Nandadornelles's Blog

Uma história de amor ou Do encontro com o Beija-flor

Posted by: NandaDornelles on: May 14, 2011

Tudo começou assim:

Num lindo dia de outono o sol brilhava forte e iluminava tudo ao redor. Diante de um jardim muito verde e cheio de flores, uma moça se sentou e simplesmente apreciou. Por um segundo não desejou nada, apenas de corpo e alma se conectou. Quando correu em pensamento para algum lugar, foi à imagem de beija-flores que ela costumava parar e observar. Lindos, rápidos, como se fossem encantados, eles voavam de uma flor em outra provando do seu melhor sem se preocupar. Na mesma velocidade em que os bichinhos foram encontrados em sua alma, eles apareceram na sua volta como por passe de mágica.

Pega de surpresa pela ilustre presença, ela se pôs a chorar. Lágrimas de gratidão pela prova da sua conexão se curvavam diante dos pássaros. Ela nem sabia para qual olhar. No seu peito havia a certeza de que a vida era linda, de que a prosperidade era infinita. Ela desejou que alguém que precisasse de uma cura específica a recebesse e absolvida pudesse seguir adiante com a vida. Foi quando de repente escutou um barulho e logo em seguida um beija-flor pousou todo destrambelhado num galho. Diante de tanta beleza e harmonia, aquilo destoava dos fatos e aquele pássaro saiu do anonimato.

Ela até tentou se manter serena, tranquila e satisfeita sabendo que a natureza também tem seus percalços. Sim, imprevistos e desequilíbrios podem acontecer até mesmo no mundo dos pássaros. Mas ela já não conseguia mais. Ela estava preocupada com ele, exatamente com aquele que ela via agora dependurado apenas por uma pata de cabeça pra baixo.

Ele parecia estar machucado e ela não pensou duas vezes antes de sair do seu lugar e cautelosamente se aproximar. Ela ia pé por pé, pois não queria se intrometer. Foi respirando e avisando que queria ajudar, que sofria por ver algo tão belo quanto ele sofrer assim na sua frente, sem motivo, sem porquê. Ficou lá por frações do infinito se derramando em lágrimas pelo medo de testemunhar a transição de algo vivo e vibrante em algo tão insuficiente quanto a matéria pura simplesmente. Ela temia ser culpada de alguma forma, temia sua impotência que já a consumia inteira. O maior medo de todos, o de vir a machucar mesmo com o intuito de ajudar. As lágrimas surgiam compulsivas e ela as deixava, as derramava enquanto falava:

- Beija-flor lindo, o que eu posso fazer por você? O que aconteceu? Como você veio parar aqui?

Ela se aproximava centímetro por centímetro para que ele pudesse tomar consciência de sua presença e deixando que o sol aquecesse seu coração e suas mãos.  Ela queria que ele soubesse que ela estava ali como um canal entre Deus, ele e um eu. Que pouco a pouco enquanto seus corpos ficavam próximos desaparecia qualquer diferença entre eles já que eram os mesmos em suas crenças, na beleza de suas essências. Cada uma das células dela dizia:

- Beija-flor querido, fique tranquilo, eu jamais o machucaria. Tenha certeza de que eu só farei aquilo que me permitir. Essa é uma lei que, eu sei, seria um grande erro infringir.

Com uma de suas mãos ela segurava o galho em que ele estava dependurado já bem próximo ao seu rosto. Ele com certeza poderia sentir seu hálito. Ela nunca tinha ficado tão próxima assim de um pássaro, podendo ver cada um dos tons do seu penacho e seu bico longo e seus olhinhos que piscavam. Seu intuito era com a outra mão segurá-lo, tirá-lo daquele galho e trazê-lo pra perto do seu peito, pro calor e pro conforto das suas mãos. Ambos podiam sentir o calor irradiando delas em sua direção tamanho o desejo por sua salvação. Quando finalmente ela venceu seu medo e se fundiu em amor com o beija-flor, claro, ele finalmente despertou, bateu asas e voôu.

Ela ainda pôde vê-lo vários dias voltando pra mesma árvore, beijando as mesmas flores exatamente como é de sua missão, talvez nem se apercebendo de outro tipo de existência ou da intenção de alguém que o amou e precisou ficar feliz ao vê-lo partir.

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