Posted by: NandaDornelles on: December 14, 2010
Um quadro pode ser só um quadro, assim como um charuto pode ser só um charuto. Mas, para que a vida seja tão simples assim, é preciso um mergulho profundo nas raízes; tanto o quadro quanto o charuto não são, senão, as suas origens.
Quando você vê um quadro, quando está diante de uma figura, um recorte da vida dentro de uma moldura, vê parte do mundo influenciado antecipadamente sobre a visão de quem o pintou. Se você não concorda comigo, podemos partir para um desafio. Pararemos diante do mesmo quadro e emitiremos nossas opiniões que, obviamente, serão diferentes. Você foi criado num determinado contexto, eu, em outro. Mesmo se fosse minha irmã a vê-lo comigo, ainda assim, nossas percepções da mesma tela serão diversas. Mas, ainda assim, teriam um ponto em comum: o ponto de partida, sempre definido por quem pinta, o privilégio de quem cria.
Este poder de decisão pode ser maior ou menor dependendo do grau de intenção de quem pintou. Usar os pincéis, as mãos, os pés, as cordas vocais ou seus músculos faciais para descrever um entendimento privilegiado da nossa condição é o único argumento capaz de nos fazer transcender o plano terreno. Parece que foi isso que perdemos com o domínio do Império Grego. Tudo bem, precisamos de anos, fomos obrigados a nos contentar com alguns poucos, os clássicos, os maiores, os nomes que a poeira do tempo não encobre para chegar até aqui e agora, sim, escancarar o mundo com sinais para nos apontar portas e caminhos. Um quadro nunca é só bonito. Um quadro é um portal, um convite para conhecer outro plano, algo além do que nos confina humanos.
Nosso cérebro é uma máquina incrível. Por uma questão de economia de energia, ele se se comunica com todo nosso corpo e com todos os outros planos através de imagens. Imagine se seu cérebro tivesse que parar para explicar para os deuses ou para seus joelhos em palavras todos os detalhes dos seus afazeres ou a importância de seus prazeres! Não daria certo e a gente viver centenas de anos correndo atrás do próprio rabo e morrendo de medo de ter entendido tudo errado. As imagens são rápidos meios de comunicação e, assim que você descobre o seu acervo, assim que entende suas interconexões e suas mais básicas funções, você descobre o quadro mais precioso do mundo, uma peça única: o quadro da sua felicidade. Não, isso não é só mais uma viagem!
A gente demora pra entender este fato com todas as letras e a manter este entendimento apesar de conviver com um mundo virado do avesso. Mas um dia chega um lampejo intuitivo e você se enxerga dentro do quadro mais bonito. Pronto, foi cumprido o primeiro objetivo! Você está no caminho!
A gente vem para este Planeta, denso e colorido, para comprovar a nossa capacidade de ser feliz apesar dos pesares. Todos desembarcamos aqui com estes dois itens na bagagem: suas motivações e suas doses de apesares. Entre eles há um equilíbrio. Você assinou um contrato que ponderou enquanto ainda era só espírito, luz, um ser divino. Mas até para que fosse válido o exercício, chegou aqui se achando ridículo. Teve que aprender a caminhar, a cagar no pinico, a se maquiar e usar salto fino, ou aprender como fazer para ser incrível apesar de ter entre as pernas um pinto. Mas tudo o que sempre nos foi pedido foi isto: alcance a sua felicidade usando como base o seu quadro de realização pessoal, grandes quantidades de boa vontade e claro o exercício contínuo do seu livre-arbítrio. Depois, entenda isto e conte para os seus amigos, pinte um quadro, arranje notas musicais, escreva um texto. Enquanto faz isso motivado pelo amor mais bonito, se vire do avesso, se conheça inteiro. Não tenha medo de ser tão pequeno quanto um gênio!
Mas a gente vive em sociedade e acredita demais neste formato antigo, vencido. Aí que a novela das oito, o jornal nacional e os reclames do plim-plim não te deixam dormir. Você não isso ou aquilo, não se sente atraente, não é responsável por um exército valente, resumindo, se sente gente, apenas, nada mais do que isto. Um indivíduo perdido entre tudo o que não se é e a distância do que se precisa parecer. Ninguém nunca fala em Ser.
