ser bom ou ruim na sua raiz. Nós agimos, sim, na direção do que acreditamos ou movidos por qualquer coisa que seja mais forte do que isto. Se acreditamos na paz, precisamos lembrar disto na hora em que o bicho pegar. Não quando os nossos amigos ou inimigos disputam algum primeiro lugar, mas quando o sangue subir fervendo para a nossa própria cabeça. Não é fácil. Eu senti o espaço que separa nossos ideais da prática na pele. Vi que tremia principalmente pelo medo de ser tão pequena diante de um sentimento repentino de impotência.

Mas dentre monstros e bombas capazes de ameaçar a nossa existência, nosso medo maior mora dentro de nós mesmos. A falsa impressão de estarmos sozinhos, de termos sido abandonados ao risco de sermos bem sucedidos na experiência tridimensional torna tudo real em um nível celular do qual sofremos para nos separar. Enquanto sentimos isso ou aquilo, sofremos pelo medo de tudo o que perderemos se formos verdadeiros com nós mesmos. Principalmente o medo de perder o outro que alivia a angústia da condição mais temida de toda uma vida: a solidão infinita.

Dia após dia, de formas diferentes, de maneiras invertidas, vivemos o medo de estarmos sozinhos, de não sermos protegido pela presença amorosa de alguém. Eis a minha maior revelação e que precisava da vida real, da experiência corporal para finalizar o entendimento que começou no calado da noite:  pagamos o preço por tudo o que não tivemos, principalmente pelo amor que não recebemos. Diante do medo de não sermos aceitos, para curar a ferida da inocência perdida só uma solução é possível, há um único remédio de poder incrível mas que não pode ser comprado ou vendido. Só o que pode nos salvar do abismo que nos separa do nosso eu divino é um amoroso abraço de amigo.

Depois do sonho com o indiano e o pesadelo de ver passar emoções e pensamentos por minha pele e ossos na direção de um desavisado outro, depois de me descontrolar e perder a cabeça, ver escorrer a minha paz quando não me senti mais capaz de me saber lá, depois de me deparar com o buraco de um amparo nunca encontrado, eu tive que me buscar nas minhas crenças para que pudesse continuar. E o que eu encontrei por lá foi a certeza da existência da única arma capaz de transformar sem danificar. Eu vi de perto o poder do abraço que acolhe a dor do outro, que a remove por seu amor, pelo desejo puro de que o ser humano alcance sossego dentro de si mesmo à medida em que supera os seus próprios medos e é verdadeiro manifestando seus sentimentos eliminando qualquer traço de vaidade ou julgamento.

O que acontece depois da manifestação de algo tão nocivo quanto a raiva ou o medo é a leveza de uma alma que volta a enxergar a sua beleza. O que nos corrói não é o sentimento em si mas o terror de sermos condenados ao inferno por termos sentido isso ou aquilo em primeiro lugar. Nós temos medo é de nos libertar de tudo o que não é perfeito e sermos julgados pelo lixo que deixamos sair ao invés do templo que mantemos puro e dentro de nós. É pelo medo de parecermos loucos, descontrolados, ciumentos, possessivos ou raivosos que vivemos impuros, carregando um monte de entulhos. Insistimos em seguir no escuro. É o lixo da falta de consciência que atrapalha a nossa visão e nos impede de vermos a beleza que já somos mesmo sob influência de uma emoção. Nós nos excluímos do paraíso toda vez que assumimos um compromisso social, um personagem que precisa cumprir um determinado papel. É só numa análise muito banal que a discussão ainda persiste em torno do bem e do mal. As vivências mais profundas trazem lições que ultrapassam mundanas convenções.

*Em agradecimento à minha família terrena. Por toda compreensão, pela carinhosa presença.*

Seria até difícil voltar no tempo para narrar ou analisar seus distúrbios existenciais. Sílvia era uma típica mulher moderna; 30 anos, bonita, bem sucedida. Ao longo dos anos tinha tido uma vida sexual muito ativa e, acompanhando a onda dos relacionamentos superficiais, contabilizava um número maior de parceiros do que de homens com quem tivera profundos envolvimentos. O casamento tinha chegado em sua vida exatamente quando ela começou a buscar seu verdadeiro eu e terminou quando ela descobriu o tamanho do buraco em que ela tinha se enfiado.

