Nandadornelles's Blog

Archive for August 2009

(Ou: A arte de arrumar uma backpack, Ou: Reflexões sobre o exercício do desapêgo)

heavy-load

E eu que já me considerava uma pessoa “leve”!!!  Levante a mão quem tem por hábito aplicar o princípio do primeiro “S” dos 5 da teoria japonesa para eficiência e qualidade?! Seiri ou Sorting ou Senso de Utilização: quando você pára e tira um tempo para se deparar com tudo o que você tem. Sim, tudo!  Olha, há quem ache uma chatice. Eu, particularmente, desde que conheci a idéia na prática lá em – céus, eu tô ficando velha – sei lá quando, 199(?) e alguma coisa. Meu pai era o responsável pela área de Qualidade Total de uma empresa que, atendendo a um dos requisitos na busca pela certificação do PGQP-RS, aplicava o princípio dos 5S’s com excelência (aliás, falando em Qualidade Total, excelência é given). [O método 5S’s nasceu no Japão nas décadas de 50 e 60 como forma de acelerar o processo de re-estruturação industrial no pós-guerra. Não fazendo nenhum milagre isoladamente, mas demonstrando ser, certamente, base importante para todo o Sistema de Qualidade que orientaria o Japão a despontar como potência econônica no início do século XX].  Como um carrapato que não desgruda do pé, lá estava eu agarrada na barra da calça do meu pai o que, felizmente, me permitiu acompanhar um pouco da Teoria na Prática: O “Dia D” do “Programa Sol de Qualidade Total”. Após todo um trabalho de conscientização e informação, aquela empresa e seus colaboradores viveram um dia inteiro dedicado a revirar gavetas e saber, de cabo a rabo, tudo o que existia em todos os setores e departamentos: identificar o que era necessário em todos os diferentes níveis de utilização, catalogar e colocar no lugar certo – o que muitas vezes significava ir para a sala do DESCARTE. Do “descarte” ainda era possível que alguma outra área, setor ou pessoa conscedesse nova vida e utilidade ao que quer que fosse ou, se confirmando a unitilidade do objeto: LIXO. Eu tenho muito viva em mim a lembrança deste dia, o “Dia D” – apesar de não saber bem quando foi, rsrsrs – e, desde lá, venho aplicando quite successsfully, ao menos o primeiro dos S’s japoneses, constantemente em mimnha vida. Ou, assim eu pensava até hoje.

trem

Eu comecei a minha vida “nômade” aos 17 anos, quando saí da casa dos meus pais rumo à capital lutar por um lugar na Universidade Federal e, porque não, um dia, quem sabe, no mundo. Da primeira mundança para o apartamento da minha prima até a minha última casa com o meu marido foram mais ou menos umas 10 mudanças. Não, eu não estou exagerando e pode até ser que o número seja maior, eu é que me perdi, mesmo, nas contas, casas e caminhos. A cada nova casa, ou, a cada semestre – o que chegasse primeiro (muitos risos) – eu começava a sentir uma inquietação, algo como um aperto, um sufocamento, e lá ia eu esvaziar prateleiras e guarda-roupas em busca de tudo o que não se usa mais. Com raríssimas exceções – lideradas por qualquer coisa que me tenha sido dada pela minha queria Mãe – eu dificilmente alimentei apegos. Sabe aquela coisa de “ah, mas essa roupa eu usei na minha primeira Eucaristia”. Não, nada disso. Eu tenho um lado super prático: se uso, ótimo, senão, já vou logo separando e oferecendo a quem possa se interessar. Adoro doar as minhas coisas, dá-las novo e desconhecido dono e destino. Adoro o exercício de olhar para roupas e objetos e, admitindo o quanto eles me fizeram felizes, energeticamente, desejar que eles possam proporcionar tamanha ou, quisá, maior felicidade a outros. Mas, ainda assim, mesmo vivendo constantemente entre mudanças e descartes, eu sempre mantive aquela meia dúzia de portas e gavetas – senão mais tão abarrotadas, mas ainda assim – cheias de coisas.