Uma inquietação não o deixa desistir. Intimamente, você só sabe que precisa seguir. Aí, desavisadamente, decide não aceitar os remédios para curar o seu “desvio bipolar” e entra em depressão, deixa que a vizinhança comente sobre a sua “síndrome do pânico” apesar de deixar em casa a placa que seu psiquiatra lhe deu dizendo “indivíduo com transtorno obsessivo-compulsivo, tenha paciência com ele, tadinho, está perdido, eu mesmo prescrevi os comprimidos”. Uma pista ali outra aqui e você descobre que não é possível sobreviver sem morrer. Então, determinado, inspirado por algo que não sabe o que, você se dedica em morrer. A cada hora do dia morre para algo que nunca seria, morre para estranhas expectativas. Deixa que se frustrem as vizinhas, larga sua mãe falando sozinha sobre como você deveria viver sua vida. Morre para as namoradas esquisitas, para os traumas desnecessários, faz uma limpeza geral e morre para si mesmo. Morre para seus mais humanos desejos, os vai removendo um a um: o carro do ano, a casa igual a da revista, o quarto e a sala de jantar sob medida. Você mata o pai projetado em seus desejos frustrados, você se suicida com um golpe pelas gostas de si mesmo. Você morre por falta de opção; porque só o que não pode é se conformar em viver deste jeito: pequeno, tudo é em função de uma porra chamada dinheiro. Até que, entregue, sem nada, despido de tudo o que não serve, você se vê estirado no chão, todo sujo de lama. Você descobre na pele, no nível da experiência, a dignidade dos porcos, da minhoca, da importância de a água estar combinada com a terra na medida certa. Você quer renascer e pera isso precisar chegar a este ponto de conversão. Você está prestes a se reinventar, a partir de agora a sua alma é que vai guiar.
Da L-A-M-A.
Para A-L-M-A.
Mera coincidência?!
É a alma do artista que funciona como pistas para quem admira uma obra, uma conquista íntima. É por isto que partimos ambos do mesmo ponto enquanto observamos o mesmo quadro. Ser artista não é uma profissão que se possa escolher. Ser artista revela uma maneira de viver. Não é algo que se possa optar no vestibular. Ser artista é ser um co-criador e divulgador dos mistérios da existência, é transitar entre todas as crenças, a principal delas em si mesmo, no seu poder imenso.
Mas como tudo é sempre e infinitamente uma questão de escolha, você ainda pode optar por ser dois tipos de artista: você pode pintar com muitas tintas até descobrir matizes ainda mais coloridas, ou você pintar em branco preto, você ainda pode se condenar em sofrimento. Talvez esta segunda seja o caminho mais fácil se seu interesse estiver no dinheiro. E sem preconceitos, o mais importante é que você esteja inteiro. O trabalho é o mesmo, seja tristeza ou alegria. O mais importante é que não minta, não se omita. Faça um favor e mostre a que veio, apenas vença seus medos.
DA INTELIGÊNCIA NEGATIVA
Para conseguir ser um bom artista, também é fundamental abrir mão de ser 100% otimista. Assim, você tem diante de si um quebra-cabeça. Daqueles bem grandes com imagens complexas, cheio de elementos pequenos, detalhes, paisagens de lugares que você nunca esteve antes mas sabe que existem e que esperam pela sua presença.
Para facilitar a montagem você o organiza num grande quadro imantado na parede da sua sala que agora não possui nada além de espaço – lembra? você abriu mão da decoração, levou tão a sério que não tem nem fogão. O grande quadro foi colocado lá e entre uma coisa e outra, você para na frente dele disposto a completa-lo. Você começa com uma peça qualquer. Pode ser um amor que quer viver ou um lugar que quer ver. E aí, pronto, de novo você não consegue mais dormir. Só que agora nem procura por ajuda psíquica. Não é um distúrbio do sono. Você pode sentir que os motivos da sua inquietação são outros. Talvez se confunda com as sensações de inadequação e busque os mesmos confortos, um cigarro, uma bebida, uma droga qualquer que alivie a excitação de saber que você está prestes a ser feliz e o medo de se descobrir assim.
