Nandadornelles's Blog

Archive for May 2010

–          Olá

–          Olá, Dr

–          Como você está?

–          É sempre difícil chegar aqui. Eu sei o que vai acontecer. Pode ser necessário, mas não é agradável.

–          Muito bem, e você sabe o que lhe traz aqui hoje, o que lhe aguarda?

–          Pra começar, uma cama e uma venda, um amigo de sotaque carioca e um inimigo de tom irônico.

–          E com quem você gostaria de falar primeiro?

–          O que entre eles for melhor analisando sonhos.

–          Prossiga

–          Eu era eu. Maria era Maria, João era João, meu pai meu pai e era também João, minha irmã minha irmã. Todos eram exatamente o que carregam consigo em suas auras e em seus traços. O lugar era desconhecido. Algo como apartamentos em docas. A cidade e sua localidade geográfica era deslocada da terra. Como aquelas cidades que se criam entre-mundos, entre muros só para que se viva um sonho ou um pesadelo, para que se aprenda uma lição ou se possa matar a saudade de um amigo ou parente morto em um trágico acidente.

Tudo estava muito bagunçado na minha casa como se fosse apenas uma estadia provisória. Eu recebi uma visita inesperada. A mãe de uma amiga que saía em viagem clandestina para fazer uma aborto ou uma cirurgia plástica em uma cidade vizinha. Me chamou a atenção o quanto ela não tinha condições de fazer aquilo, de sustentar aquele ato, de bancar aquele movimento. Ela procurava por dinheiro. Precisava de quinze centavos. Como era tão pouco, e eu realmente não os tinha à mão naquele momento, sugeri que ela pegasse comigo no seu retorno. Ela ficou nervosa e disse que precisava naquele exato momento pois, de outra forma, toda a sua viagem seria em vão.

O dinheiro não é exatamente isso? A expressão de uma condição interna que nos banca ou não em determinada situacão? Do contrário, a posse ou a falta dele em pessoas tão semelhantes quanto a capacidades profissionais jogaria para o destino e para outras questões mais místicas como karma e dharma,  ou no jargão popular, pura sorte ou azar. Eu via os centavos que faltavam àquela mulher como a certeza que ela não tinha, a completude que não exisitia. A coragem que era abalada na medida em que o momento chegava. Ela tinha de ir porque temia que antes chegasse definitiva a luz que a faria desistir.

Como não podia deixar de ser, por trás daquilo tudo havia um homem. Sempre tem, não é? Um homem a aguardava do lado de fora formalmente vestido, impecável em sua charrete pomposa. Aquele mundo era o que intimidava aquela mulher que corria, que sua alma vendia só para ter uma provinha de mais um tanto do que ela talvez nunca seria. Dinheiro nenhum no mundo poderá comprar o caminho de volta quando ela descobrir que as ilusões existem exatamente para serem perdidas. Não vai demorar até ela começar a culpar aquele homem por não amá-la ou por não dá-la  tudo o que prometeu enquanto fazia amor com aquela que ela sonhava em ser.

Não consigo saber se aquele homem era uma vítima, um cúmplice ou um criminoso. A questão nasce e morre na consciência. O quanto ele sabia do que se passava com aquela mulher. Quanto do seu poder ele podia ver se manifestando através da manipulação dos passos dela enquanto ganhava espaço em seu coração solitário.