Ela e o ex-marido agora eram bons amigos e para celebrar esta conquista se hospedaram em um complexo turístico no litoral brasileiro para passar uns dias juntos. Se aquilo tinha algum objetivo específico em relação ao crescimento dele, ela nem poderia saber. O que era pra ser lazer se transformou em confirmação de um novo modo de viver para Sílvia, uma ex-maníaca autodestrutiva.

Eles chegaram felizes e se instalaram com tranqüilidade. Sem representar perigo ou ameaça eles dormiam no mesmo quarto, afinal, foram anos de casados e muitos deles regados à intimidade amigável que preenche o espaço deixado pela falta do sexo. Eles desfizeram as malas e saíram cada um para um lado na direção dos seus destinos que agora eram legalmente separados. Sílvia suspeitava que o antigo amor da sua vida tinha tomado o rumo da cozinha enquanto ela garantia seu lugar numa esteira ergométrica com vista para o mar.

Depois de um bom tempo caminhando, transpirando o esforço utilizado na elaboração de pensamentos e conceitos a respeito de um mundo astralmente interconectado e de uma experiência terrena que valesse a pena, Sílvia desceu do aparelho repentinamente. Ela estava exausta fisicamente e precisava de um bom banho. Já era tarde para um mergulho no mar escuro que fazia barulho a alguns metros dali. Ela precisou resistir à tentação da adrenalina de nadar nua em uma praia pública. Ao invés disso, Sílvia decidiu tomar um banho e relaxar numa banheira de ofurô.

Era engraçado como a vida de Sílvia se desenrolava confirmando a força dos comportamentos padrão não importava onde ela estivesse. Enquanto ela seguia na direção da sua decisão, já sentia o frio na espinha de tudo o que aconteceria. Ela estava diante de mais um momento com potencial para mudá-la por dentro. Ela podia sentir o efeito prévio de uma revelação interna. Começava a se materializar uma libertação pessoal que ela havia cansado de tanto buscar com as próprias mãos.

Quando ela segurou o trinco da porta de vidro que separava o ofurô da academia, soube que aquele lugar pertencia a um homem. Seu nome era Carlos e tinha uma forma-pensamento que se assemelhava ao famoso ator Robert De Niro. Ele devia ser um dos donos daquele resort porque a sensação que ela tinha batia com as impressões que a esposa dele, uma índia poderosa chamada Vanessa, havia passado ao casal de ex marido e mulher no momento do check in. Vanessa gerenciava o resort e a agenda disputada do marido que também trabalhava como psicoterapeuta em uma clínica holística. Só de ouvir a descrição daquele homem, Sílvia conferiu a ele poder para tocá-la e mudar sua vida de uma vez por todas, agora mais por dentro do que por fora. Talvez até virá-la do avesso oficializando um recomeço.

Mas, entre seguir a sua intuição e desistir dos planos de relaxar em um bom banho, Sílvia seguiu a diante, topando mais uma vez o desafio de uma mente inimiga, os instintos de uma ex-ninfomaníaca. Não fazia muito tempo que ela havia se descoberto bruxa e a percepção aguçada parecia um canal de rádio ligado que emitia informações que ela nem sabia como receber muito menos entender. Ela pisou na banheira e teve certeza de que seria interrompida em seu momento íntimo pelo dono daquele lugar. Sua mente traiçoeira providenciou argumentos para que ela seguisse na direção da armadilha dizendo:

– Não seja boba. Grande coisa. Ele deve até estar acostumado a interagir com os hospedes em situações íntimas como essa e, além do mais, você não está fazendo nada de errado, está apenas tomando um banho e relaxando.

Sílvia admitiu que o argumento era plausível e, abrindo o chuveiro, recebia um conhecido sentimento. Era uma mistura poderosa de medo e expectativa pelo desconhecido que se manifestava em seu corpo físico através de uma incrível excitação. A tríade de um forte pilar do seu comportamento padrão estava prestes a acontecer e suas células estavam em festa porque seriam alimentadas por um turbilhão de emoções.

Ela tentou esquecer que sabia o que estava por vir. Fechou os olhos para se concentrar melhor na água borbulhante que se moldava amorosamente à forma do seu corpo e levava embora porções generosas de calor e suor. Ela sentou na borda da banheira cumprindo um movimento escrito em um roteiro cinematográfico que ela deveria ter previamente concordado. Manteve o torso ereto enquanto mexia em seus longos cabelos seduzindo a si mesma como se tivesse no vento um interessado espelho. Um pouco ela que realmente se excitava com o contato do ar em sua pele, outro tanto era a sua beleza que irradiava, sua luz que só aumentava com a atenção especial que ela concedia a si mesma em uma dança solitária de acasalamento. Carlos entrou de repente como ela sempre soube que aconteceria.