Dedicado, em pouco tempo o quadro está quase todo montado. Agora faltam poucas peças, mas, claro, são as mais difíceis que sobraram. Você passa dez vezes ao dia em frente ao quadro e o que te chama a atenção são, inevitavelmente, os buracos. Se sua mãe estivesse por perto te chamaria de pessimista e te diria para se contentar com o que já está lá escancarado. Mas você sabe que não é este o caso. Você sabe que está atento a tudo o que foi feito. Inteligentemente, sua mente funciona de uma forma “negativa”. As peças que já estão unidas funcionam como pistas. São elementos que lhe sugerem o que faria sentido compor logo ao lado, talvez seja um cisne em um lago ou um homem apaixonado. Você está absurdamente empolgado, mas não adianta, lhe chama atenção os buracos. São poucos, o quadro está quase pronto. Meia dúzia de peças e sua felicidade estará estampada na parede da sua sala.
Como não podia ser assim tão fácil, este quebra-cabeça havia passado anos guardado em caixas no sótão da sua antiga casa. E como a gente, geralmente, não se preocupa em deixar organizado o que vai ser guardado, o quebra-cabeça acabou misturado com outros já dispensados. Assim, não há peças em cima da mesa para preencher os poucos e últimos buracos. Desanimado?!
Você não é bobo de desistir depois de ter chegado até ali. Como um filme de terror, você lembra de todo o horror que foi morrer e renascer. Lembra do quanto doeu para que sua ALMA se desprendesse de toda a LAMA, arregaça as mangas e revira caixas antigas em busca das peças perdidas. Ainda desavisado de que isto pode significar conversas sérias com suas filhas e algumas visitas a amores ínfimos. Seu passado é um baú rico em subsídio. Os buracos estão fixados em sua mente – não mais em seu coração, você já se sabe existir em outra condição – e você procura ávido pelas peças que faltam.
Até que um dia, como resultado inevitável de um pescador paciente e dedicado, você se adona da peça que faltava. Cuidadosa e solenemente a insere. Seu coração bate mais forte. O quebra-cabeça está montado e revela um lindo quadro. Instintivamente, leva a mão ao rosto, precisa segurar seu queixo para que ele não caia. Esfrega seus olhos excluindo a possibilidade de estar sonhando ou ter virado sonâmbulo. Se belisca, pula, grita, chora, ri. Tudo ao mesmo tempo. Não existem limites, você esquece as regras de etiqueta, ergue os braços para cima, deixa cair o peso do seu corpo, confia na força dos seus joelhos em lhe suportar inteiro. Perto do chão com o pescoço inclinado, você admira o quadro. Completo, perfeito, tão lindo quanto você sempre soube que ele seria, como você lembrava dele da infância ou de outro tempo que não pode ser definido, seu ponto de origem no infinito.
Do micro para o macro você repara: a peça que faltava naquele quebra-cabeça era – quem diria!? – Você! Até aí tudo bem. Mas, a medida em que você amplia sua captação visual e soma a sua presença aos elementos extra, constata que a paisagem idílica é exatamente o seu momento: O Presente! O quadro escancara a sua realidade alcançada. Mostra em detalhe a forma como dorme e acorda, os arredores da sua casa, a sua rotina, as canecas na cozinha, a presença do amor da sua vida, um sorriso interno e eterno de alegria – o mesmo que lhe ajudou a chegar até o fim do desafio de montar aquele quebra-cabeça apesar do que pensava a sua mãe, uma namorada antiga ou a xereta da vizinha. Pronto: você se descobriu artista no quadro da felicidade divina, a mesma que lhe espera, pacientemente, todo santo dia. No rodapé do quadro, em letras miúdas, dizia: “Concebido desde sempre por você. Agora, Viva!”