Apesar do acordo amoroso selado por ambos, o meio é ardiloso e condena a prosperidade de um sentimento bonito em essência mas corrompido pelo medo presente na experiência. De formas diferentes, homem e mulher se sentiam indignos do sentimento mais lindo. Ele por uma esquizofrenia interna, ela por uma questão estética. Sem saber, eles juntaram a fome com a vontade de comer. Tem mais um detalhe. Eles eram amantes e carregavam consigo a atmosfera pesada de quem não respira em paz. Seus movimentos são calculados enquanto se perdem no imaginário alheio tentado controlar o pensamento de quem os vê. Pobres amantes, nunca estarão só, nem quando as luzes se apagam e em um luxuoso quarto um deita sobre o outro. Ela geme pela dor do que não sente. Ele se alivia ao ver realizada mais uma fantasia que nem era dele. O encontro estava marcado e até aconteceu no horário, mas ambos não chegaram. Eles nunca chegam a tempo. O contato entre eles se dá quando exauridos voltam para suas casas e dentro da proteção do que chamam de lar, num entreato de atenção a suas biológicas famílias, eles voltam até aquele quarto de hotel e sentem o que apenas fingiam quando seus corpos  se movimentavam em seus nomes. O amor que eles dizem viver e sentir é senão a maior lacuna de suas vidas que só aumenta com a culpa e a vergonha que acaba buscando outras pontas para se manifestar. Como a necessidade de com um bisturi alterar o que foi decidio pelo seu eu mais divino; seja um filho indesejado ou uma gordura localizada. Sem mencionar a presunção de com a riqueza poder a tudo transformar.

O dinheiro, assim como a beleza e tudo mais que seja manifestação externa e social de vínculos com a realeza só pode ser consequência de uma sensação interna de satisfação. Por mais que eu tente, não consigo encontrar outra explicação. É a nossa concepção da hierarquia que foi invertida. Tudo nasce primeiro mais sublime e só então, até pelo nossa mundanda atuação, passa para uma mais densa representação. Quer mais denso do que um pedaço de papel que diz quanto vale a sua hora, o seu suor ou restringe a sua função no mundo – no caso dos títulos e dos diplomas. Quer mais denso do que um amontoado de células que morrem a cada trinta dias e que definem se você é ou não bonita? O entendimento da sutileza dos valores passa a ser requisito básico para a manifestação de fenômenos que estão diretamente ligados a nossa evolução.

Aquela mulher teme aquela viagem, a consulta com o médico – e é por isso que lhe faltam os quinze centavos – porque já sabe o que acontecerá depois. A falta de coragem para as modernas atrocidades é uma porta aberta para o caminho da transformação. É uma onda cuja vibração oscila por um melísimo de segundo – sentido e vivido pela mulher como um dilema psicológico quase eterno. Essa onda vibra entre duas outras. Uma que vibra ligeiramente acima dela, outra que vibra abaixo. Naquele segundo de hesitação ela deixa de existir sozinha e, em um nível muito sutil, já amplia a sua consciência, ganha nova dimensão a sua noção de existência. Agora ela habita um mundo novo e sente a iminência de uma interferência. Ela nunca mais poderá ser a mesma. Até pela vibração “mais fina” da onda acima, ela sente o desejo de se descobrir mais bonita, mais leve, mais tranquila. Algo a chama. A sutileza é sempre um convite, é o espaço construído pela ausência de movimentos. Como se um caminho, um trilho se construísse a partir de um número menor de moléculas de ar deslocadas por aquela existência. O segundo da dúvida encerra a possibilidade de seguir a vida como era antes. O poder do auto-questionamento. Nada que se expande pode voltar ao tamanho original sem prejuízo à forma. Agora ela somente pode ser mais ou menos. A utilização da consciência para um salto quântico ou para a limitação das potencialidades. O conformismo e a mediocridade.

Mesmo que aquela mulher não saiba – e ela não sabe, assim como a maioria de nós – mas a sua alma trabalha, e o fará até o fim, ao seu favor. Ela sofre pelo medo do passo que ameaça a dar porque teme não ser capaz de se sustentar no nível que ela é convidada a vibrar. Ela não sabe que não está sozinha e que uma vez que der o passo na direção da luz, da vibração maior, todas as outras camadas de onda, todas as atmosferas iluminadas estarão lá para ajudar. A transmutação através da sutilização das vibrações é um trabalho conjunto do Todo que ninguém sabe explicar. Aceitar o chamado da alma para uma experiência mais delicada, mais elevada não é uma opção, é só uma questão de quando nos daremos essa permissão. Nem o “como” está em nosso poder de atuação, quem dirá se faremos o caminho da luz ou não.

