Posted by: NandaDornelles on: March 8, 2012
Dia da Mulher. A data em si já é um convite ao questionamento. Seria ofensivo para nós precisarmos de um dia que nos lembre, ou um presente, um pequeno gesto de reconhecimento dentro da imensidão que é o universo feminino?
Acredito que não exista uma resposta certa para uma questão como esta, uma vez que ela estaria relacionada com a intenção genuína de quem idealizou a data em primeiro lugar – o que provavelmente se perdeu – e o que temos à disposição é o sentimento aleatório pré-existente em cada mulher. Ou seja, se você se sente feliz e grata pela experiência na versão feminina, provavelmente, aceita com felicidade os parabéns enquanto também abraça e felicita outras mulheres. Mas, se você se sente muitas vezes sobrecarregada e esquecida no meio de tantas tarefas a serem desempenhadas, talvez sinta como uma ofensa ter apenas um dia para comemorar o que deveria ser diário. Algumas ainda consideram machismo. E dentro do seu universo, cada uma está certa. Ah, pode ser meu lado poliana, mas eu considero o dia da mulher um gesto bonito com potencial positivo.
E é ao potencial positivo que quero me ater. Porque o mundo não gira em torno do que é, mas, sim, do que fazemos com isto. Então, no fim das contas pouco importa a intenção ou o objetivo da data, e sim, o potencial reflexivo.
A capacidade para reflexão é o que torna o ser humano especial. E, só para deixar claro que reflexão é diferente de análise. É mais profundo, envolve mais fatores e vai além dos atos, leva em conta os sentimentos e interfere em nossos padrões de comportamento. Por isso, pra que apenas celebrar ou rejeitar uma data se ela pode servir de ponto de partida para uma atividade bem específica e humanamente conhecida?
É dia da mulher e a pergunta que ouço é: o que significa ser mulher nos dias de hoje? Afinal, a mulher continua sendo um ser com as mesmas características principais desde que o mundo é mundo. O que muda o tempo todo é o contexto e este é o que fortemente influencia se a experiência feminina vai ser negativa ou positiva. Ao menos, é como eu vejo.
Eu até queria ser otimista como geralmente sou e dar voz apenas às mulheres que vivem seu lado yin, que expressam suas características femininas em 80% do dia. Mas a verdade é que o mundo ainda é dos homens e, talvez, pior ainda, que eles passam a dividir com mulheres masculinizadas. É muito triste admitir, mas, mulheres mesmo, não são tantas assim.
Sim, já sinto muitas pedras na minha direção pela audácia da minha afirmação. Tudo bem, nós podemos discordar, mas, deixa eu ao menos tentar explicar.
Não quero dizer que você que dá duro para conciliar casa com vida profissional não é mulher, de forma alguma. A questão é como fazemos isso. Quanto de nós mesmas, daquilo que nos torna diferentes, não acabamos reduzindo ao mínimo, talvez a um dia de retiro ou ao cuidado com nossos filhos. Eu me refiro à brutalidade com que tratamos nossos corpos em busca da forma perfeita ou do comportamento esperado, seja escondendo um choro ou usando salto alto. Eu questiono a falta de limites para se encaixar em padrões previamente estabelecidos, fabricados por equipes de marketing que visam unicamente a lucratividade. Eu falo da falta de espaço para sensibilidade e de todas as doenças que se originam do desequilíbrio.
Eu não acho que lugar de mulher seja em casa, mas acho que, sim, mulher fica linda mesmo é de saia. Não penso que devemos ser as donas da cozinha, mas acho, sim, que este deveria ser um laboratório para nossa bruxaria e alquimia. Não acho que temos o dever de procriar, mas somos impelidas a amar e a cuidar seja de um filho, de uma mãe ou de marido. E isso não quer dizer no sentido submisso. Apenas maternal como a nossa natureza, pra que fugir dela? O nosso instinto é de pegar no colo e afagar, porque, então, brigar?
As mulheres que mais amo e admiro deram muito duro na vida, mas não abriram mão do que considero as coisas mais importante da vida de uma mulher: a capacidade de amar e a intuição. São apenas dois aspectos que, ao meu ver, nos distinguem dos homens. Como se fosse o nosso cromossomo X. É claro que eles também podem tudo isso (sim, porque só estes dois aspectos significam na prática todo um universo). Conheço muito homem que tem seu lado mulher bem resolvido, escuta seu coração e ama de montão. Mas é isso, são homens que revelam através destas características o seu lado feminino. Não podemos esquecer disto.
É disto que estou falando quando reclamo. Por uma questão de sobrevivência neste mundo caduco, muitas mulheres abriram mão de sua feminilidade. Correm tanto para provar seu valor igual que perdem exatamente o seu diferencial. Não entendo porque queremos igualdade se somos diferentes?! Somos mais delicadas, intuitivas, espontâneas, emotivas, sentimentais e isso não dá pra mudar!
Eu acredito num mundo onde homens e mulheres se complementam. Nenhuma novidade: yin e yang. Mas na prática, parece que estamos cada vez mais longe disto enquanto as mulheres ainda querem chegar “tão alto” quanto os homens no mercado de trabalho. Sinceramente, qual o benefício de ter sua intuição soterrada pela razão?!
No meu mundo ideal cada um vive de forma a expressar a natureza (amorosa) a maior parte do tempo possível e usa seu dom como ferramenta de trabalho. Assim, como a única forma de não causar desequilíbrios internos, transpessoais e energéticos. Dessa forma, mesmo trabalhando e exercendo seu potencial econômico a mulher não precisaria se prostituir ou se perder entre ternos e apertar seus pés em sapatos apertados. É claro que temos uma contribuição única a dar ao mercado, mas o que insisto é que o mercado é apenas uma parte do universo a que somos designadas e, exatamente, uma parte que leva mais em conta o que sua cabeça é capaz do que o que seu coração. Então, exatamente aí que mora a principal inversão.
Para responder a pergunta inicial: acho que a mulher de hoje está perdida. Algumas já fazem o caminho de volta pra casa (não o lar, mas o coração, a casa da nossa alma) mas muitas ainda acreditam que a vida é o constante desafio de provar seu valor através da capacidade mercadológica, pelo quanto são capazes de fazer dentro de empresas, do quanto são capazes de decidir enquanto consumidoras mais do que como mães, filhas, amigas, companheiras e profissionais zelosas e cheias de intuição sobre como fazer para viver mais feliz em mais harmonia. Mas, o meu lado poliana diz que estarmos perdida já é um bom sinal, sinal de que não encontramos a felicidade prometida neste outro lugar e, menos iludidas, começamos a voltar a NOS procurar. Como quem procura acha, tenho certeza de que é só uma questão de tempo e vamos nos encontrar. E graças a todo caminho que hoje nos separa, chegaremos saudosas, valorizando ainda mais a nós mesmas e nossas características divinas, nosso dom, nosso cromossomo X, o que torna únicas: um coração generoso e sábio como uma bússola a nos guiar pela vida!
Posted by: NandaDornelles on: November 17, 2011
Há uma grande responsabilidade em escrever este texto. Em escrever qualquer texto. Expor a verdade é sempre um grande risco. E quando a verdade revela, além dela mesma, um tanto de nós, ainda maior o risco. A exposição de tudo que nos torna humano demais é um convite ao julgamento alheio. Reflito, reflito e, no fim, me submeto, porque da minha perspectiva, este é um dos grandes motivos pelos quais estamos aqui: mergulhar no desconhecido, se descobrir, se transformar, compartilhar e melhorar. Lá vamos nós, a caminho da evolução.