Sílvia viu tudo dentro do mesmo intervalo de tempo. Carlos, um homem sério, o dono daquele lindo espaço chamado Villa Resort, abriu a porta certo de que não invadia nenhuma privacidade como se possuísse porcentagens de qualquer coisa ou pessoa que ali estivesse. Ele olhou na direção de Silvia sem esconder seu interesse e imediatamente tocou seu braço. O toque continha o calor de vontades masculinas  e o imperativo característico de quem sabe dominar com a força de um olhar. Seus dedos tocaram primeiro o braço esquerdo de Sílvia e em seguida deslizaram até o meio de suas costas onde encontraram uma grande área livre e erógena. Silvia viu passar um trailer de todos os outros momentos em que foi desejada e que se deixou controlar pelo fogo que consumia ela e o outro unidos em algo além de indivíduo. Seu corpo lembrou de todas as vezes que se virou e se jogou nos braços de tantos Carlos buscando alívio por uma vida de sacrifícios. Todas as vezes em que correu na direção da ilusão de acabar com a infelicidade através de uma transa inesquecível, um orgasmo nunca sentido. Sílvia admitiu que em todos aqueles momentos só havia se perdido ainda mais de si mesma o que a fez desistir e abrir mão de um tipo tão baixo de sobrevivência. Dessa vez seria diferente desde o início. Ela via além dos fatos e se sentia inteira apesar de tanto tempo solteira.

Ela tinha chegado num ponto tão íntimo de si mesma que nem precisou perder tempo se perguntando qual seria a atitude mais apropriada para administrar aquele momento. Em suas mãos estava a expectativa daquele homem interessante e rampantes de desejo que percorriam seu corpo, mais precisamente entre sua boca, seios e ventre. Mas ela não tinha interesse em preservar nenhum destes itens e rapidamente levantou e empurrou a mão de Carlos para longe. Num só salto ela se afastava de um possível possuidor e de um futuro devastador. Mais do que tudo, ela fugia de uma versão ultrapassada de uma Sílvia velha conhecida e impedia que se alimentasse um padrão autodestrutivo que tinha conduzido grande parte da sua vida até aquele dia. Pela primeira vez, Sílvia não pensava duas vezes antes de se posicionar em sua própria defesa, de lutar por si mesma.

Mas o que parecia a sua tão sonhada libertação era apenas o início da questão. Carlos não era um homem forte por uma mera convenção. Ele era, acima de tudo, um exímio inimigo. Diante de uma mulher valente lutando pela organização de pedaços recolhidos de um feminino perdido, Carlos não mediu esforços para sair por cima mesmo que isso revelasse o tamanho da sua covardia. Depois do abuso por um contato físico não permitido, Sílvia dava de cara com a inversão absurda de um jogo que ela nem sabia que estava participando e precisava se defender da acusação de que tudo aquilo era culpa sua. Ela nem podia acreditar que um homem civilizado, um doutor, um empresário de sucesso tentava se livrar das responsabilidades de um engano profano com o argumento de que havia sido Sílvia quem tinha se oferecido e criado aquele situação provocando Carlos enquanto tomava o seu banho.

Sílvia se sentiu duplamente ofendida, mas ao invés de perder a cabeça, apenas afirmou com veemência:

– Não, eu não estava te seduzindo, aliás, não existe em mim o mínimo interesse por você que eu tenha que decidir entre mostrar ou esconder.

Depois do abuso e da culpa chegava a hora de Sílvia ser punida para que a tríade doentia que a construíra um dia fosse repetida. Tentando encerrar a discussão, Carlos ridicularizou a sua representação de um feminino consciente de sua beleza e transformou seus gestos delicados em movimentos pré-fabricados. Enquanto ele fazia a sua versão de Sílvia em seu momento lindo como se tivesse se resumido a caras e bocas ridículas, Carlos deixou escapar uma pista para que Sílvia entendesse que ele estava jogando sujo e que tudo poderia ser resumido em uma diferença de pontos de vista. Tentando reconstruir o momento em que ela teria deixado claro que esperava ardente por seu desejo inconsequente, Carlos a descreveu:

– Você estava ali sentada com os peitos empinados, a bunda arrebitada segurando o secador de cabelos com uma mão e mexendo neles com a outra.