Por isso, no meu sonho, lembro de não ter julgado essa mulher nem mesmo temido por ela. Meu dilema era saber se eu devia ou não correr atrás dos quinze centavos que lhe faltavam. … Mas isso é história pra outra sessão.

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–          Você me parece bastante bem. Vamos ver, quem você é hoje?

–          É sempre difícil responder a essa pergunta.

–          Tudo bem. Vamos tentar de outra forma. Como você tem se sentido?

–          A cada dia eu me sinto menor diante da vida. Sinto como se o centro do Universo se deslocasse para o lugar certo e com isso levasse tudo o que não me serve mais.

–          E o que não te serve mais?

–          Tudo.

–          Tudo?  Estamos falando de que? Amigos, bem materiais, família?

–          Tudo.

–          Então você está sendo deixada? Está ficando sozinha?

–          Estou sozinha por opção… Hoje sou Dana.

Escolhi não aceitar as ciladas disfarçadas de ofertas que bateram a minha porta em busca da minha atenção e dedicação. Pela primeira vez opto por cuidar só de mim através de mim. Escolho todos os dias não ir até o lugar que meus velhos conhecidos ainda frequentam. E mesmo que hoje frequentem outros lugares, ainda assim eu sempre posso escolher reencontrá-los nos velhos lugares, conhecer outras versões deles apenas com nomes e endereços diferentes.

Escolhi estar sozinha até para prestigiar a presença de tanta gente que me segue, que co-habita em mim ha tanto tempo e eu nunca tinha tido tempo pra eles. O mundo psico-social me capturou quando eu era ainda muito pequena e desde então eu venho tentando me desfazer de tudo que ele me impôs. As de mim que ele quis me fazer acreditar que eram reais, que eram eu. Foi nesse tempo que entrei pro teatro. Primeiro eu achei que aquilo fosse a minha vida. Sofri, me realizei, ri e chorei com cada um dos personagens que interpretei. Foi através deles que realizei sonhos secundários, me apropriando da experiência deles e transpondo seus benefícios em minha vida.

Ahhh! Como se fosse possível separar uma coisa da outra, eu sei. Mas bem que eu gostaria que tivesse sido assim. Teriam passado menos anos no final das contas. A minha vida talvez pudesse ter começado mais cedo. Mas e pra quê?I Que diferença iria fazer eu saber quem não sou aos 20 ou aos 30?! Só pelo blazê de ser mais bonita?

Enfim, o tempo passou como tinha de ser e agora estou sozinha como um direito conquistado pelos anos passados. Foi depois de muito caminhar que cheguei à definitiva pergunta: Quem sou eu? Entendi que seria preciso um certo recolhimento para sentir a direção do caminho que leva à melhor resposta.

Afinal, o senhor sabe, eu posso ser muitas. Todos podemos. Mas esse lance de personalidade múltipla abre o leque, é como uma permissão. Como se tivesse sido me dada uma credencial que exclui a punição das minhas mais tempestuosas manifestações. Então, pode parecer que tá tudo bem, mas no fundo eu tenho uma ligação com essas expressões pessoais. Eu posso parecer super descolada em aceitá-las mas não quero pagar o mico de elas serem desqualifcadas. Então, antes de uma ou outra se manifestar, eu me sinto no direito de perguntar: quem é você? Pra que é que você vem?

É claro. Às vezes eu sou pega desprevinida, não vejo ninguém chegar, apenas sirvo de veículo e realizo qualquer que seja o ímpeto. Mas, ainda assim, me sobra uma folga, a distância conquistada pela descrença, o que me faz sofrer um pouco menos. É como se eu mesma fosse a platéia da minha própria peça. Eu só me pergunto o quanto as minhas personagens sabem disso. Será que esse saber interfere na atuação delas? Será que elas se incomodam com o meu aplauso que chega às vezes fora de tempo, antes do fim? O que será que elas esperam de mim?