Por uma questão metodológica apenas, eu não vou explicar como tudo começou. Não vou começar exatamente do começo, até porque uma coisa puxa outra e o começo mesmo pode ser lá no inicio dos tempos. Então, vou passar batido pelo dia em que recebi o chamado de conceber uma filha, pelo dia em que conheci o pai dela, não vou divagar sobre paixão e amor e sobre o que se descobre de si e do outro enquanto experimenta e revela as diferenças entre ambos. E mesmo quando falamos de amor, a distância entre amor dito e amor vivido. Também não vou contar como antecipei sua chegada na minha aura dias antes e como renovei meus votos mais uma vez e nem como foi ela quem escolheu seu nome ou conduziu minha vontade atrás de um milagre. Você só precisa saber: eu sabia, senti e consenti a vinda da Laura pra minha vida. Só, claro, não fazia ideia de como seria.
O como é sempre o mistério e diante dele se submente a nossa curiosidade, nossos desejos e nossos medos. O futuro pode ser uma tela em branco ou um buraco negro. Um te inspira, outro te consome. Um te convida a criar, o outro te faz pirar. Termos, diante de nós, uma tela branca ou um buraco negro não é algo imposto ou definitivo. Aqui já damos o primeiro passo rumo a nós mesmos como seres co-criadores de nosso destino. E pronto, o mistério já foi diminuído. Nossas intenções funcionam como molduras ou a palheta de cores onde o misterioso “como” há de se revelar.
Assim, se existe uma parte em cada um de nós que co-cria também existe uma outra desconhecida. Nós somos seres complexos e acabamos sendo resultado da combinação da vontade destes pares. E, é preciso dizer, no mundo da “co-criação” vale quem fala mais alto. Entre as vozes mais fortes está a do amor e a do medo. Diante do mistério da nossa caminhada, vale aquele que gritar mais alto e no, fim, o desempate é por quem for mais verdadeiro, e nisto, ah e neste campo “nós” não temos apito. As vozes veem de um ponto muito, muito mais do íntimo.
A confirmação da minha gravidez não foi nem parecida com o que um dia eu planejei. Mas eu estava inteiramente lá e consciente de que muito ainda estava por vir e nem tudo seria como eu sempre quis. Sozinha eu abria o envelope que confirmava a minha mais linda suspeita. Eu tremia enquanto ouvia:
- sim, eu vou chegar.
Era verão, dia 04 de janeiro de 2011 e eu já ansiava a chegada da primavera de um ano novo que desabrochava em amor.
Rapidamente comecei a tomar providencias e a buscar linhas-guia para a co-criação do momento mágico que seria a chegada da Laura. Claro que tratei de cuidar do presente; me alimentar bem, muito pão com abacate e muitos sucos centrifugados, rir, caminhar na praia, tomar muitos, muitos banhos de mar, ler ótimos livros, assistir documentários sobre o fundo do mar, as grandes migrações e a vida das plantas e dos bichinhos e ser tão feliz quanto possível. Mas, já com 8 semanas de gestação eu fui fazer um curso de parto planejado domiciliar com o grupo Hanami. Eu nem sabia o sexo ainda, mas já sabia que queria que aquele serzinho fosse recebido na energia do lar, que o quanto antes estivesse nos meus braços, que se sentisse confortável e amado desde o primeiro segundo fora da minha barriga. Eu sonhava em, semanas antes do grande dia, começar a preparar o espaço com mandalas coloridas e mantras e comidas e a presença das pessoas mais queridas. Mas, quis a vida, no quarto mês de gravidez eu me mudei pra casa dos meus pais e, logo em seguida, o diagnóstico de uma diabetes gestacional e de uma anemia me convidavam a um grande exercício de flexibilidade: o parto não poderia mais ser domiciliar. Seria preciso cuidar rigidamente da dieta, fazer exercícios físicos regulares e, no momento do parto, monitorar as taxas de açúcar, tudo para o bem da Laura. Vá lá, parece simples, mas demanda uma grande dedicação o exercício de abrir mão do meu quadro da felicidade. Nada de ter a Laura em casa, nada de uma caminhada na beira da praia para aliviar as contrações antes da hora “h”, nada de comer um pão integral com abacate antes do parto, nada de música e dança e mandalas. E ainda, admitir, sim, a possibilidade de uma cesárea caso a dieta e os exercícios não fossem de acordo e a circunferência torácica da Laura aumentasse demais. Meu coração apertava e eu enchia os olhos de lágrima só de pensar:
- como que eu não estaria presente, participando do nascimento da minha filha?! Como nós não iriamos fazer aquilo juntas? Como não seria lindo e mágico e colorido o nosso encontro tanto quanto eu achava que nós duas merecíamos?
Então, nada de perder tempo. Dieta e exercícios com rigor espartano, muita ajuda da família e amigos e descanso.
Os dias passaram e com as medidas tomadas surtindo efeito, era hora de intensificar as orações. Eu pedia pelo parto normal, tanto fazia o jeito, onde, com quem, quando. Eu só visualizava a Laura saindo de dentro de mim naturalmente. Me limitava a colocar numa figura apenas a cabecinha dela e o meu corpo da cintura pra baixo, casualmente, em posição de cócoras. Eu rezava pela saúde do serzinho dentro de mim, rezava pelo bem-estar da Laura tanto quanto por um parto normal e me coloca à disposição; eu faria qualquer coisa em troca destes dois presentes. Eu invocava a todo momento a força e o poder da chama violeta e confiava à Saint Germain o meu bem mais precioso.
Mas, no meio disso tudo, uma informação reacendeu a chama da esperança. Meu médico, Dr. Marcos Leite, sugeriu a maternidade em que eu deveria ter a Laura. Me disse que lá havia um quarto tipo apartamento onde minha família e meus amigos poderiam estar junto e o parto poderia ser na banheira, eu poderia até levar a minha comida. Seria o mais perto da ideia de casa que eu podia ter, mas já estava de bom tamanho. O negócio era continuar dedicada à alimentação e aos exercícios físicos. Caminhada intensa todos os dias por uma hora e nada de doce, não, nem um mínimo pedacinho!
Os meses foram fechando e a gravidez se completando. A chegada da minha irmã Juliana em meados de julho deixou tudo mais colorido, mais cheio de riso. A sua companhia constante era uma alívio, mas também uma pressão. Ela estava apenas de passagem e sua permanência no Brasil tinha os dias contados, mais precisamente até o dia 29 de agosto quando retornava aos seus estudos no sul da Inglaterra. Com a chegada da Laura prevista para a segunda quinzena de setembro tanto ela quanto eu e, provavelmente, a Laura, lamentávamos o fato de não estarmos todas juntas quando a hora chegasse. Eu estava conformada, afinal, já tinha aberto mão de qualquer vontade ou imposição de detalhe, mas a minha irmã conversava insistentemente com a minha barriga, dizendo em voz engraçada:
- Laura, vem mais cedo pra ver a dinda, vem.
Até que um dia eu tive um sonho. A Laura queria nascer e não vinha porque nada estava pronto. Eu acordei sabendo que aquilo era um aviso. Ainda era metade de agosto. Mandei um email desesperado para a Iara do Hanami, depois liguei pra Clariana. Eu fui enfática:
- a Laura quer chegar antes do tempo, é melhor a gente se apressar.
Então, marcamos a visita delas à minha casa para o planejamento do parto enquanto eu corria comprando e lavando e arrumando a mochila com tanta coisa que eu nem sabia que existia. Dia 26 de agosto, sexta-feira, a Clariana e a Renata viriam até Itapema, providencial, já que um dia antes eu teria minha consulta de 30 dias com Dr. Marcos e último ultrassom antes do nascimento da Laura.