Só podia mesmo que tudo aquilo era uma grande piada. Sílvia jogou a cabeça pra trás num riso abdominal que jogou uma golfada de ar quente pra fora – talvez até o calor do desejo que morreu antes mesmo de nascer quando aquele homem tocou sua pele. Ela disse feliz:

– Um secador de cabelos? Eu estava segurando um secador de cabelos?

– É ou sei lá o que era. Você mexia no cabelo. Claro que secava o cabelo. Ao menos foi o que me pareceu…

– Como eu poderia estar secando os cabelos enquanto tomava banho?! Te peguei, seu monstro! Vá se foder. Eu nunca quis nada com você. Admita isso! Eu estava aqui relaxando, usufruindo de algo pelo qual estou pagando. Pouco me importa se você é o dono ou caralho a quatro. Enfia esse ego ereto no meio das suas próprias pernas e suma da minha frente!

Carlos não teve nem tempo de levantar a cabeça e sair como um homem de honra. Sílvia pegou as peças de roupa que avistou e passou por ele enquanto saia como um furacão. Chegou no quarto e somente comunicou ao seu ex-marido:

– Estou saindo.

Carregando as malas de qualquer jeito, saiu do resort correndo, pegou um taxi e só parou quando se sentiu segura o suficiente para pensar na sua real necessidade: um lugar para passar a noite tranquilamente. Ela buscou uma pousada simples, um conjunto de casas longe dali e perto do nada. Assim que chegou e se aquietou o silêncio veio a seu encontro trazendo mais uma ponta de intuição, o resquício daquele significativo momento. Ela falou pra si mesma oficializando a descoberta de uma vida inteira:

– Ele ainda vai me procurar, eu sei. Sacio meu desejo com a clareza de pensamento enquanto o demônio insistir em me testar. E você, mente inimiga, nem adianta tentar me enganar que eu não vou te escutar. Finalmente, estou pronta para recomeçar.

Eu cheguei em casa não muito tarde, mas a sensação era de que muitos dias haviam sido vividos. Afinal, já era domingo sendo que eu havia partido no sábado de manhã apenas para um almoço na casa de uns amigos. Abrir a porta de uma casa vazia constrastou com a minha alma dividida e multiplicada por um fim de semana agitado, dinamizado pelo movimento de um grupo em crescimento e suas mais lindas particularidades .

A ausência de muitas vozes, risadas, cadeiras que não se arrastavam nem rangiam, um clarinete que não soava desafinado me jogou de volta à minha realidade intimista. Primeiro uma breve trsiteza por estar novamente sozinha tendo as paredes como companhia, em seguida a felicidade por ser a dona da minha rotina. Quando eu permiti aquietar meu coração e deixar vir cada uma das recentes lições.

O ponto inicial havia sido o apego em relação à figura paterna. Como a expectativa de um filho muitoas vezes era incondizente com suas necessidades e como a falta de consciência a respeito da diferença que separa uma coisa da outra interferia na relação pai e filho. Tudo começou com um diálogo entre dois amigos e foi se transforamndo aos poucos em uma reunião de sábios espíritos. Assuntos diversos eram colocados sob uma grande mesa iluminada no centro por uma luz amarela – exatamente a cor do raio da consciência e da misericórdia pela ignorância que só aumentava a medida em que nossas perguntas eram respondidas. Nós eramos apenas dois seres humanos em meio à presença de ilustres mestres que retribuiam o nosso comprometimento com coragem para seguir em frente.

Foi quando alguém compartilhou um exemplo pessoal, um dilema entre abrir mão de um pai em troca de um estranho conhecido.  Pensamos em tantos pais que acabam desempenhando papéis desagradáveis em troca das viviências necessárias que encaminharão seus frutos rumo ao conhecimento de si mesmos. Nós questionamos modelos mais duros, a atitude de pais que pelo sofrimento causado por tantos condicionamentos precisavam do contato brutalizado da repressão para mostrar seu amor. Nós ficamos particularmente felizes quando chegamos à conclusão de que então amor nunca faltou em lar algum. Pelo contrário, durante uma madrugada calada foi celebrado o amor que foi realizado apesar de tudo, todo sofrimento que veio em seu nome e que foi perdido entre personagens desavisados. Tantas brigas que vinham para aproximar pais e filhos numa explosão de mal compreendidas emoções em uma sociedade que prefere a violência a amorosas presenças. Entre sentimentos desmedidos e demonstrações distorcidas, não foi encontrado traço de indiferença o que foi um confortante alívio.

A resposta a todas as perguntas foi a renúncia. Nos foi falado sobre seus testes e os mais variados disfarces assumidos.