Certa de que eu havia chegado ao mais próximo possível do total desprendimento ao vir para a Australia com, vamos dizer, uma mala e meia, a vida tratou de mostrar bem rápido que era só o início do capítulo “Desapêgo”. Já na chegada, pude perceber que tinha carregado mais peso do que precisava, como, por exemplo, um secador de cabelos de voltagem incompatível, dois taillers e um scarpã preto – básico, né!?  – salto fino. Como não podia perder o costume, quem disse que eu poderia me contentar em morar em uma só casa durante um ano? Nada disso, um ano e …humm, deixe me ver, três casas diferentes. A cada mudança um 5S’s básico e mais exercício de desprendimento. Eu me acreditava certa, mais uma vez, de que estava vivendo, de fato, somente com o necessário. Acontece que o necessário é sempre relativo, como este último 5S’s veio mostrar. É que chegou a hora de arrumar a minha backpack rumo à India. Para a maioria dos meus amigos e pessoas em geral que me rodeiam nessa linda cidade turística da Austrália, o simples fato de trocar a Gold Coast pelo subcontinente asiático já é um grande ato de desprendimento, isso, ainda, sem a dimensão do que pode significar partir com apenas, APENAS, uma mochila, com capacidade para 75 litros, nas costas… Enquanto eles se perguntam se há vida pós-Australia, eu me pergunto: Haverá 5S’s pós-India?!

vazio

Até hoje, em todos esses momentos em que apliquei os conceitos japoneses para Organização, Seleção e Descarte eu brincava, mais do que tudo, com a possibilidade linda de criar esse Vazio Mágico. A decisão irrevogável de abrir espaço na vida, mesmo que seja começando pelo guarda-roupa, doando aquilo de que não se preciso mais, é a decisão irrevogável de permitir que o novo entre. Mas,  ainda assim, até então, um confortável espaço permanece preenchido com aquele superfulozinho útil –  sabe do que eu tô falando, né?! Bom, para àqueles que já viajaram apenas com uma backpack, eu não preciso nem dizer: não há espaço para nenhum superfulozinho útil. Aliás, só há espaço para o EXTREMAMENTE necessário, ou, para “O” necessário, alguém sabe o que é?! Aí, uns e outros dirão que não deve ser tão difícil assim, afinal, packpackers giram o mundo com suas – tchãrã – backpacks e muito bem, obrigada. Acontece que, no meu caso, eu não parto de um lugar para o qual eu vá voltar. Eu não deixo uma meia dúzia de pertences que, infelizmente, não cabem na mochila, mas, “ah tudo bem”, estarão aqui quando eu voltar. Quando eu vim para a Austrália, me desfiz da minha casa no Brasil, já, para cá eu trouxe “a minha casa”; o essencial do essencial naquela uma mala e meia – ou era o que eu pensava. Agora, o critério de seleção aumentou: não tem casa no Brasil, não tem casa na Austrália. O que couber na backback; ótimo. O que não; paciência e Adeus.

É ai que as reflexões tomam forma, ou, quando as formas trazem as reflexões…  De quanto é que precisamos para viver? Quanto de dinheiro, quantas roupas, quantas quinquilharias que nos lembram do dia do beijo, do dia do passeio, do dia da despedida, da festa, da chegada, da partida, do Fulano, do Beltrano? Quem foi que nos convenceu da necessidade de tantas coisas, tantas formas, tantas cores? Variações de itens de necessidade que acabam por encerrar a necessidade primeira do item e só nos fazem pesar carregando, pra lá e pra cá, tantos supérfulos.