Mas a semana corria esquisita. Pra começar, eu não quis renovar o contrato na academia, depois ficava ligando todo dia pras meninas do Hanami pra saber se os sintomas estavam ok. Era o colostro descendo aquele excesso de corrimento. Eu morria de medo de que fosse a bolsa vazando aos pouquinhos e a Laura ficando sem líquido. Depois foi a presença de sangue em floquinhos e algumas dores. Tudo dentro do normal segundo as doulas. Eu confiava e a cada conversa relaxava ainda mais. Mas, no fundo, tinha uma sensação esquisita de fim. Sentia como se nem pudesse abrir muito as pernas que a Laura ameaçaria sair. Até que uma tarde as dores se intensificaram e, por brincadeira, minha irmã e eu resolvemos anotar cada dor, dar nota para a intensidade e contar quanto tempo durava. Depois, percebemos que eu estava tendo uma contração a cada dez minutos. Mais uma vez, liguei pra Clariana já sentindo um pouco de vergonha, pois, aquilo parecia insistência ou falta de paciência. Ela me disse que tudo bem e que se sentisse dor tomasse um banho quente demorado. Esta foi a primeira noite que eu não dormi perfeitamente bem. Apesar de aliviada com a ducha quente de 30 minutos e compressas e bolsas de água quente, eu sentia, seja lá o que separasse a Laura do mundo de cá, se afinar. A manhã seguinte prometia e eu me sentia à vontade em esperar.
Era quinta-feira,dia 25 de agosto. Ao abrir os olhos me dei conta de que a noite tinha finalmente passado e de que, sim, as dores continuavam. Mas não era nada fora do normal e eu me sentia em condições de cumprir com minhas obrigações. Minha irmã e eu nos aprontamos e fomos pegar o ônibus para Florianópolis. Uma maratona nos esperava: retirar exames no laboratório, consulta com Dr. Marcos, almoço no Vida e o tão esperado ultrassom. Se existia alguma ansiedade, era em relação ao ultrassom que revelaria se as medidas da Laura estavam de acordo com o esperado e saberia se eu podia ou não seguir contando com o parto normal. Mas, antes mesmo de sairmos de Itapema, uma ligação despertou as nossas suspeitas.
As 8hs a secretária do Dr. Marcos ligou para cancelar a consulta pois ele estava atendendo a um parto na maternidade Hospital da Ilha. Eu fui mais sincera do que sabia:
- olha, acho que a minha consulta não vai dar pra cancelar, também estou em trabalho de parto.
Falei com Dr. Marcos que sugeriu, já que eu estava a caminho, que eu fosse até a maternidade que ele me examinaria lá. Eu senti o tom de incredulidade dele mas ao mesmo tempo o respeito ao que eu estava dizendo. Contei pra minha irmã que sentiu o mesmo que eu:
- acho que tu vai pra maternidade já para ficar.
Ela só teve mais coragem do que eu em falar. Eu sentia, só não queria acreditar. As contrações continuavam, agora um pouco mais fortes, quase de eu ter que parar de falar, mas ainda uma a cada dez minutos. Minhas amigas Camila e Anita sentiram o momento e ligaram. Ficaram passadas em saber que eu não só estava indo a Florianópolis de ônibus como pretendia fazer tudo por lá caminhando ou de ônibus da cidade. Elas profetizaram também:
- me avisa depois onde tu estiver que vamos lá te ajudar.
Chegando em Floripa, segui o conselho das amigas e peguei um taxi até o laboratório santa luzia. Com os exames na mão, achei que seria uma boa ideia caminhar até a beira mar e só lá pegar um taxi para a maternidade. Mas, de repente, a caminho daquela rua linda de nome complicado, toda arborizada, um alarme soou dentro de mim e eu disse pra minha irmã:
- vamos pegar um taxi. Agooora.
Ela ainda queria se aventurar a ligar e chamar uma ambulância pra ser mais divertido. Mas eu não estava mais achando graça e sabia que devia estar num lugar seguro o quanto antes. Atacamos o primeiro taxi que passou e isso foi um alívio.
Mas, apesar de tudo isso, eu nem pedi pressa ao motorista, que dirigia com uma mão e com a outra comia um lanchinho. Nem mesmo comentei meu estado. Por algum motivo, voltei a acreditar que estava indo pra lá só para me consultar. Chegando à maternidade fui recepcionada com a seguinte frase da funcionária:
- só pra avisar que a maternidade está lotada.
Tudo bem, eu pensei, e ainda falei:
- só vim consultar com o Dr. Marcos que está aqui atendendo a um parto. Ele pediu pra avisar assim que eu chegar.
Até que o Dr. Marcos viesse me ver deu tempo de minha irmã e eu falarmos sobre muitos assuntos indispensáveis a nossa amizade e ainda de conhecer a Clariana que estava por lá trabalhando no mesmo parto – o da Lívia e do Enri! A Clariana sentiu as contrações e me tranquilizou:
- sim, uma contração a cada dez minutos. Mas o trabalho de parto mesmo são três contrações nesse intervalo. Ainda pode ir mais alguns dias assim, tu deve, sim, voltar a Itapema hoje.
Não que eu estivesse preocupada, mas queria me sentir só um pouquinho mais bem preparada e, claro, ter as minhas coisas comigo, sei lá, pensar na roupa que eu ia usar, passar outro perfume, me arrumar. Ela voltou pro parto da Lívia e uns vinte minutos depois apareceu o Dr. Marcos exatamente quando minha irmã e eu percebemos que as contrações já estavam acontecendo 3 a cada 10 min.
É verdade, eu sentia cada vez mais fina a camada que separava a Laura de estar do lado de cá e o Dr. Marcos fez cara de entender porque quando me examinou e constatou que eu estava com 4 centímetros de dilatação. Segundo ele, três quartos do trabalho de parto era passar estes primeiros 4 cm… e lá estava eu, lépida e faceira, querendo ir almoçar no Vida, fazer o ultrassom e voltar para Itapema, sim, no mínimo queria cumprir com a minha agenda.
Bom, Dr. Marcos descartou a hipótese de eu ir a qualquer lugar além das redondezas do hospital. Aliás, me sugeriu dar uma volta de no máximo uma hora e voltar para ele me examinar.
- Mas não precisa ser uma hora. Se sentir qualquer coisa, volta pra cá. É só pra ver se a coisa vai andar.
Era quase meio dia e minha irmã e eu resolvemos almoçar. Nós ligamos para nossos pais e mandamos eles se apressarem, pegar as minhas coisas e ir o quanto antes pra lá. A ideia de almoçar acabou não funcionando. Primeiro porque o restaurante não tinha nada que a minha dieta permitisse e outra que eu tinha um grande embrulho no estômago que me impedia de engolir qualquer coisa. Uns pedacinhos de frango e umas garfadas de salada e eu senti o alarme soar de novo:
- vamos voltar para o hospital. Agooora.
Voltando para o hospital, foi uma confusão até que o Dr. Macos conseguisse uma sala e finalmente constatasse que eu já estava com 6 para 7 centímetros de dilatação. A essa altura as dores estavam fortes e eu tinha dificuldade de fazer outra coisa além de senti-las passar uma a uma. A minha irmã esteve comigo o tempo todo e foi simplesmente a melhor companhia que alguém poderia ter. Me ajudava com tudo da forma mais amiga e solicita e doce. Eu não reparava em outra coisa além das ondas que faziam pressão na minha barriga, mas me senti particularmente feliz quando senti a mãozinha dela fazendo massagens na minha lombar. Quem falou pra ela que aquilo ajudava? Instinto?! Eu estava só de blusa e meia numa sala emprestada. Nada naquele ambiente me era familiar – acho que nem ao Dr. Marcos – mas eu tinha a minha irmã do lado e não precisava de mais nada.