O pai que renunciou qualquer conquista pessoal em prol do crescimento do seu filho. O pai que ignora cumprir um contrato acordado em níveis inimaginados e renuncia o direito ao conhecimento reconhecendo também a sua limtação diante de uma realidade que não fala a sua linguagem. Renuncia também e mais uma vez a ascenção pela escada do saber e entra no reino do céu pela boa vontade com que cumpre diariamente seu papel. O homem e a mulher que não olham para o alto em busca de uma missão mais sagrada mas cumprem milhares de tarefas para que seus filhos possam ter uma.

A renúncia que se faz necessária do filho em relação ao pai diante de um senhor que já de antemão é desprovido do poder de curar suas chagas, suas feridas mais amargas. Só é pedido ao filho que honre a sua fonte – a biológica e a espiritual. Que siga caminhando na direção que há tantos anos aquele grupo que lhe abrigou caminha e contribua no fechamento de ciclos que começam e terminam em pontos distribuídos ao longo da linha do infinito.

Outro ser presente no evento mencionou a delicada situação que vivem os amantes diantes de seus desafios. E também pra esta questão a resposta estava na renúncia. Agora uma renúncia mais carnal, mais aflitiva. Abrir mãos de pessoas ou de padrões? Quando termina um e começa o outro? Como gerenciar possibilidades contaminadas pelos distúrbios dos personagens? Somente renunciar a si mesmo poderia ser suficiente?

O amante ideal constrói a partir de uma base limpa, acima de tudo consigo mesmo, e ao trabalhar pra isso renuncia conquistas paralelas de egos inquietos. O parceiro perfeito nunca chega pronto, limpo. Sempre tem algum resquício, algum empecilho até para que o crescimento aconteça em parceria e seja um eterno elo de ligação. E se a relação trouxer um bem maior do que a pura satisfação de indivíduos, ela vai se transformando e superando os desafios e carrega os envolvidos como se fosse um barco que cruza o mundo pelas águas de um rio tranquilo. Alguém questionou especificamente sobre a relatividade do tempo vivido entre homem e mulher. O início mais rápido de um lado e mais demorado de outro. A renúncia caiu mais uma vez como uma luva. Se uma relação a dois requer ajustes constantes a exclusividade tanto de um lado quanto de outro assegura a manutenção dos pontos de referência sem  a interferência de energias desconhecidas. Como se o desequilíbrio de um par morasse sempre em tudo o que é desconhecido e nada mais. A renúncia em alcançar e manter um êxtase por mais tempo do que nos é permitido também nos foi mostrado como um grande desafio. Foi onde eu, especialmente me senti tocada. Lembrei de quando culpei tantos outros e parti rumo a direções opostas certa de que sozinha nada me impediria de achar o caminho da felicidade. Eu já estava nele, eu que não sabia e pela ignorância perdi a companhia. Renunciar à pretensão de se pensar sabida, no fundo, era o que a vida me pedia. Mas até pela presença de tantos mestres ilustres a minha energia não diminuiu pela tristeza naturalmente sentida ao nos darmos conta de que acabamos renunciando à coisa errada – aliás, nos foi pedida atenção a este detalhe que aparecia comumente com uma armadilha. Mas sim, foi convertida em alegria pelo entendimento recebido e pelo oportunidade de estar ali sob orientação divina.

Quando no fim foi feita um brincadeira sobre como aquela reunião havia durado tanto tempo em função dos inúmeros problemas referentes aos amigos e amantes, e os muitos e diferenes níveis de re-contratação com as possibilidades da evolução, um dos mestres lembrou de como aquele encontro tinha começado mencionando um renúncia inevitável a qual todos os seres encarnados são obrigados a passar mais cedo ou mais tarde.

– Como você pode ter tantos problemas!?! – disse um dos participantes ao homem que levantou as questões referente aos amantes.

Ao que ele respondeu:

– É, é que meu pai já morreu.

… com a perspectiva da morte sendo trazida de forma tão fria, muitos sentiram seus problemas diminuídos e agradeceram a possibilidade de renunciar a pequenos personagens simultâneos à paternidade gradativamente enquanto aprendia sobre o amor e o amizade.

* grata aos mestres tanto quanto a amigos e familiares que trabalham unidos mesmo quando distanciados pela saudade.


Enter your email address to subscribe to this blog and receive notifications of new posts by email.

Join 673 other followers

July 2010
M T W T F S S
« Jun   Aug »
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031