Posted by: NandaDornelles on: May 29, 2011
Eu só péssima para assimilar a responsabilidade de ter causado dor a alguém. E isso não diz respeito exclusivamente ao seres humanos. Eu tenho particular problema com os bichos. Talvez, eu conceda a eles papéis de indivíduos.
É como uma sensação de dívida antecipada. Na prática nem quer dizer nada. Mas no meu coração já se forma uma dor, um peso, e em seguida eu já estou derramando lágrimas pensando que a vida do bicho não vai ser a mesma só porque eu não fui perfeita.
Meus pais têm duas poodles que são como membros da família. A mais velha tem onze anos e outra uns nove. São branquinhas, cheirosinhas, quietinhas, amorosas, dependentes, carentes. Quando elas escutam o som do alarme do carro do meu pai, mesmo do alto do 6 andar, elas já começam a abanar o rabo de leve e a choramingar. Uma ansiedade absurda, uma impossibilidade de conter-se no agora já que a felicidade maior está por acontecer. Eu as entendo perfeitamente. Já me senti assim. Só não durou por tantos anos como já dura pra elas. Cada vez é uma nova vez, mesmo sendo todos os dias ao longo de suas vidas caninas. Elas não carregam mágoa ou estratégia. Elas apenas demonstram o que sentem. Meu pai entra pela porta e o motivo de sua felicidade fica evidente.
Com a minha mãe talvez seja ainda pior. Elas parecem chama-la para sentar e oferecer seu colo. Caso ela esteja ocupada, não faz mal, elas a seguem paciente e amorosamente até que possa ser delas seu tempo, seu olhar, seu carinho e claro, aquelas vozes de falar com bichinhos. A fruta não cai longe do pé e eu sou uma manteiga derretida. Adoro passar a mão, fazer carinho, olhar bem em seus olhinhos e ficar imaginando o que será que se passa em seus cerebrozinhos, será que eles têm consciência de que batem seus coraçõezinhos ou apenas se preocupam em se manter afastados do perigo?
Eis que meus pais saíram almoçar no domingo e eu fiquei em casa, longe de estar sozinha, as cachorras ao lado e a Laura na barriga. Para elas eu devo ser uma “igual”. Não correm atrás de mim, não me pedem mais do que me ofereço para dar. Me tratam com carinho e respeito e não esperam mais do que seria delas por direito. Mas, às vezes, num transbordamento de bons sentimentos, elas sempre estão por perto e saem ganhando e, claro, eu também.
Depois de ter preparado a minha refeição e arrumado tudo que era preciso enquanto elas ficavam quietinhas em seus cantos como se ninguém nem estivesse por ali, eu resolvi sentar e escrever. Depois de devidamente instalada; pilhas de travesseiros nas costas e no colo, computador a postos, janela aberta, um pedacinho do mar e um tanto de morro, chamei o nome delas. Pra minha surpresa eles vieram correndo e com a minha ajuda, subiram na cama e se colocaram ao meu redor. A mais novinha, que adora ficar encolhida e apertadinha, encontrou um espaço ao lado do meu quadril que a deixava embaixo de um pedaço de travesseiro que eu usava de suporte para o computador. A outra, mais parecida comigo, foi lá para os pés. Ela gosta de ficar perto, mas sem abrir mão do seu próprio espaço.
O domingo estava praticamente perfeito. O dia estava bonito, com sol aquecendo o friozinho que chegou dois dias atrás e nos pegou desprevenidos. Uma caminhada na beira da praia, os pés molhados na água, as células de energia da natureza inundadas. Era hora de retribuir e escrever. O que, nem sei. Até que umas das cachorras, a mais velha, precisou sair. Eu chamei, pedi que ela ficasse. Mas, devia ser alguma necessidade e ela foi. Quando voltou, queria minha ajuda para subir na cama. Eu falei seu nome umas seis vezes, tentei orientar para que fizesse a volta ou que pulasse subindo sozinha. Mas não, ela estava decidida. Havia de ser por aquele lado e ela queria o meu amparo. Bom. Eu não queria desmanchar toda aquela “estrutura”. Estava confortável e recém havia me concentrado, começando o meu trabalho. Mas, a cachorrinha estava ali diante de mim, sapateando querendo subir e não fazendo isso sem mim.
Eu não gostaria de dizer isso. Mas, a verdade é que a cachorra mais velha é a minha preferida. É que ela veio substituir a minha ausência. Foi quando eu saí de casa que minha mãe resolveu tê-la e, desde então, ela tem mordido quem se aproxima indevidamente e garantido que todos cumpram seus papéis na família. De uns tempos pra cá ela tem ficado mais dócil, permitindo ser amada sem ser de uma forma tão engessada. Fato é que antes ela era uma constante ameaça.
Eu estava diante de um impasse. A mais velha querendo subir, eu toda ajeitada, confortável, inspirada e outra cachorra completamente colada na minha perna como que com uma placa dependurada: “por favor, não perturbe”. Se eu me mexesse para pegar a outra no colo, tudo aquilo iria por água abaixo. Era impossível fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Eu não queria sair dali, não queria tirar a cachorrinha menor da sua tranquilidade. Mas não podia deixar a outra sozinha, fora daquele círculo bonito de domingo. Sem pensar direito, eu simplesmente comecei a me inclinar para o lado querendo alcançar a cachorra e ajuda-la a subir o mais depressa possível. Mas era longe demais e meus braços não alcançavam. Mas eu já estava no meio do caminho, já estava no meio da ação. Não consegui pensar, parar e voltar e começar do zero uma outra solução.
Claro que fazendo isso, de repente, eu ouvi o grito. Era a outra cachorra, levantando braba, havia sido completamente esmagada. Pronto. Para quem já tem predisposição em se sentir culpada, a situação perfeita havia sido criada. Com a cachorra mais velha em cima da cama, me oferecendo a barriga para ser acariciada, a outra rosnava e chorava saindo da cama indignada. Levou dois segundo para que eu estivesse chorando. Levou mais dez até que eu fosse atrás dela pela casa e a encontrasse emburrada na sala. Me debrucei sobre ela, pedi desculpas, carreguei ela de volta pra cama e reconstruí o cantinho que ela havia escolhido e que parecia lhe fazer tão feliz. Por uns quinze minutos, estivemos todas juntas, em paz, como se nada houvesse acontecido. Como se só o melhor nos esperasse naquele domingo. Até que elas se levantaram e saíram.
Se não fossem bichos, talvez não tivessem voltado, não tivessem me perdoado. Não teriam ficado nem um pouco. Teriam fingido não se importar, teriam deixado a mágoa imperar. Ou ainda, poderiam se sentir na obrigação de ficar. Mas não. Só quem viveu essa situação fui eu. Elas devem estar focadas na sua respiração, na vontade de comer ou de se esticar. E, de tanto em tanto, deviam se perguntar: “cadê meus donos, será que eles vão demorar para voltar?!”
Amiga, estou eu aqui, nesta quinta-feira molhada, bem deitada e abrigada. Mas com saudades tuas. Lendo o blog, afastei um pouco essa falta. Foi como se estivesse ouvindo tua voz me contando essa história cheia de signos, significados e aprendizados. Estamos juntas sempre, mas isso não quer dizer que queria te ter ao meu lado. Ainda mais com a Laurinha no colo. Beijos e muito amor, always
May 31, 2011 at 8:37 am
Tu é a minha Doty preferidaaaaa!!!!