De repente, chegou a Renata com suas mãos mágicas. O Dr. Marcos tinha chamado ela e eu entendi aquilo como um sinal de que a coisa avançava. Mas, ainda, na maternidade não havia vaga e meu trabalho de parto acabou se dando na sala de visita do hospital. Minha amiga Camila chegou e ela e minha irmã fizeram com que eu me sentisse à vontade para abrir as calças, urrar, engatinhar e tudo mais que sentisse vontade de fazer apesar de todos que passavam pelo corredor e podiam me ver. Lá pelas 3 da tarde chegaram meus pais. Pronto, as pessoas mais importantes estavam lá (faltava minha amiga Anita, é verdade, mas ela já tinha avisado que ia ficar presa no trabalho),a Laura já podia nascer. Acho que saber disso me jogou rapidamente para outra fase do processo. A Renata e suas mãos mágicas que aliviavam muito do meu desconforto com massagens na minha lombar deve ter sentido e me convidou a caminhar pelo hall e a dar algumas agachadas enquanto me segurava nas paredes. Tudo se intensificava rápido demais e me eu me sentia tomada por uma força avassaladora. Eu era um bicho. Não conseguia pensar ou ponderar nada. Apenas sentia e reagia. Urrava, sentia minha barriga e minhas costas serem pressionadas. Eu recebia amorosamente cada uma das contrações, exatamente como um sinal de que meu encontro com a Laura estava cada vez mais próximo. Eu proveitava para dizer a ela em pensamento:
- sente, sente que a tua hora tá chegando, te prepara que logo logo você estará aqui do lado de fora.
Eu queria que a Laura ficasse tranquila em sair, sabendo que seria recebida com muito amor e que estaria em segurança. Eu não via a hora de senti-la nos braços, eu queria beijar as suas mãozinhas. A taxa de açúcar foi medida e estava de acordo, mas mesmo assim, eu estava ansiosa pra saber da saúde dela, pra ter certeza que ela estava bem, que tinha todos os dedinhos, eu queria vê-las abrir seus olhinhos.
Tudo acontecia como se houvesse um roteiro. Como se todos os integrantes estivessem a par e seguindo algo programado porque todos os fatos estavam muito encadeados. Eu só não podia antecipá-los, mas todos aconteciam numa sincronia divina. De repente parecia ter chegado a hora e aquele quarto para parto com banheira do qual o Dr. Marcos havia me falado estava, claro, ocupado. Não só aquele, todos os outros. A minha única alternativa era o centro cirúrgico. Eu resisti. Não queria. Eu queira a presença daquelas pessoas, eu queria a minha música, a minha irmã filmando, a minha comida. Eu ainda contrariei a Renata e perguntei se não podia ir até à casa de alguma amiga ter a Laura. Era óbvio que naquele estado eu não iria a lugar algum. Eu não tinha alternativa e mais uma vez eu exercitei minha flexibilidade enquanto ia para a sala de cirurgia.
Chegando lá eu ainda perguntei mais uma vez ao Dr. Marcos:
- eu não quero entrar. Quais são as minhas opções?
- Nenhuma, ele respondeu. Se você quer ter a Laura aqui comigo e com a Renata, você tem que entrar aqui, agora.
Enquanto isso eu sentia estar sendo imbuída de força e coragem, sendo preparada com todo amor e carinho do mundo como que para o momento mais importante da minha vida. Era minha mãe tirando minha roupa pra que eu e vestisse aquela touca e sapatos de tecido. Só me dei conta disso quando alguém perguntou:
- Quem vai entrar com ela?
Ouvi minha mãe responder.
- O pai dela. João, coloca o sapato e a touca e entra lá com ela.
Eu entrei marchando no centro cirúrgico. Olhei em volta. Parte de mim beirava a revolta, outra parte não estava nem ai. A Renta já estava do meu lado e me ofereceu a bola de pilates. Do meu parto sonhado, este era o único item que constava no parto que se tornava realidade. Eu nunca achei que uma bola de pilates poderia me fazer sentir tão bem. Foi tudo muito rápido. Logo meu pai estava do meu lado. A Renata aliviando toda dor com suas mãos, sim, mágicas e o Dr. Marcos que aparecia de vez em quando para ver como eu estava. As contrações fortíssimas, mas não era dor que eu sentia, era a força daquele momento o poder da chegada eminente da Laura. Finalmente. Laura e eu iriamos nos conhecer. Eu pedia para que ela estivesse bem, pra que a dieta e os exercícios tivessem surtido efeito, que ela fosse saudável. Eu tinha muito medo de ter falhado. Até que a bolsa rompeu e eu senti que começávamos uma nova fase.
Passava das quatro da tarde, meu pai tentava tirar fotos, eu não queria saber de ser fotografada. Deixei claro:
- ela vai nascer!
A Renata foi muito rápida. Colocou meu pai nas minhas costas me segurando por debaixo dos braços, chamou o Dr. Marcos e ambos ficaram na minha frente. Nós estávamos na quina de uma sala de cirurgia. Eu estava de cócoras. Enfermeiros passavam, entravam rapidamente, se surpreendiam. Não sei se era eu ou eles que se sentia mais invadido. Algo urgente pulsava dentro de mim querendo sair. Era um trabalho conjunto. Eu sabia, ela também. Um tanto eu dizia:
- estou aqui
E ela respondia:
- estou aqui
Eu queria sentir tudo. Fazia força conforme a orientação da Renata e do Dr. Marcos, mas metade de mim queria estar lá com a Laura. Eu queria estar em todas a células da minha barriga, do canal, da minha vagina. O Dr. Marcos tentou me motivar mostrando que a cabeça já estava lá. Mas eu não queria saber, uma que meus braços não alcançavam, outra que queria ela inteira do meu lado, não queria saber só da cabeça. Mas eu ainda queria senti-la nascer de todas as formas possíveis até que algo gritou me dizendo que isto era impossível. De repente eu senti que não poderíamos passar as duas pelo canal vaginal. O espaço era muito estreito, lá só caberia a Laura e para isto eu teria que deixa-la passar sozinha. Precisaria confiar nela e me entregar à minha tarefa de ajudar. O momento exigia confiança e entrega em níveis que eu nunca tinha experimentado. Foi quando senti o abismo. A meus pés, o desconhecido. Às minhas costas, me segurando com força e afeto, simplesmente, uma das pessoas mais importantes da minha vida. À minha frente, Dr. Marcos e a Renata, profissionais sérios e competentes além de almas extremamente sensíveis me inspiravam toda confiança possível. Numa fração de segundos, eu fechei meus olhos e coloquei a Laura em primeiro lugar. Ela era mais importante do que eu, do que qualquer vontade de sentir isso ou aquilo, maior do que qualquer dor, ela era do tamanho infinito do amor. Inspirei e fiz a maior força que pude, tanto como se fosse a última, como se depois dela eu nem mesmo fosse voltar a existir. Soltei o peso todo do meu corpo nas mãos do meu pai enquanto sabia que o Dr. Marcos e a Renata a receberiam. Eu toda me transformei numa força e quando ainda não havia voltado a mim, ouvi o Dr. Marcos dizer:
- nasceu, olha aqui mamãe.
A Laura. A Laura estava nos meus braços. Eu nem podia acreditar. Em partes porque ainda não estava lá. De repente eu parecia ter sido jogada de volta pro mundo, mas em outra parte dele. Nada mais era como antes. Eu não reconhecia aquelas paredes.