Nas minhas primeiras mudanças era impossível cogitar a minha vida no novo lugar sem… céus, tudo era imprescindível. A cada mudança, caixas e caixas transportavam a minha possibilidade de existir. Como se o que havia dentro de mim não fosse suficiente para me deslocar entre uma experiência e outra, me projetar do agora construído até aqui e o futuro que se tenta, desesperadamente, prever. Eram livros já lidos que precisavam constar na minha estante, albuns de fotografia, porta-retratos, artigos de decoração, o urso de pelúcia, a roupa e o sapato para dias da semana, domingo, feriado, dias santos e festas importantes, pastas com as cartas recebidas. Até cartões dos aniversários passados! Será que era medo de que no próximo aniversário ninguém fosse se lembrar de mim e, então, eu me consolaria re-lendo os antigos?! Tentativas pequenas de se apoderar da grandeza da vida. De manter o controle de algo tão passageiro e fluido como a vida. Um círculo vicioso – sem fim – literalmente, pleonasmo vicioso: Se eu preciso carregar o porta-retrato e o bibelô que minha mãe trouxe quando visitou a Bahia, então também precisarei de uma estante para expô-los, se preciso da estante, preciso de dinheiro para comprá-la, se a estante que quero é muito cara, então, preciso de outro emprego que me dê mais dinheiro, se a estante mais cara é muito grande, talvez precise de uma sala maior, então, talvez precise mudar de casa e um sofá novo para preencher a sala, que agora é maior, e para combinar com a estante de que tanto gostei… e ahhhhhh céus!!! E, se você não parar em um dado momento e se perguntar de que é que você ,de fato, precisa, isso não acaba nunca e sua vida se resume a uma incessante busca por… pelo quê mesmo?!

mortgage_debt

Com o tempo – e o exercício constante de me mudar e de separar o útil do inútil – gostei, cada vez mais, da idéia de precisar de muito pouco para viver. Os livros já lidos estão em nenhum outro lugar que não em mim e você pode percebê-los pelas idéias que deles carrego. As fotos são somente imagens de histórias que posso te contar com riqueza de detalhes. Os bibelôs – bem, quem precisa provar que passou por um lugar ou outro? – eu carrego a felicidade que senti por ter sido lembrada por meus queridos quando passeavam por esse mundo de Deus – é pra isso que eles servem, não?! Então, começar a viver com o, basicamente, necessário se revela esse duplo exercício de desapego: da idéia de que precisamos disso ou dquilo e dos artigos (des)necessários em si. Com a minha backpack longe de estar pronta para a viagem, ainda não descobri o que dá mais trabalho; me desapegar das idéias ou dos (des)utilitários.

Abstrato e concreto. Ao menos os bens materiais podem ser empilhados, catalogados, facilmente visualizados. Enquanto as idéias… ãrgh…  muito mais difícil é descartar uma idéia que nem se sabe da existência. Uma vez que uma idéia pode esconder outra, que pode esconder outra, que esconde outra e que, se você não se deparar com a primeira, pode passar anos sem se dar conta o que era aquele o excesso de peso pendurado na sua back(pack). E aí, um dia, ao se arrumar para alguma outra viagem, você se pergunta por que a sua back(pack) está tão pesada. Por que é que você não consegue seguir adiante ou, não entende por que o seu corpo começa dar sinais de cansaço – a sua back, pegou o trocadilho?! Idéias velhas pesam tanto na alma como artigos desnecessários em uma backpack. O que, no plano material, não é grande problema. Se o peso é excessivo; abre-se a mochila e joga-se fora a bendita inutilidade. Mas e no plano da alma, da energia, do abstrato? Quem é que sabe do que se pode se livrar sem antes ter que embrarcar na viagem rumo ao seu interior disposto a revirar a sua estante – aaquela adquirida com tanto esforço – suas caixas emocionais, suas gavetas pessoais, profissionais e etc?

Pra mim, a idéia de viajar para a Índia é a externalização de uma jornada pessoal. A viagem dos meus sonhos, chegar mais perto de mim mesma; um intercurso, perceber-se já no meio do caminho. Parto consciente de que as descobertas que a Índia vai me proporcionar começam muito antes de colocar a mochila nas costas. Então, respondendo um pouco aos questionamentos boquiabertos pela escolha do meu novo rumo: minha ida para a Índia é um caminho sem volta. Quem é que pode, novamente, se apegar ao que já se desapegou? O que pode vestir-se de imprescindível depois de revelar-se inútil? Minha viagem para a Índia é o 5S’s que faltava, é limpeza, seleção e descarte interno. É meu desejo de que seja o adeus a todas, e últimas, desnecessariedades acreditadas ao longo dos anos. Ser um Ser, novo, limpo, leve. É o desejo do exercício constante através da possibilidade de acontecer dainte da vida sem as limitações do ter, sem o peso de tudo mais que se carrega sem porquê. Minha viagem para a Índia é a esperança de poder me encontrar toda como um Grande Vazio Mágico em um lugar em que o item básico de sobrevivência é a fé.

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