Enfim, como eu dizia, eu estou sim sozinha, mas poucas vezes me sinto solitária. Quando isso acontece, sempre tenho à mão alguma lembrança, uma sensação fresca de carinho, de calor de irmão, de amigo. Na verdade não tenho receita pronta. Quando bate um medo deixo ele chegar e se mostrar muito antes de se transformar em desespero por algo que já sei não resolve nada. Meu coração se fortalace na medida em que se amplia a minha consciência sobre o tamanho, a intensidade, a diversidade dos sentimentos que ele é capaz de suportar.

Para os momentos mais difíceis, abro a caixinha dos sonhos realizados e viajo por entre tudo o que eles trouxeram. Claro que nem tudo são flores e muitos ainda são as lágrimas de quando se descobriram menores do que eu os pensava. Não é engraçado isso? Os sonhos são todos lindos, mesmo quando pequenos. A gente é que tem mania de grandeza e nunca se contenta. O problema nunca esteve no tamanho ou na cor do sonho, mas na diferença entre como ele é quando a gente acorda e como queria que ele fosse transpondo para os outros uma fantasia que nem mais a gente acredita.

No fim do dia eu tomo uma xícara de chá, inundo a minha curiosidade em saber onde os novos outros de mim estarão. Os meus eus do futuro fazem o quê enquanto não os conheço? Qual será o lugar que eles usam como ponto de encontro. O que será que eles fazem lá? Será que eles já vão assim, na cara dura, pensando em exisitir sem mais nenhuma desculpa? Ou, de repente ainda fingem que só estão lá pra dançar, cantar, se experimentar? O que será que fazem durante o dia? Será que vivem como quem ainda precisa ganhar a vida? Será que convivem e interagem com outros como se eles não fossem apenas uma condição para o descobrimento de si mesmos em uma nova situação? Será que de vez enquando acreditam no que vêem e nas firúlas do cotidiano? Ou será que eles também estariam sozinhos se preparando para com o nosso encontro começar um novo capítulo em nossas vidas?!

Penso naquele ser que também escolheu estar sozinho. Ele me vem à mente como um homem charmoso, cabelos grisalhos, óculos. Mas reconheço que isso também é muito resultado dos meus codicionamentos, dos meus pré-julgamentos É que penso que só é capaz de sentir paz quem já vitimou muitas de suas células travando batalhas internas. Ele olha pro nada. Lê sem pressa, toma seu chá. A desnecessariedade das atividades infrutíferas deixa a gente assim, quieto, tranquilo. Ele está lá, como eu, porque não existe nenhum outro lugar que ele queira estar. Um novo lugar precisa ser inventado, ele sabe, eu sei. Mas construí-lo com nossas próprias mãos seria o mesmo que condená-lo a um fim. Seria impregná-lo das nossas expectativas, contaminá-lo com sonhos que não são nossos, resquícios do que um dia fomos. Por isso, deixamos a vontade desse lugar, e de tudo mais que lá poderia acontecer, chegar, mexer com nossos sentimentos. Uma lágrima cai e molha o casaco, um sorriso acomoda o calor na boca que há tanto tempo não sente outra boca. Tudo chega, se acomoda e parte. Nada nos move. Esperamos um pelo outro sem sair de nós mesmos.

Como pode ver, Dr, meu saber tem se construído à base da eliminação. Posso não saber te responder quem eu sou, mas já sei te dizer muitas das que com toda a certeza não sou. Assim como não sei quem esse homem é, seu nome, seu número de telefone. Muito do que digo que sei é invenção baseada no único fato verdadeiro de que esse homem é aquele que não me busca porque já se encontrou.

A minha vida começa, hoje, sou Nada.

Em função de, eventualmente, irmos tão longe sem saber de nada disso, desmistificar os sintomas do envelhecimento vem junto com o tão necessário crescimento. Trabalho dobrado, eu sei. Então, para quem progrediu se utilizando de diferentes agentes externos – o que seria o mesmo que trapecear no jogo de tabuleiro – um a um terá que se despedir. Coisa de ser humano. Nada disso era preciso. Mas a gente não sabe de outra forma; é só depois depois de tanto sofrimento, de saber de tudo o que não é Deus que nos vemos capazes de entender as suas divinas manifestações. Faz parte do sistema cartesiano de aprendizado, sem uma evidente comparação não pode haver formulação de uma consensual verdade.