Infelizmente, por não ter sido um parto domiciliar planejado, Laura e eu não tivemos todo tempo de que gostaríamos. Fazia segundos que ela havia saído de dentro de mim mas logo um pediatra já passou e já orientava meu pai a cortar o cordão para leva-la pra aquecer e dar o banho e sei lá mais o que. Eu fiquei jogada, me sentindo desolada. O Enri da Lívia nasceu ao mesmo tempo. Vi quando passaram com ele pela minha frente pra levar lá pra junto da Laura. Qualquer chorinho que eu ouvia ficava imaginando se era da minha filha, queria que fosse dela até, só pra ter um sinal. Eu já sentia saudade, já era só uma metade por estar longe dela, da minha nova realidade.
Logo ela voltou e só pra que tudo isso não fosse somente meu encontro com o divino mas também tivesse um tanto da ironia do destino, duas horas mais tarde quando, finalmente, um quarto vagou para que eu pudesse passar a noite, adivinhe qual foi?! Claro, o quarto de parto com a banheira e todo o espaço para um sonho que já tinha sido realizado: A LAURA JÁ TINHA CHEGADO!
Posted by: NandaDornelles on: August 7, 2011
Finalmente posso voltar até lá. A estrada de terra, as pedras soltas sempre em maior número à margem. No meio, os trilhos por onde os carros passavam. Ainda passam. Mas agora a estrada é uma rua, de asfalto ou de paralelepípedo. Tanto faz. Eu não passo mais lá.
Eu lembro de cantar, de repetir com a voz rouca e fora do ritmo uma combinação de palavras que parecia dizer algo que eu sentia mas não sabia o que significavam. Eu só cantava como quem pronuncia seu próprio nome encontrado por outro. “Eu caminhava e fingia que o tempo passava, eu caminhava e fingia que conhecia as pessoas e fingia que gostava de alguém e fingia que o tempo passava”.
Uma mochila nas costas como peso de onde eu vinha, pra onde eu ia, mas eu nem percebia. Eu apenas cumpria uma rotina e no meu peito algo já doía. Uma menina, tão pequena, tão sozinha. Eu chutava as pedras como se fossem minhas amigas.
É que é difícil enxergar tudo de fora. Leva anos até a gente saia um pouco do próprio corpo e veja de cima a cor do próprio cabelo e como parecem realmente as unhas pintadas de vermelho. Leva tempo até que a gente encontre um pouco de distanciamento. E antes que ele chegue, antes ainda que a gente saiba que ele pode vir a existir, a gente sempre se prende. A gente busca e encontra elos pesados de uma grande corrente. E se prende. Distante do que não se sabe ser, a dor é sempre melhor do que nada. A salvação diabólica do ter ou do parecer.
Então eu caminhava, e sonhava que aquela música me libertava e que eu encontrava um tesouro. Que eu encontrava por acaso, enquanto chutava as pedras, alguma verdade preciosa, algo que ninguém mais naquela cidade sabia. Um passaporte que me tirava de lá, um bilhete premiado que me permitia voar sem destino, uma carta de alforria que, ao menos, me tirava da prisão. Mas eu não fingia ser feliz quando não era, não fingia que entendia as regras e por isto as transgredia uma a uma. Simples assim como chutava as pedras. Eu não fingia, eu sentia o tempo passar e a dor e a pressão de um tic-tac ao contrário, a contagem regressiva de uma bomba-relógio que eu não sabia se alguém desarmaria. E com tudo isso, aumentava os elos pesados de uma corrente chamada passado enquanto me projetava no futuro errado.
Durante anos eu caminhava contrariada em direção a uma casa que diziam que era a minha. Demoraria anos, muitos anos, até que eu parasse de fingir. Eu não sabia que lá alguém esperava ou torcia por mim. Demoraria o tempo do desprendimento amoroso para que aquela casa fosse alegria. Para que eu percorresse aquele caminho dentro de mim. Agora sim, caminho feliz com permissão para seguir.
Posted by: NandaDornelles on: June 28, 2011
Depois de uma chuva fina, irritante, depois de ventos chatos, fortes, cortantes, o sol encontrou caminho livre para seus raios, afastando pra longe qualquer metade de tristeza. Mesmo quando tudo parece muito, muito difícil, é impossível ver um céu azul e não respirar aliviado, não acreditar que estamos sendo divinamente guiados.
Assim como a graça de tudo que acontece espontaneamente, o homem desviou um tanto do seu caminho e entrou num templo quase esquecido. Fez tudo meio que por instinto, seguindo passos já conhecidos. Subiu cada um dos muitos, altos e pesados degraus sabendo dos seus medos, sentindo o peso dos seus vícios – a respiração ofegante e uma fé hesitante – mas se sabia movido, acima de tudo, pelo amor a seus filhos.
A porta grande de madeira era velha, talvez tão velha quanto a sua alma, quanto a sua dor. Ainda assim estava aberta. Ele não enxergou o ponto de interrogação que passou lhe rasgando o peito enquanto lhe perguntava por detrás da orelha: o que aconteceu com a sua porta interna? Por que nunca mais esteve aberta? Onde você escondeu a chave para sua própria felicidade? Pra que tanta vaidade?
Desapercebido, talvez surdo ou mudo, ele entrou estranho, pequeno, sozinho. Menos de um ano antes e aquele templo parecia tão grande. Seus sonhos dançavam soltos como em um salão pomposo, ao som de valsas e música sacra formavam pares, se acasalavam e se multiplicavam sob os olhos dos santos. Ele via numa menina a beleza intrínseca da vida, a alegria sem motivo e uma força talvez capaz de mover as barreiras do destino. Ela já amava a um Deus e ele queria saber do seu. Tudo podia ter sido só puro e sincero. Mas o homem tem dentro de si essa vontade atrapalhada, eloquente de ser o externo, de amar o que vê no espelho, de duvidar do que é eterno.
As paredes da igreja que antes gritavam as dádivas da riqueza, agora pareciam carregar apenas os gritos da dor dos aflitos. Tantos, tantos, infinitos. Ao lado, uma portinhola mostrava uma gruta, velas dependuradas, placas: “por uma graça alcançada”. Jogou os olhos para baixo lamentando não ter sido a sua, ali estava, sozinho, talvez esquecido, mal compreendido. Nem mesmo a moça que cuidava do espaço era a mesma. Não estava mais ali nem mesmo a senhora negra, santa, avó, incansável guerreira. De longe ele vê apenas um braço desavisado, espreguiçado, intrometido. Um braço de ninguém, ao menos não alguém que pudesse aliviar a sua dor ou atender a sua prece. Olha pra cima, vê o santo das pessoas de cor, ao lado a virgem Maria. “- senhora, de onde tu tá, olha minhas filhas.”
Um soluço como um alívio de tudo o que não foi dito: “- Só me dá o amor mais paciente do mundo, além da saúde dos meus filhos, eu só peço isso.”
As lágrimas levaram embora um pouco do cansaço e, uma outra vez, o homem saiu dali motivado. Agora sem o suspiro ingênuo dos apaixonados, sem os calafrios de quem se sabe desejado. Ele começa a desconfiar que sejam falso os adornos dourados que lhe cercavam.
Posted by: NandaDornelles on: June 18, 2011
Que saudade que dá
Dos tempos de
Lá
Coisa estranha essa de
Apreciar um lugar
No qual não se pode
Estar
E sofrer
E brigar
Só pra conseguir respirar
Como se a saudade
Fosse um fardo
Um peso no meio do peito
Um impedimento
Ao ritmo natural de
Batimentos
Um coração que bate como:
Felicidade (tum) – felicidade (tum) \\o//
Saudade(…t…u…m…)
T…u…m – T…u…m – T…u…m
Lágrima (t..u..m) – Choro (t..u..m) – Choro (t..u..m)
Respira (t..u.m) – Respira (t.u.m) – Respira (tum)
Saudade como a ausência de um TUM
Que não vem mais
Nominado
Agora, um tum descompassado
Um tum atrapalhado
indecisão (tt-uu-mm) – angústia (tt-uu-mm) – dúvida (tt-uu-mm)
Não sabe se corre atrás do tum perdido
Ou se fica
Pra ao menos ser a si mesmo
Alguém a lhe fazer companhia
Quando um outro TUM
Surgir
E tornar tudo feliz.
