Posted by: NandaDornelles on: May 23, 2011
Com as duas mãos, afasto o que há na frente. Como se o desconhecido estivesse encoberto por galhos e folhas de plantas. O movimento contém a esperança do alívio se por acaso o escuro for desfeito pelo colorido. Mas até que chegue isso, muitos passos precisam ser dados. Este é apenas o início.
Movido pelo desejo de ver o que nem sei, acabo fazendo um caminho. Um passo depois de outro passo, e ainda está escuro e úmido. Os barulhos, sussurros, uivos, chegam até meus ouvidos como saídos de meu próprio universo intimo, meus pesadelos mais antigos. O maior de todos, de que morrerei sozinho. O medo é gigante, tão grande que poderia facilmente paralisar. Mas não me fariam cegar, ou calar ou sentir com menos intensidade. Então, é melhor continuar.
A floresta à noite é feita de tudo o que não se pode ver. A falta de luz transforma e revela o potencial mau de cada ser. No escuro, amedrontados, todos empunham suas armas, é fundamental ameaçar, mostrar suas garras. Numa luta entre a vida e a morte, toda tentativa é válida.
Muito tempo já se passou. Eu vejo pouco, mas percebo, algo eriça meus pelos, as sombras e seus vultos e seus medos. Sinto seu cheiro. Tento mostrar que não possuo armas. Minhas mãos estão vazias, as uso apenas para afastar o que se coloca como empecilho à continuidade do caminho. Minha mensagem parece não chegar. Eu só queria estar ali em paz. Como pode um desejo tão simples não se realizar?
Quanto mais dentro da floresta, maior a escuridão e o que antes podia ser removido facilmente com uma mão, agora resiste firme. Nem meus dois braços, nem a imposição do potencial transformador contido num abraço. Tudo é de outra forma interpretado. Não importa o que eu faço. Não sei me despir mais do que posso, não sei falar outra língua, é inútil combinar palavras em rimas. É como estar sendo punido, um castigo por estar ali, por querer seguir, pela pretensão de se pensar destemido. Quem foi que disse que todo ser vivo é lindo?
Mas algo que pulsa dentro do meu peito não me deixa aceitar a realidade de outro jeito. É quando eu vejo. O que vibra é também o que contém energia. Sendo assim, é como ser algo que espontaneamente brilha. A luz que eu sigo no meio da escuridão parte de mim. Será que floresta toda estaria dormindo se não fosse por meu egoísmo em querer descobrir o caminho? Será que isso tudo é realmente preciso?
Paro por um momento e, como um porco espinho, me recolho, de mim mesmo, de todos me escondo. Silêncio. Nada se ouve. Nada se pressente. Como por um passe de mágicas as ameaças estão guardadas. Sem qualquer luz intrusa e insistente, a escuridão retorna ao seu equilíbrio, assim com todos os bichos. Acontece que eu não sou um porco espinho. Eu sou um ser humano, eu penso, sinto. Eu vibro cada vez que existo.