E quando pensamos que o jogo estava quase no fim, quando depois de passar por todos os temores, caminharmos para dentro, nos sentirmos inteiros, quase pequenos, dignos das mais ludibriantes experiências de Deus é hora da prova de fogo. Veja bem, o processo de crescimento, a verdadeira transmutação das energias da terceira dimensão nada mais é do que uma grande desculpa para a manifestação divina. Mas isto precisa ser feito única e exclusivamente pela dádiva da alegria. Aí, aquele que se empenhou em se conhecer, mas, mesmo “sem saber”, um pedacinho de ego não eliminou, a realização do seu pontencial comprometeu. Longe de ser coisa rara. Muita gente caminha pelos chakras e diz estar entregue, mas, sabemos, muitas vezes estamos pela metade e da centelha do que pode vir a ser a completa expressão divina, secretamente germina a semente da vaidade.

É por isso que o camimho para a descoberta de Deus parece tão difícil. Os chackras nos carregam por situações-desafios para que humilde e gradualmente possamos nos desfazer de tudo o que nao é puro. É a verdadeira limpeza dos mais absurdos condicionamentos, não-divinos pensamentos. Conhecer o poder divino requer pureza de coração, honestidade de inteção. É uma questão de segurança inter-galática. Imagina se um poder destes cai em mãos erradas.

Você já quis ou precisou de alguma coisa que não sabia exatamente onde estava? Aí você começou a procurar. Foi de cara no lugar onde imaginou que estaria, mas porque não tinha certeza e mais uma dezena de possibilidades gritavam ao seu redor, você nõ procurou direito. Deu uma olhada por cima e, olhando pro lado, já começou a abrir gavetas, portas, sacolas, olhar embaixo de cama, atrás do guarda-roupa. Enfim, você revira a casa toda sabendo a todo momento que aquilo não estará “lá”, em um lugar improvável e surpreendente. O que você procura – e sabe disso durante todo o tempo – está “lá” no lugar intuido, sabido desde o início, seu primeiro tiro.

Para encontrar o que queremos no lugar em que aquilo está, precisamos desse quê de certeza que só vem com a varredura oficial e geral do nosso redor. Enquanto não sabemos que isso ou aquilo não está em nenhum dos outros “lá”, a gente não sente a certeza capaz de nos manter concentrados em um só lugar. O foco e a determinação não são somente frutos da decisão. A melhor parte deles vem após vencido o medo da dúvida, eliminadas as sombras das possibilidas não exploradas.

Funciona com a busca por objetos  ou por razões mais dignas pro nosso ato de viver. O tamanho do nosso comprometimento em encontrarmos o que procuramos não está ligado ao valor daquilo que se procura, mas sim à consciência limpa de que a casa, o quarteirão e coração foram vasculhados, virados de ponta-cabeça e já não roubam mais a nossa atenção. Tranquilo nos mantemos convictos de que é só uma questão de tempo, de ponto de vista ou até de internvenção divina, mas o tal procurado será encontrado.

A certeza vinda da experiência é a fé sem a firula das bênçãos das benzedeiras. Precisa de patuá quem tem preguiça de ir até lá e descobrir por si próprio como é que se faz, qual é o caminho pra determinado isso ou aquilo acontecer, aparecer. Exatamente onde mora o medo de muita gente. Depois da experiência pessoal se perdem os famosos referenciais e tudo que antes seguia o grande consenso social, agora é verdade individual.