Posted by: NandaDornelles on: May 29, 2011
Eu só péssima para assimilar a responsabilidade de ter causado dor a alguém. E isso não diz respeito exclusivamente ao seres humanos. Eu tenho particular problema com os bichos. Talvez, eu conceda a eles papéis de indivíduos.
É como uma sensação de dívida antecipada. Na prática nem quer dizer nada. Mas no meu coração já se forma uma dor, um peso, e em seguida eu já estou derramando lágrimas pensando que a vida do bicho não vai ser a mesma só porque eu não fui perfeita.
Meus pais têm duas poodles que são como membros da família. A mais velha tem onze anos e outra uns nove. São branquinhas, cheirosinhas, quietinhas, amorosas, dependentes, carentes. Quando elas escutam o som do alarme do carro do meu pai, mesmo do alto do 6 andar, elas já começam a abanar o rabo de leve e a choramingar. Uma ansiedade absurda, uma impossibilidade de conter-se no agora já que a felicidade maior está por acontecer. Eu as entendo perfeitamente. Já me senti assim. Só não durou por tantos anos como já dura pra elas. Cada vez é uma nova vez, mesmo sendo todos os dias ao longo de suas vidas caninas. Elas não carregam mágoa ou estratégia. Elas apenas demonstram o que sentem. Meu pai entra pela porta e o motivo de sua felicidade fica evidente.
Com a minha mãe talvez seja ainda pior. Elas parecem chama-la para sentar e oferecer seu colo. Caso ela esteja ocupada, não faz mal, elas a seguem paciente e amorosamente até que possa ser delas seu tempo, seu olhar, seu carinho e claro, aquelas vozes de falar com bichinhos. A fruta não cai longe do pé e eu sou uma manteiga derretida. Adoro passar a mão, fazer carinho, olhar bem em seus olhinhos e ficar imaginando o que será que se passa em seus cerebrozinhos, será que eles têm consciência de que batem seus coraçõezinhos ou apenas se preocupam em se manter afastados do perigo?
Eis que meus pais saíram almoçar no domingo e eu fiquei em casa, longe de estar sozinha, as cachorras ao lado e a Laura na barriga. Para elas eu devo ser uma “igual”. Não correm atrás de mim, não me pedem mais do que me ofereço para dar. Me tratam com carinho e respeito e não esperam mais do que seria delas por direito. Mas, às vezes, num transbordamento de bons sentimentos, elas sempre estão por perto e saem ganhando e, claro, eu também.
Depois de ter preparado a minha refeição e arrumado tudo que era preciso enquanto elas ficavam quietinhas em seus cantos como se ninguém nem estivesse por ali, eu resolvi sentar e escrever. Depois de devidamente instalada; pilhas de travesseiros nas costas e no colo, computador a postos, janela aberta, um pedacinho do mar e um tanto de morro, chamei o nome delas. Pra minha surpresa eles vieram correndo e com a minha ajuda, subiram na cama e se colocaram ao meu redor. A mais novinha, que adora ficar encolhida e apertadinha, encontrou um espaço ao lado do meu quadril que a deixava embaixo de um pedaço de travesseiro que eu usava de suporte para o computador. A outra, mais parecida comigo, foi lá para os pés. Ela gosta de ficar perto, mas sem abrir mão do seu próprio espaço.
O domingo estava praticamente perfeito. O dia estava bonito, com sol aquecendo o friozinho que chegou dois dias atrás e nos pegou desprevenidos. Uma caminhada na beira da praia, os pés molhados na água, as células de energia da natureza inundadas. Era hora de retribuir e escrever. O que, nem sei. Até que umas das cachorras, a mais velha, precisou sair. Eu chamei, pedi que ela ficasse. Mas, devia ser alguma necessidade e ela foi. Quando voltou, queria minha ajuda para subir na cama. Eu falei seu nome umas seis vezes, tentei orientar para que fizesse a volta ou que pulasse subindo sozinha. Mas não, ela estava decidida. Havia de ser por aquele lado e ela queria o meu amparo. Bom. Eu não queria desmanchar toda aquela “estrutura”. Estava confortável e recém havia me concentrado, começando o meu trabalho. Mas, a cachorrinha estava ali diante de mim, sapateando querendo subir e não fazendo isso sem mim.
Eu não gostaria de dizer isso. Mas, a verdade é que a cachorra mais velha é a minha preferida. É que ela veio substituir a minha ausência. Foi quando eu saí de casa que minha mãe resolveu tê-la e, desde então, ela tem mordido quem se aproxima indevidamente e garantido que todos cumpram seus papéis na família. De uns tempos pra cá ela tem ficado mais dócil, permitindo ser amada sem ser de uma forma tão engessada. Fato é que antes ela era uma constante ameaça.
Eu estava diante de um impasse. A mais velha querendo subir, eu toda ajeitada, confortável, inspirada e outra cachorra completamente colada na minha perna como que com uma placa dependurada: “por favor, não perturbe”. Se eu me mexesse para pegar a outra no colo, tudo aquilo iria por água abaixo. Era impossível fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Eu não queria sair dali, não queria tirar a cachorrinha menor da sua tranquilidade. Mas não podia deixar a outra sozinha, fora daquele círculo bonito de domingo. Sem pensar direito, eu simplesmente comecei a me inclinar para o lado querendo alcançar a cachorra e ajuda-la a subir o mais depressa possível. Mas era longe demais e meus braços não alcançavam. Mas eu já estava no meio do caminho, já estava no meio da ação. Não consegui pensar, parar e voltar e começar do zero uma outra solução.
Claro que fazendo isso, de repente, eu ouvi o grito. Era a outra cachorra, levantando braba, havia sido completamente esmagada. Pronto. Para quem já tem predisposição em se sentir culpada, a situação perfeita havia sido criada. Com a cachorra mais velha em cima da cama, me oferecendo a barriga para ser acariciada, a outra rosnava e chorava saindo da cama indignada. Levou dois segundo para que eu estivesse chorando. Levou mais dez até que eu fosse atrás dela pela casa e a encontrasse emburrada na sala. Me debrucei sobre ela, pedi desculpas, carreguei ela de volta pra cama e reconstruí o cantinho que ela havia escolhido e que parecia lhe fazer tão feliz. Por uns quinze minutos, estivemos todas juntas, em paz, como se nada houvesse acontecido. Como se só o melhor nos esperasse naquele domingo. Até que elas se levantaram e saíram.
Se não fossem bichos, talvez não tivessem voltado, não tivessem me perdoado. Não teriam ficado nem um pouco. Teriam fingido não se importar, teriam deixado a mágoa imperar. Ou ainda, poderiam se sentir na obrigação de ficar. Mas não. Só quem viveu essa situação fui eu. Elas devem estar focadas na sua respiração, na vontade de comer ou de se esticar. E, de tanto em tanto, deviam se perguntar: “cadê meus donos, será que eles vão demorar para voltar?!”
Posted by: NandaDornelles on: May 23, 2011
Com as duas mãos, afasto o que há na frente. Como se o desconhecido estivesse encoberto por galhos e folhas de plantas. O movimento contém a esperança do alívio se por acaso o escuro for desfeito pelo colorido. Mas até que chegue isso, muitos passos precisam ser dados. Este é apenas o início.
