Nandadornelles's Blog

Archive for November 2009

ANYCHA!!!

10 Dias de Silêncio e Meditaçao Vipassana?! Sim, eu também duvidei, e com toda razão. Algumas pessoas são quietas,discretas, silenciosas, cuidadosas. Eu tenho a sutileza de um elefante e gooosto de falar mais do que um papagaio. Céus, quando foi que eu decidi embarcar nessa estória de silêncio, mesmo?!

Bom, 10 Dias de Silêncio e Meditaçao Vipassana têm muito mais de meditaçao do que de silêncio. Aliás, nos dois primeiros dias, eu sentia tanta dor no corpo pelas 11 horas diárias sentada em posição de lótus – sem mencionar a brabeza por ter que ouvir sozinha a minha mente falar pelos cotovelos recitando, incansável, dez mil vezes a mesma ladainha, os mesmo velhos problemas – que o silêncio passou batido. Aliás, eu adoraria um silêncio, se é que fosse possível fechar a minha matraca interna. Eu queria muuuito um silêncio, mas isto esbarrava não só no meu não-silêncio como em um pilar importante que a própria Vipassana ensina que é não querer ou rejeitar nada; simples e pura aceitação. Então, não teve jeito; eu baixei a cabeça e trabalhei duro até o bendito silêncio chegar, se instalar e se romper. Tudo muito naturalmente… ahhh, alívio!!! O resto é estória, senão pra boi dormir, que seja para nos fazer rir.

DA QUEBRA DO SILÊNCIO

Então, como eu ia dizendo, a minha pessoa e silêncio são palavras, idéias, existências, ações – ou no caso, ação e não-ação respectivamente – que não fazem sentido na mesma frase. Eu lembro durante a minha gloriosa trajetória pela Escola de 1° grau São José quando, bimestre a bimestre, ano ano, as notas mudavam, os professores mudavam, a sala mudava, a cor do boletim mudava, os colegas mudavam, o método de ensino mudava, o de avaliação mudava também, até a previsível recuperação em Matemática mudava, só não mudava o comentário da professora na fatídica entrega de boletins: “blá blá blá a Fernanda é muito conversadeira”. Pobre da minha mãe. Eu sou tenstemunha, ela tentou de tudo, pedia por favor, comprava estojo do Paraguai, mochila da Gang, deus-sabe-lá-mais-o-que com a desesperada intenção de me proporcionar um entretenimento um tanto mais individual e, consequentemente, mais silencioso. Ela devia sentir tanta vergonha, pura impotência diante do meu desejo absurdo e incontrolável de compartilhar o que eu penso, o que eu vejo, o que eu sinto. Imagina: testemunhar uma graça e rir sozinha é desperdiçar uma metade tão crucial da graça, algo como deixá-la passar sem a felicidade do riso! Daonde eu tirei a teoria de que felicidade mesmo é aquela que se pode compartilhar e, ato básico para isso; comunicação. Bom, aí, voltamos ao fato inexplicável de que eu não pensei em nada disso antes de me jogar na dita “life changing experience – 10 Dias de Silêncio e Meditaçao Vipassana” onde – eu não tive escolha – experimentei a graça em rir sozinha e, como quem volta de uma experiência de quase-morte valorizando imensamente mais a vida e cheia de estória pra contar; nada me faz calar.

Mas enquanto isso, numa terra distante cercada por montanhas, príncipes indianos e seus castelos…

… Era o sexto dia, a dor física já havia passado e eu já havia resbalado no pretendido silêncio desejando bom dia para uma lagartixa e soltando um “Uhoh!”de admiraçãoo ao ser supreendia por uma cobra gigantesca em seu caminho para algum lugar próximo ao meu dormitório. Ainda assim, o silêncio trouxe espaço para assobiar, pesquisar, remexer e futricar até encontrar dezenas de pequenos problemas não resolvidos; o tempo e o espaço disponível em mim para fechar ciclos, recuperar memórias importantes e dispensar outras nem tanto. Quando, mais uma vez, arregacei as mangas e meti a mão na massa para, só pelo luxo de viver melhor, levar uma vida mais leve, me livrar de mais uns certos cacos véios, meia dúzia de sonhos frustrados, uns medos e umas manias.

Lá vamos nóóóós!! Com toda cara e coragem de quem desconhece o amanhã, me deparo, sem rodeios, com um medo real; o de ser “pêga”. Sim, sabe né, eu fui muito marota. Mas não, assim, daquelas que aprontanta “uma que outra” de vez em quando. Eu exerci a minha marotice desde que comecei a interagir com o mundo. Isso inclui registros de sérias marotices desde a minha passagem pelo jardim da infância até… (bom, ao menos agora as pessoas não ligam mais pra minha casa para exigir explicação dos meus pais). Mas, ao mesmo tempo em que eu podia sair com a marotice mais desnecessária imprevisilvelmente, eu também sempre fui muito pura de coração, o que nunca – mas nunca meeesmo – contou a meu favor durante meus atos marotos. Como uma marota-marinheira de primeira viagem, eu sempre fui pêga, senão com a boca na botija – o que pode, sim, ser levado ao pé da letra, mas é outra estória – ou, então, eu deixaria minhas inconfundíveis marcas que não tardariam a conduzir até o autor da ação; eu, claro, sempre. Como tudo o que acontece repetidamente na vida, acaba que se constrói um padrão e, até hoje, se alguém telefonar numa hora suspeita, bater na porta ou me abordar de uma forma não usual, esperada e ou justificada, eu já vou sentindo um frio na barriga e quase que vou logo dizendo: “não fui eu.”