E o mais engraçado é que ninguém teme o que você vai encontrar no fim. Nem mesmo é o medo do que você será capaz de fazer depois de encontrar aquilo que diz querer tanto. O que encomoda as pessoas – lembra das ovelhinhas brancas?! – é o transtorno que você causa enquanto procura. É a “desnecessariedade” da bagunça. Quem um dia já não ouviu: “Para quieto, deixa que eu procuro pra você, mas pare de fazer essa bagunça!”Claro, tem gente nesse mundo que se especializou em procurar, e até encontrar, sem bagunçar. Nada de errado com isso. Cada um faça como quiser. Mas será que temos o direito de roubar dos outros a oportunidade da busca só porque ela altera a nossa “sagrada estrutura”?! Seja pelo brinquedo, pela chave do carro ou um tão sonhado abraço. O que importa é o sentimento que nos impulsiona, que nos coloca em movimento em direção a nós mesmos.

Mas a nossa sociedade não funciona assim. Nós somos julgados pelos obejtivos que persiguimos em primeiro ligar. Tanto que chega-se ao cúmulo de pensar que os fins justificam os meios. Aí depois ninguém sabe da onde surgem as doenças. Sempre, inevitavelmente, das duas uma: ou você precisa de uma desculpa para fugir da sua busca – poque já sabe que ela não será aceita pelo seu grupo social –  ou você quer um caminho que a legitime socialmente para não parecer coisa de egoísta, de louco, de bobo. Sim. Experimente sair por aí dizendo que a sua razão de viver é, simplesmente, se descobrir, curtir. A primeira pergunta será: “Como assim?!” Pra evitar todo esse transtorno de explicar coisas que a maioria das pessoas nunca vai entender, é que criamos as doenças. Como eu dizia, ou porque você quer poder explicar pra vizinha o porquê de estar fazendo terapia:  “Faz parte do tratamento do meu câncer na barriga”. Ela até vai se comover e incluir na fofoca o quanto ela admira a força que você tem. O que, no fim das contas não tem nada de mais?! Então tá, você precisou de um codinome para sua busca maior e vai pagar pela sua falta de coragem ao assumir os efeitos colaterais das síndromes da modernidade. Cada um paga na moeda pode. E quem é que irá julgar?!

Inclusive há quem mude de idéia e ao adoeçer manda às favas o comprometimento em se curar. Eu não quero estar aqui nem para olhar. Aí o caminho passa a ser sofrido, nada além da própria pessoa pode ajudar. Mas infelizmente, o pessoal que contrata esse tipo de situação já tá muito longe de uma solução. O que, no final das contas, não vai interferir em nada. Não mudará o quanto somos iguais uns dos outros, o quanto Deus fala com todos nós do mesmo jeito e ao mesmo tempo, como todos vamos para o céu etc etc e tal. Só tem uma coisa. O quê dessa vida eles vão levar?!

Eu imagino que toda essa história de busca seja uma exercício craitivo de investigação pessoal para experimentação das capacidades humanas. Eu fico pensando, se no fim, no dia da nossa passagem desse plano denso para outro mais elevado, se viria São Pedro: “Meu filho, e então, me conta o que foi que você viu?” E a resposta serviria de subsídio para aprimoramento das equipes de apoio do céu aos homens. São Pedro, oficialmente, utilizaria nossas informações para atualizar o sistema de ajuda ao ser humano inexperiente. Imagino Toda Aquela Turma “lá de cima” sentada em roda ouvindo realizada a gente contar histórias sobre como encontramos o Amor nas mais variadas formas.

O preenchimento de encontrar o que se procura é o que justifica toda busca. Busca que deve ser realizada não pela necessidade da completude mas esta enquanto consequência inevitável de nos depararmos com nós mesmos o maior número de vezes possível em cada vida, em toda oportunidade divina.

Faça a bagunça que quiser. Invente um nome ou corra o risco de parecer ridículo. Descubra a sua moeda, a sua habilidade, o seu sonho. Revire o mundo em busca de você.

Parece é baléla, ou ao menos história pra boi dormir. Seria a vida um jogo?! Seria simples assim?