Movido pelo desejo de ver o que nem sei, acabo fazendo um caminho. Um passo depois de outro passo, e ainda está escuro e úmido. Os barulhos, sussurros, uivos, chegam até meus ouvidos como saídos de meu próprio universo intimo, meus pesadelos mais antigos. O maior de todos, de que morrerei sozinho. O medo é gigante, tão grande que poderia facilmente paralisar. Mas não me fariam cegar, ou calar ou sentir com menos intensidade. Então, é melhor continuar.
A floresta à noite é feita de tudo o que não se pode ver. A falta de luz transforma e revela o potencial mau de cada ser. No escuro, amedrontados, todos empunham suas armas, é fundamental ameaçar, mostrar suas garras. Numa luta entre a vida e a morte, toda tentativa é válida.
Muito tempo já se passou. Eu vejo pouco, mas percebo, algo eriça meus pelos, as sombras e seus vultos e seus medos. Sinto seu cheiro. Tento mostrar que não possuo armas. Minhas mãos estão vazias, as uso apenas para afastar o que se coloca como empecilho à continuidade do caminho. Minha mensagem parece não chegar. Eu só queria estar ali em paz. Como pode um desejo tão simples não se realizar?
Quanto mais dentro da floresta, maior a escuridão e o que antes podia ser removido facilmente com uma mão, agora resiste firme. Nem meus dois braços, nem a imposição do potencial transformador contido num abraço. Tudo é de outra forma interpretado. Não importa o que eu faço. Não sei me despir mais do que posso, não sei falar outra língua, é inútil combinar palavras em rimas. É como estar sendo punido, um castigo por estar ali, por querer seguir, pela pretensão de se pensar destemido. Quem foi que disse que todo ser vivo é lindo?
Mas algo que pulsa dentro do meu peito não me deixa aceitar a realidade de outro jeito. É quando eu vejo. O que vibra é também o que contém energia. Sendo assim, é como ser algo que espontaneamente brilha. A luz que eu sigo no meio da escuridão parte de mim. Será que floresta toda estaria dormindo se não fosse por meu egoísmo em querer descobrir o caminho? Será que isso tudo é realmente preciso?
Paro por um momento e, como um porco espinho, me recolho, de mim mesmo, de todos me escondo. Silêncio. Nada se ouve. Nada se pressente. Como por um passe de mágicas as ameaças estão guardadas. Sem qualquer luz intrusa e insistente, a escuridão retorna ao seu equilíbrio, assim com todos os bichos. Acontece que eu não sou um porco espinho. Eu sou um ser humano, eu penso, sinto. Eu vibro cada vez que existo.
Posted by: NandaDornelles on: May 14, 2011
Tudo começou assim:
Num lindo dia de outono o sol brilhava forte e iluminava tudo ao redor. Diante de um jardim muito verde e cheio de flores, uma moça se sentou e simplesmente apreciou. Por um segundo não desejou nada, apenas de corpo e alma se conectou. Quando correu em pensamento para algum lugar, foi à imagem de beija-flores que ela costumava parar e observar. Lindos, rápidos, como se fossem encantados, eles voavam de uma flor em outra provando do seu melhor sem se preocupar. Na mesma velocidade em que os bichinhos foram encontrados em sua alma, eles apareceram na sua volta como por passe de mágica.
Pega de surpresa pela ilustre presença, ela se pôs a chorar. Lágrimas de gratidão pela prova da sua conexão se curvavam diante dos pássaros. Ela nem sabia para qual olhar. No seu peito havia a certeza de que a vida era linda, de que a prosperidade era infinita. Ela desejou que alguém que precisasse de uma cura específica a recebesse e absolvida pudesse seguir adiante com a vida. Foi quando de repente escutou um barulho e logo em seguida um beija-flor pousou todo destrambelhado num galho. Diante de tanta beleza e harmonia, aquilo destoava dos fatos e aquele pássaro saiu do anonimato.
Ela até tentou se manter serena, tranquila e satisfeita sabendo que a natureza também tem seus percalços. Sim, imprevistos e desequilíbrios podem acontecer até mesmo no mundo dos pássaros. Mas ela já não conseguia mais. Ela estava preocupada com ele, exatamente com aquele que ela via agora dependurado apenas por uma pata de cabeça pra baixo.
Ele parecia estar machucado e ela não pensou duas vezes antes de sair do seu lugar e cautelosamente se aproximar. Ela ia pé por pé, pois não queria se intrometer. Foi respirando e avisando que queria ajudar, que sofria por ver algo tão belo quanto ele sofrer assim na sua frente, sem motivo, sem porquê. Ficou lá por frações do infinito se derramando em lágrimas pelo medo de testemunhar a transição de algo vivo e vibrante em algo tão insuficiente quanto a matéria pura simplesmente. Ela temia ser culpada de alguma forma, temia sua impotência que já a consumia inteira. O maior medo de todos, o de vir a machucar mesmo com o intuito de ajudar. As lágrimas surgiam compulsivas e ela as deixava, as derramava enquanto falava:
- Beija-flor lindo, o que eu posso fazer por você? O que aconteceu? Como você veio parar aqui?
Ela se aproximava centímetro por centímetro para que ele pudesse tomar consciência de sua presença e deixando que o sol aquecesse seu coração e suas mãos. Ela queria que ele soubesse que ela estava ali como um canal entre Deus, ele e um eu. Que pouco a pouco enquanto seus corpos ficavam próximos desaparecia qualquer diferença entre eles já que eram os mesmos em suas crenças, na beleza de suas essências. Cada uma das células dela dizia:
- Beija-flor querido, fique tranquilo, eu jamais o machucaria. Tenha certeza de que eu só farei aquilo que me permitir. Essa é uma lei que, eu sei, seria um grande erro infringir.
Com uma de suas mãos ela segurava o galho em que ele estava dependurado já bem próximo ao seu rosto. Ele com certeza poderia sentir seu hálito. Ela nunca tinha ficado tão próxima assim de um pássaro, podendo ver cada um dos tons do seu penacho e seu bico longo e seus olhinhos que piscavam. Seu intuito era com a outra mão segurá-lo, tirá-lo daquele galho e trazê-lo pra perto do seu peito, pro calor e pro conforto das suas mãos. Ambos podiam sentir o calor irradiando delas em sua direção tamanho o desejo por sua salvação. Quando finalmente ela venceu seu medo e se fundiu em amor com o beija-flor, claro, ele finalmente despertou, bateu asas e voôu.
Ela ainda pôde vê-lo vários dias voltando pra mesma árvore, beijando as mesmas flores exatamente como é de sua missão, talvez nem se apercebendo de outro tipo de existência ou da intenção de alguém que o amou e precisou ficar feliz ao vê-lo partir.
Posted by: NandaDornelles on: May 2, 2011
Véspera de páscoa. As datas comemorativas têm passado rapidamente, parecem estar cada vez mais próximas. Ontem foi Ano Novo e entre então e agora existe a chegada da Laura.
O amor quando vem, vem inteiro, todo, em todas as suas formas e versões. Tudo começa com um característico tipo de amor conhecido como paixão. Aquele grande ponto de interrogação que não nos deixa mais seguir a diante em paz, sem sentir calafrios ao se perguntar: o que será que tem lá?
Seja por curiosidade ou genuíno interesse, esse ‘querer saber’ é o que faz o ser humano crescer. Tudo o que é feito antes disto, como, por exemplo, por vaidade ou por impulso, é apenas uma preparação para o enfrentamento da grande questão.
Vida é o que fazemos, o que sentimos, e, principalmente, o que descobrimos durante estes mergulhos no mar do amor. Estamos vivos quando estamos atentos, dedicados, inteiros correndo por maiores entendimentos, juntando pedaços de nós mesmos em busca de superação. O ser humano sempre foi desafiado pelo ponto de interrogação. Foi ele que nos levou mais longe, que nos colocou no rabo de um foguete, que nos permite comunicar com quem está distante e passar pelo inverno sem ficar doente. O ponto-símbolo da indagação é um trampolim para algo melhor que já somos, é uma salto pro futuro, é um aperfeiçoar do exercício de ser / estar.