Até então, eu nem tinha me dado conta do quão real era o meu medo de ser pêga. Mas, de repente, bem no meio do meu nobre silêncio em Vipasana, eu me deparei sentindo frios na barriga toda vez que ouvia passos na direção do meu dormitório. Batata, era só eu ouvir os passos para começar a vasculhar a minha mente em busca do registro dos úlitmos atos. “Ai meu Deus, o que será que eu fiz? 1 – estou vestida decentemente, 2 – não estava desrespeitando o silêncio, 3 – não tenho comida escondida no quarto, 4 – nem celular, 5 – não pulei o portão nem a janela, não beijei o vizinho, não bati na Karin, não briguei com a Juli, escovei os dentes, não grudei meleca na parede, não usei drogas, paguei a conta do celular, não roubei, não matei… Ai meu Deus, será que eu esqueci de alguma coisa?!!!

– Toc Toc.

– Ahhii, siiiimmm, o que é?! (ahhhhhhh Não, céus, o que foi que eu fiz agora??!!!)

– O Discurso já vai começar! vamos!

– Ah, Uuuuufa, sim, claro, já tô indo – ahhh, essa foi por pouco!

E assim, sucessivamente, todos os dias, 3 vezes ao dia. Toca o sino principal e, eu sei, é melhor eu me apressar ou, em breve, passos na direção do meu quarto me tocam a vasculhar os registros da minha memória recente. Não só isso, o segundo aviso para o início do Discurso vem de uma sinetinha que a voluntária carrega na mão blim blim blim… – ai, céus, gente, igual a da Irmã Ivete avisando que é hora de entrar para a sala de aula; – nããão!! buááhhhhhh, eu quero a minha mãããe!!!!!!!! Se eu não me apresso, se eu não estou com o pé na porta, não tem nheco-nheco, não adianta, eu não nasci pra ganhar colher de chá, logo bate na minha porta:

– Algum problema?!

– Ahh, hã, sim, quer dizer, não, já estou indo. Uuufaaa, tá, é só isso…

Então, na manhã do sexto dia, minutos após o almoço, eu deito na minha cama com a forte intenção de desançar por meia hora – a final, quais são as minhas opções?! Não é possível batalhar nem um chiclete quem dirá um chocolate, não rola chá ou café, – e que graça teria, sem ninguém pra trocar uma idéia, bater um papo, comentar sobre a comida ou a paisagem?! Tudo conspira para uma nobre soneca; silêncio, barriga cheia, cansaço de quem acordou de madrugada para o primeiro cilco de meditação. Foi quando, segundos antes de cair no sono, o medo de ser pêga me acorda. Coração bate mais forte: “rápido, memória, registros, ai, céus, hoje, que dia, o que foi que eu, mas hã, será?!” Passos na direção do meu quarto. “Ai meu Deus, e agora, será o SPC, o Ministério da Fazenda – ah, eu sabia, aquela declaração do Imposto de Renda que ficou pendente, ou ah, sim, claro, cééééus, é a Ir. Anita!!!!!!!!!!! Ahhhhhh não pode ser, como ela me achou aqui, na Índia!!!???” Passos, cada vez mais próximos, um … depois o…. outro. “Ai céus, é sim aqui, comigo, vai bater na minha porta, vão chamar meu nome, ai céus, seré que fui eu?!” Passos, mais um, mais outro, agora bem perto da minha janela… mas ahh, porque a pessoa não me chama, não me acusa, não me prende de uma vez, mas acaba com esse sofrimento!?!?! E pronto, rompendo o nobre silêncio, um peido estrondoso acaba com a minha tortura; é a minha vizinha indiana compartilhando os frutos do seu não-tão-silencioso processo digestivo.

Eu não sei nem se eu conhecia a sensação de rir sozinha dessa maneira. Essa Vipassana é mesmo uma técnica muito poderosa. De uma só vez detonou com o meu medo – um tanto descabido a essa altura do campeonato, de ser pêga e punida pelas minhas peripécias – como com a minha idéia de que algo que não se pode compartilhar se vive pela metade. Eu vivi intensamente a graça do peido indiano e entendi o seu recado – alto e claro no meio de tanto silêncio: Deixa de ser boba, sozinha ou acompanhada, larga mão do passado e te caga de rir com o presente!

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