Eu imagino algo assim:  o tabuleiro é o mundo, as peças são os seres humanos e as coloridas e geométricas casas são os nossos chakras. Algo muito semelhante a uma partida de ludo – se jogada com o parceiro ideal – ganha quem chegar. Ninguém está aqui para te testar e, então, te premiar. A vitória está, diretamente, ligada ao valor da sua caminhada. E para nos orientar nisso, a analogia continuaria, contamos com os dados e as dicas de cada casa. A única diferença entre o jogo do tabuleiro e nossas vidas é que, num primeiro momento, tudo parece menos claro, não tão explícito. Uma questão de manter a graça que se perde com tudo que é óbvio demais.

Os dados representam a nossa sorte, o desenrolar dos mais improváveis eventos, estranhos cruzando nosso caminho e formando a mais poderosa teia de probabilidades; externas manifestações de Deus nos guiando para um lado e para o outro. Aquela voz vinda não se sabe de onde, um convite ou a porta que se fecha, diferentes formas para um último empurrão e, uma vez que se está no jogo, é hora de prestar atenção.

Ainda dentro do tabuleiro, aperecem novas questões e seguir as orientações é sempre apenas uma das opções; o exercício do nosso poderoso e exclusivo livre-arbítrio . Cada “casa” contém uma informação, assim como os chakras, nos recebem felizes mas, sem demora, nos oferecem o que é necessário para continuar em movimento, rumo a uma nova casa, ao próximo chakra já que chegar é uma certeza que tal se deixar levar pela correnteza?!

Do auge da perfeição de todas as formas de vida no Universo, a nós, seres humanos, cabe o desenvolvimento e a apreciação de tudo que é Terreno. Estar aqui é ter, previamente, assinado um contrato dizendo “Eu estou disposto a jogar”. É verdade que uns mudam de idéia depois de chegar porque, por mais que do outro lado nos digam e nos informem, – justos como são os Mestres e as Entidades – quando estamos lá em união, em comunhão com a essência não podemos de fato imaginar o que significa viver aqui. Tudo muda muito rapidamente e o que se considerava questões adversas um dia, o bicho homem trata de potencializar e dificultar a sua própria experiência, sabotar a sua própria evolução. É aí que o bicho pega e muita gente muda de idéia.

Então, mesmo sabendo e de acordo, impotentes nos vemos diantes de um jogo sem regras claras e já em andamento. Com exceção das crianças da nova geração, que se dão conta deste fato ainda antes do seu nascimento, a maioria de nós vive cego por anos até o dia em que nossa alma grita de dor diante de uma perda ou na iminência do maior temor e somos obrigados a nos perguntar: o que eu estou fazendo aqui?

Aí, de uma hora para a outra a gente passa a existir. Mesmo que já com 20 e tantos anos, talvez, trinta, quarenta, cinquenta, finalmente você nasce para a verdade da vida e passa a existir. Bingo! Num piscar de olhos é dado o ponta pé inicial para a partida oficial. Às vezes o movimento que nos joga para o início pode ser um tanto traumático, depende de você, da sua sensibilidade; quais os sinais que você aprendeu a ler. Deus, em sua infinita sabedoria, fala exatamente o que você é capaz de entender. E o mais engraçado é que, como é inicio de partida, parece coisa de assombração ou de bruxaria, mas, se você topa o desafio, logo em seguida vai descobrir que tudo o que é dito, a natureza dos acontecimentos partem de você mesmo; do seu próprio Deus-Eu.

Se você, como eu, faz parte de uma geração que acordou mais tarde, sabe que o jogo começa do avesso mesmo. Algo como um estranho sentimento, um desconforto. Nada serve. Tudo parece igual a antes só que agora você não consegue mais normalmente sair para trabalhar e voltar sem a sensação de usar uma roupa apertada, um calo invisível que aperta com o sapato. A mais perfeita das situações perde o sentido. Você pode ter casa, carro, marido. O início do jogo é o desconforto de sentir a re-organização das casas; os chakras se alinhando para a mais perfeita condução pela tarefa do cresimento pessoal.

Boa Sorte!


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