Mas, claro, esse não é um lugar fácil de chegar. E muito menos de estar. O questionamento leva-traz o desconhecido considerando que já estejamos preparados, que já somos um ser amadurecido. O despertar oficial do Deus adormecido. O Deus-Eu, uma fração poderosíssima do Supremo que rege o coletivo. Exatamente quando são concebidos nossos filhos.
Os filhos que vêm são de um novo amor. A resposta para um questão antiga: qual o significado da vida? A resposta veio em frações, em pequenas porções de um amor menos transgredido, um amor menos preso à convenções, o exercício de um sentimento de aceitação do próximo e de si mesmo como expressão do que há de mais bonito. Os filhos de agora não vêm como consequência do amor livre ou da rebeldia, agora, ao menos uma grande maioria, já vêm como expressão do amor-aceitação, do amor-perdão, a entrega maior possível de alguém a si mesmo, ao que se é e ao que se foi, seu igual ou sua ilusória oposição. Agora, nesta Era, o desafio está no transcender das aparências e no ancoramento do amor incondicional como última peça de um quebra-cabeça-resposta ao ponto de interrogação inicial. Nada pode ser mais forte do que o nos une como iguais mesmo quando o externo parece oposto e o interno, algo subjetivo demais para ser alcançado apenas com meditação. Pode ser difícil o exercício de olhar, mas tão logo nos permitimos parar, o que vemos em nosso interior é semelhança e simplicidade: não há nada além de energia divina e um infinito potencial de co-criação.
Se antes as duplas eram feitas pela semelhança, agora elas tendem a pequenas diferenças harmonizadas por todo caminho de convergência já percorrido. Não por uma ironia do destino, mas porque chegou o tempo em que pouco , muito pouco nos separa e todos queremos crescer e aprender e fazer parte do que está por vir. A semelhança está na intenção, no anseio das mudanças que ainda faltam. Todo o pouco que ainda falta é concretizado pela esperança de ver quem está ao nosso lado motivado, oferecendo o seu melhor, focado exatamente no que nos faz únicos, ancorados em nossas forças para elas sejam também do outro quando ele precisar.
O equilíbrio deste momento ‘por-vir’ acontece no estado que gera nossos filhos. O amor-entrega presente no ato é que move, que rege da maneira certa, sendo esta não uma simples convenção mas, sim, a que gera o movimento mais produtivo na direção de um mais edificado indivíduo. É a certeza de que nenhum ato foi sem-consciência e que diante de tanta vigilância dos quereres de tudo o que não é essência, só pode que nossos atos não são mais tão somente nossos. Nossos movimentos são parte de um Deus interior sendo ouvido e tendo sua parte do maior Plano Divino sendo seguido através do exercício de cada indivíduo. Agora termina de mudar a função de estar vivo e é assim que geramos nossos filhos.
Viver é um presente concedido a quem está preparado para ver a grandeza de cada Ser mesmo que isso nos cause ainda algum sofrimento ou resquício de dor. Despertar ao amanhecer é ter a chance de reconhecer que somos um escolhido, que a nós foi concebido o direito de continuar, que alguém nos considera relevante, que nossa contribuição pode ser importante, fundamental para o movimento que há de englobar tudo em amor. Só é preciso uma quebra de paradigma, uma respiração, um sorriso, um pedido de perdão para que tudo que não seja perfeição seja transmutado em nossos corações. Pode parecer ainda difícil, mas assim viverão os nossos filhos, em plena expressão de seu Deus-Amor como resposta ao mais lindo ponto de interrogação: qual é, afinal, a nossa missão?
Posted by: NandaDornelles on: April 4, 2011
Eu vou pintar um quadro. Um quadro muito bonito, colorido com tintas de carinho infinito em tons de Amor & Perdão.
Neste quadro um pai abraça uma filha. Dentre todos os problemas que nos aterrorizam, o pior de todos é o de estar perdido, não se saber divino.
Como as cores são suaves, os gestos são delicados e os braços que abraçam exalam ternura e perdão. A compaixão surge como o ápice de amor e entrega numa relação.
O número de chances para o crescimento não pode levar em conta os erros, mas a busca pelo acerto que não pode existir sem uma dose generosa de honestidade. Quem se redime sinceramente se compromete consigo mesmo através do outro. O outro pode ser o pai, ou a mãe, até uma irmã ou amiga alguém com poder para mudar a situação e guiar a transformação.
No quadro os olhos da menina estão baixos, envergonhados, mas a mão segura com firmeza outra mão. A que ela agarra sem sombra de dúvida como símbolo de crenças mais bonitas. As lágrimas caem tímidas pelo medo do desapontamento, pela perda do tempo, pelo arrependimento. A experiência de dor é sempre um início, uma porta de entrada para um mundo novo. Todo erro é perdoado quando a serviço deste ímpeto: a cura da alma que não se conforma e sofre com uma vida falsa, parca, limitada.
Quem dá a mão sente a responsabilidade de ser para alguém algo como o chão. É preciso estar ali, quer queira quer não. Nada no mundo pode ser tão urgente quanto ser a golfada de ar necessária para quem quer respirar.
Ao doador não é recomendado sentir demasiado orgulho. Foco é requisito básico. Uma montanha é uma montanha porque não pensa em outra coisa, não cogita ser uma flor. Se acaso o fizer, desmorona em tristeza por não ser capaz de desabrochar um símbolo do amor. Firmeza de propósito em ser o que se é, não se deixar corromper, não amolecer. O mundo está de braços abertos para quem quer crescer. Mas, em primeiro lugar, é preciso querer e sem medo do que os outros poderão dizer.
Neste quadro o figurativo precisa ser cuidadosamente observado. Há ainda o amor que precisa ser notado. Ele é como um véu entre um e outro, uma gentileza em existir que parte do coração, um respeito mútuo e próprio, uma música constante a embalar palavras difíceis para que não cheguem tortas, para que não sejam mal interpretadas. Palavras como veículos de sensações necessárias para as transformações. O entendimento é um detalhe. Pode inclusive vir mais tarde. Fundamental é a sensibilização, o toque que muda a direção do olhar de baixo para cima, agora, finalmente, otimista.
A última chance nunca é dada por alguém que não seja o próprio proponente. Quando ele pede nem é preciso que o outro responda. No íntimo ele já construiu um novo ciclo em passado, presente e futuro. Ele já se arrependeu, já se comprometeu e já se redimiu. Tudo no mesmo segundo. Ele não pode perder tempo, seria burrice cometer o mesmo erro. A última chance pode ser tanto a primeira quanto a décima terceira. Depende de quem erra, depende da intensidade do giro que a alma desperta, a energia de que ela libera. Mudar é dar uma pirueta no ar, é parar de contrariar e decidir dançar a música da vida até que seja possível se descobrir como uma melodia única, a sinfonia mais bonita ou a melhor bailarina.
Errar faz parte de acertar. O erro é fundamental para que o perdão e o arrependimento. Tudo ingrediente para a compaixão, um sentimento nobre que promete virar tudo do avesso. A luz que ilumina o quadro pintado vem de dentro enquanto o futuro se constrói mágico e perfeito. Muito azul e traços meigos. A atmosfera está aquecida por detalhes pequenos como a presença de uma gata e de uma lareira acesa. Entre-palavras no ar paira o valor do homem quando a compaixão nos salva da descrença. Nada pode valer mais do que o direito de recomeçar.